Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Indignação da Ciência

Afonso Peche Filho*

A indignação nasce quando aquilo que acontece entra em conflito com aquilo que deveria acontecer. Não é apenas irritação, descontentamento ou revolta momentânea. Trata-se de uma reação moral diante da injustiça, do desperdício, da negligência ou da perda de valores considerados essenciais. Indignar-se significa reconhecer que determinada situação não pode ser aceita como normal.

Nesse sentido, também a ciência pode se indignar. Evidentemente, a ciência, como sistema de conhecimento, não possui sentimentos. Entretanto, pesquisadores, técnicos, instituições e comunidades científicas podem expressar uma indignação coletiva diante da crescente distância entre as necessidades funcionais da ciência pública e as prioridades estabelecidas pela sociedade e pelo poder público.

Essa indignação não deve ser confundida com simples queixa pessoal. Não se trata apenas do desconforto de profissionais que desejam melhores condições para desenvolver suas atividades. A questão é mais ampla. A indignação da ciência surge da percepção crítica de que a sociedade pode estar desperdiçando patrimônio intelectual, experiência acumulada, capacidade técnica e possibilidades concretas de futuro.

Existem, porém, diferentes maneiras de viver a indignação. A primeira é a indignação passiva. Ela se manifesta pelo desalento, pela repetição das lamentações e pela sensação de impotência. Embora legítima como expressão de sofrimento, tende a permanecer fechada em si mesma. Quando prolongada, pode produzir amargura, isolamento e resignação. A pessoa reconhece o problema, sofre com ele, mas não encontra caminhos para transformá-lo.

A segunda é a indignação construtiva. Ela não nega a dor nem diminui a gravidade da situação, mas procura transformar o inconformismo em consciência, argumentação e ação responsável. A indignação construtiva organiza fatos, comunica consequências, mobiliza pessoas e propõe alternativas. Em vez de alimentar apenas a revolta, busca produzir compreensão social e compromisso público.

É nessa segunda forma que a indignação da ciência deve encontrar sua expressão mais fecunda. A defesa da ciência pública não pode permanecer restrita aos corredores das instituições, aos encontros acadêmicos ou às manifestações isoladas de pesquisadores. Precisa alcançar a sociedade, pois é ela quem se beneficia do conhecimento produzido e também quem sofre quando esse conhecimento deixa de orientar decisões, políticas e práticas.

A política de distanciamento das necessidades funcionais da ciência pública não se manifesta somente na falta de recursos. Ela também aparece na ausência de escuta, na descontinuidade das prioridades, na demora das decisões e na incapacidade de reconhecer que a produção científica exige tempo, estrutura, estabilidade, equipes qualificadas e planejamento de longo prazo.

Quando a ciência é tratada como atividade secundária, toda a sociedade perde capacidade de antecipar problemas, formular respostas e construir soluções próprias. Perde-se conhecimento sobre o território, a agricultura, a saúde, o ambiente, a água, o clima e as necessidades humanas. O prejuízo não é apenas institucional. É econômico, social, ambiental e cultural.

Por isso, a indignação da ciência deve convocar uma ação coletiva e responsável. Cabe à sociedade compreender que sustentar a ciência pública significa cuidar de sua própria segurança, autonomia e possibilidade de desenvolvimento. Cabe aos governos estabelecer compromissos consistentes, permanentes e compatíveis com as exigências da pesquisa.

A indignação, quando transformada em responsabilidade pública, deixa de ser lamento e se torna força de mudança. Ela afirma que o conhecimento não pode ser desperdiçado, que a experiência não pode ser ignorada e que o futuro não deve ser construído sem a presença ativa da ciência.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC

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