Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Por Dentro de um Gigante

Afonso Peche Filho*

Há gigantes que podem ser reconhecidos pela altura. Outros, pela história. Alguns se tornam gigantes porque atravessaram gerações construindo silenciosamente conhecimentos que passaram a fazer parte da vida cotidiana da sociedade. São instituições que aprenderam a transformar perguntas em experimentos, experimentos em conhecimento e conhecimento em desenvolvimento. Vistas de fora, impressionam pelo passado. Vistas por dentro, revelam algo ainda mais importante: uma extraordinária construção humana.

Por dentro de um gigante existem laboratórios, campos experimentais, coleções, bibliotecas, equipamentos, oficinas, casas de vegetação, máquinas e corredores marcados pelo tempo. Mas nada disso explica sozinho sua grandeza. A verdadeira dimensão de uma instituição científica está nas pessoas que aprenderam a observar, perguntar, comparar, medir, interpretar e persistir. Está nos pesquisadores que dedicaram décadas a um problema aparentemente pequeno até perceberem que sua solução poderia modificar uma cultura agrícola inteira. Está nos técnicos que conhecem detalhes que nenhum manual registra. Está nos funcionários que mantêm funcionando estruturas cuja importância somente se percebe quando deixam de funcionar.

Um gigante científico é também uma forma particular de memória. Em seus arquivos estão resultados; em seus campos, experiências; em suas coleções, testemunhos da biodiversidade; em seus laboratórios, métodos aperfeiçoados durante décadas. Mas existe ainda uma memória invisível, transmitida entre gerações: a experiência acumulada. É o conhecimento de quem sabe reconhecer uma alteração no solo pela estrutura dos agregados, perceber uma deficiência na planta antes que ela se torne evidente ou compreender o comportamento de uma cultura porque acompanhou dezenas de ciclos agrícolas.

Talvez seja justamente essa dimensão invisível que torne tão difícil compreender, de fora, a fragilidade de um gigante.

Instituições científicas podem possuir enorme patrimônio intelectual e, simultaneamente, enfrentar dificuldades materiais. Podem carregar uma história admirável enquanto convivem com laboratórios que precisam ser atualizados, equipes que diminuem, estruturas que envelhecem e especialistas que se aposentam sem encontrar sucessores. O paradoxo é inquietante: quanto maior o patrimônio científico acumulado, maior deveria ser o cuidado para garantir sua continuidade.

Porque gigantes também envelhecem.

E preservar um gigante não significa simplesmente conservar prédios ou celebrar aniversários. Significa assegurar condições para que continue pensando, experimentando e formando novas gerações. Uma instituição científica não pode sobreviver apenas de sua memória. Precisa de renovação. Precisa receber jovens pesquisadores, técnicos, estudantes, recursos, equipamentos e novos desafios. Precisa combinar tradição e inovação, experiência e inquietação.

Existe ainda outra razão para olhar para dentro dessas instituições. Os desafios contemporâneos estão tornando seu conhecimento novamente estratégico. Mudanças climáticas, segurança alimentar, conservação do solo e da água, biodiversidade, agricultura de baixo carbono, adaptação dos sistemas produtivos e recuperação ambiental exigem ciência construída com continuidade. Muitos problemas apresentados como novos possuem raízes que vêm sendo estudadas há décadas.

Por isso, talvez seja necessário reaprender a enxergar nossos gigantes. Não como monumentos de um passado glorioso, mas como infraestruturas vivas de futuro.

Entrar simbolicamente dentro de um gigante científico é descobrir que sua força não reside apenas naquilo que realizou, mas naquilo que ainda pode realizar. É perceber que cada laboratório, campo experimental, coleção e pesquisador representa uma pequena parte de uma inteligência coletiva construída durante gerações.

E talvez a maior responsabilidade de uma sociedade diante de seus gigantes seja justamente esta: não permitir que sejam admirados apenas depois que deixarem de existir.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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