Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Revisão da concessão do Parque Cantareira e Horto Florestal reacende debate sobre gestão de áreas protegidas

Foto: Urbia

A concessão das áreas de uso público do Parque Estadual da Cantareira e do Parque Estadual Alberto Löfgren (Horto Florestal), na zona norte da capital paulista, voltou ao centro do debate após a empresa responsável pela gestão, a Urbia, abrir negociações com o governo de São Paulo para rever os termos do contrato firmado em 2022. O acordo, com duração prevista de 30 anos e estimativa de R$ 45 milhões em investimentos ao longo do período, transferiu à iniciativa privada a administração de serviços como visitação, lazer e infraestrutura de apoio, mantendo sob responsabilidade do Estado as atribuições de preservação ambiental.

Em junho de 2026, as tratativas entre a concessionária e a Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) indicavam inicialmente a possibilidade de devolução da concessão. A hipótese foi confirmada pelo secretário da pasta, Rafael Benini, que apontou a avaliação de cenários como relicitação ou repactuação contratual. Posteriormente, no entanto, informações ligadas à administração dos parques indicaram que a empresa também considera permanecer à frente da gestão, desde que haja revisão, sobretudo, das condições financeiras estabelecidas no contrato.

O principal ponto de tensão está relacionado à frustração das receitas projetadas. O planejamento econômico da concessão foi baseado em estimativas de fluxo de visitantes que não se concretizaram, resultando em arrecadação abaixo do esperado e, segundo a própria concessionária, inviabilizando a manutenção do modelo nos termos originalmente pactuados. Pelo contrato, o risco associado à exploração econômica da área é integralmente da concessionária. A Urbia deve permanecer responsável pela gestão dos parques até a conclusão de um eventual processo de relicitação, previsto para ocorrer apenas no próximo ano.

Paralelamente às discussões contratuais, o custo de acesso às atividades oferecidas nos parques tem sido um dos alvo de críticas dos frequentadores. Em 2026, o estacionamento na Cantareira varia entre R$ 10 para motos e R$ 19 para carros; o aluguel de bicicletas custa R$ 25; passeios de pedalinho saem por R$ 30 a cada meia hora; visitas guiadas no Horto Florestal chegam a R$ 70; para realizar a tradicional trilha da Pedra Grande, o valor cobrado é de R$ 60. Antes da concessão, as atrações eram acessíveis à maioria da população.

O episódio retoma discussões presentes no momento da concessão, formalizada durante a gestão do então governador João Doria. Naquele contexto, a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) registrou preocupações relacionadas ao modelo adotado para a gestão de áreas protegidas. Entre os pontos destacados pela entidade estavam a ausência de participação mais ampla da comunidade científica no processo decisório e os riscos associados à dependência de receitas de visitação para sustentar contratos de longo prazo, inclusive dificultando o acesso de famílias de menor renda aos parques públicos.

Com a reabertura das negociações e a possibilidade de revisão ou encerramento antecipado da concessão, o caso dos parques da Cantareira e do Horto Florestal passa a ser acompanhado à luz desses elementos. As dificuldades de rentabilização da operação e a necessidade de reequilíbrio contratual recolocam em evidência os riscos – e equívocos – de conciliar exploração econômica, acesso público e preservação ambiental em unidades de conservação no Estado de São Paulo.

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