Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Valores Distorcidos

Afonso Peche Filho

A competência científica adquire sentido público quando acompanha a reflexão sobre as consequências do conhecimento que produz. Entretanto, o entusiasmo pelos resultados técnicos, o reconhecimento profissional e a conquista de financiamento podem enfraquecer esse discernimento. Nessas circunstâncias, pesquisadores e instituições passam a valorizar a excelência de suas realizações sem examinar suficientemente os destinos que elas ajudam a construir.

Na pesquisa, é possível desenvolver soluções tecnicamente admiráveis que favoreçam processos ambientalmente prejudiciais. Um estudo pode apresentar rigor metodológico, gerar publicações e sustentar uma tecnologia comercialmente promissora, enquanto deixa fora de seu campo de observação a degradação do solo, a contaminação da água, a perda de biodiversidade e os custos impostos à população. A precisão da resposta experimental não assegura a pertinência da pergunta que orientou o trabalho.

A aproximação entre ciência e mercado pode produzir benefícios importantes. A distorção surge quando o interesse comercial passa a definir, de maneira predominante, o que merece investigação, quais resultados recebem visibilidade e quais consequências permanecem silenciadas. Nesse ambiente, a capacidade de atrair financiamento pode ser confundida com relevância pública, enquanto a disposição para questionar riscos passa a ser tratada como obstáculo ao desenvolvimento.

Nas instituições públicas, essa inversão assume particular gravidade. Seus recursos, sua infraestrutura e sua credibilidade resultam de um compromisso com a sociedade. Quando especialistas ou dirigentes valorizam tecnologias sem examinar suficientemente seus efeitos coletivos, colocam esse patrimônio a serviço de objetivos cuja legitimidade precisa ser discutida. A autoridade científica pode conferir aparência de segurança a decisões que exigiriam avaliação mais ampla, acompanhamento prolongado e debate público.

O problema se aprofunda quando os benefícios são apropriados por poucos e os prejuízos se distribuem pelo território. A rentabilidade de uma tecnologia pode conviver com o assoreamento e poluição dos rios, a simplificação das paisagens e a redução da capacidade produtiva dos solos. Parte dos ganhos permanece privada; parte dos custos chega aos serviços públicos, às comunidades e às gerações seguintes. Nessas condições, celebrar apenas produtividade e eficiência significa apresentar uma contabilidade incompleta do desenvolvimento.

Há, ainda, uma consequência institucional: pesquisas voltadas à prevenção, à compreensão dos processos ecológicos e à construção de alternativas podem perder espaço por oferecerem menor retorno comercial imediato. O pesquisador que investiga limites e consequências encontra dificuldades, enquanto aquele que confirma expectativas recebe reconhecimento. Forma-se, assim, uma cultura em que o êxito individual pode crescer junto com o enfraquecimento da responsabilidade coletiva.

Enfrentar essa distorção exige ampliar os critérios de mérito científico. Além de perguntar se uma tecnologia funciona, é necessário investigar em quais condições, durante quanto tempo, com quais dependências e a que custo ambiental e social. Exige também autonomia para divulgar resultados desfavoráveis, transparência sobre interesses envolvidos e disposição institucional para rever caminhos considerados bem-sucedidos.

A responsabilidade pública da ciência se realiza na capacidade de orientar escolhas que preservem as condições da vida e atendam às necessidades sociais. Isso requer coragem para reconhecer que certos avanços aparentes acumulam perdas difíceis de reparar. Uma realização pode ser tecnicamente exemplar e socialmente prejudicial. O valor do conhecimento depende também das consequências que ajuda a produzir e da liberdade institucional para interromper, corrigir ou redirecionar iniciativas quando seus efeitos comprometem o bem comum.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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