Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

A trajetória de José Eduardo Marcondes no avanço do controle biológico no Brasil

Há mais de duas décadas, o pesquisador José Eduardo Marcondes de Almeida constrói, a partir do Instituto Biológico, em Campinas, uma trajetória ligada à pesquisa e ao desenvolvimento de soluções para a agricultura. Engenheiro agrônomo, com mestrado e doutorado em Entomologia pela USP, ele integra, desde 1998, o Laboratório de Controle Biológico da instituição, onde desenvolve pesquisas voltadas ao uso de fungos entomopatogênicos como alternativa ao controle químico de pragas.

Seu trabalho se concentra na seleção, produção e aplicação desses microrganismos — como o Metarhizium anisopliae — no combate a pragas que afetam culturas como cana-de-açúcar, café e citros. Entre suas linhas de pesquisa está o controle biológico da cigarrinha-da-raiz da cana, um dos desafios recorrentes do setor sucroenergético, contribuindo para o avanço do uso de bioinsumos no país.

Ao longo da carreira, José Eduardo também tem atuado na transferência de tecnologia e na interlocução entre pesquisa pública e setor produtivo. Seu trabalho dialoga com uma agenda cada vez mais presente no campo: a busca por alternativas de manejo que contribuam para a redução do uso de defensivos químicos e para sistemas produtivos mais sustentáveis. Ele falou à APqC sobre sua trajetória e sua visão sobre o papel da ciência na agricultura.

APqC – O que despertou seu interesse inicial pela área de controle biológico e pela entomologia?

JEM – Ainda na adolescência, havia me envolvido com um trabalho escolar do colégio de ensino médio, sobre agricultura, adubação e controle biológico na cana-de-açúcar, principalmente sobre os fungos entompatogênicos. Isso me estimulou a pensar na minha vida como um pesquisador nessa área e fui para a agronomia exatamente por entender que seria a minha vida. Quando planejamos nossa vida com um propósito, as coisas acontecem com a própria ajuda de Deus.

Como o senhor avalia a evolução do controle biológico no Brasil desde o início da sua carreira até hoje?

Quando fazia agronomia na antiga Escola Superior de Agricultura de Lavras, Minas Gerais, hoje UFLA, na década de 1980, o controle biológico era considerado algo insustável, utópico e não produzia resultado, porque não havia pesquisa com consistência, a chamada “massa crítica”. Mas, alguns programas de controle biológico da cigarrinha da folha da cana no Nordeste e depois em 1998, da cigarrinha da raiz da cana em São Paulo, muita coisa mudou, devido à ineficiência dos químicos e os resultados importantes dos agentes de controle biológico, assim como abertura de empresas interessadas no bioprocesso. Hoje com o programa Nacional de Bioinsumos, o Brasil se tornou uma potência na área de bioinsumos.  

O Brasil está preparado para ampliar o uso dessas tecnologias?

O Brasil é a potência mundial em bioinsumos. Temos biodiversidade, laboratórios, universidades para formação de agentes, instituições públicas e privadas captando dinheiro e desenvolvendo pesquisas de alto nível, além de uma legislação que favorece esse sistema, apesar de ser deficitária em alguns pontos.

Quais são as principais vantagens do controle biológico em relação aos defensivos químicos, especialmente do ponto de vista ambiental e da saúde?

Os bioinsumos como agentes de controle biológico são eficientes em várias situações e hoje podem ser aplicados em grandes áreas com baixo impacto ambiental e menos toxicidade, não causando problemas de saúde para o homem.

Sua trajetória está fortemente ligada ao uso de fungos entomopatogênicos. Quais são os principais desafios científicos nesse campo?

Os fungos entompatogênicos são os primeiros agentes microbianos a serem estudados e utilizados, por causa da facilidade de serem encontrados na natureza e de produção em fermentação sólida, arroz. Porém, essa questão do escalonamento da produção desses agentes, bem como a formulação de bioinseticidas, são os maiores desafios da aplicação desses agentes.

O controle da cigarrinha-da-raiz da cana é frequentemente citado como um marco. Qual foi o impacto dessa linha de pesquisa no setor agrícola?

Quando a cigarrinha-da-raiz começou a causar prejuízos para a cana em São Paulo, houve um desespero das usinas e produtores, pois não havia inimigo natural e houve uma explosão populacional. Porém, através de um projeto temático FAPESP, iniciamos os trabalhos de pesquisas para selecionar cepas, produção em escala e eficiência em campo. Essa praga abriu os olhos dos produtores para outros problemas de pragas e doenças, mudando completamente o cenário no Estado de São Paulo e Brasil.

De que forma a pesquisa pública, como a realizada no Instituto Biológico, contribui para a inovação no agronegócio?

Graças ao Instituto Biológico, universidades públicas e investimento de recursos públicos através da FAPESP, por exemplo, muitas soluções biológicas foram desenvolvidas e deu oportunidade para que o setor privado iniciasse sua atividade, buscando soluções mais rápidas e eficientes para controle de pragas ou mesmo em bioprocessos.

Ao longo da sua trajetória, o senhor tem atuado na interface entre pesquisa e aplicação prática. Quais são os principais desafios desse processo?

No início da minha trajetória de pesquisador, quem fazia mestrado e doutorado tinha que procurar um concurso público. Mas, com as mudanças de paradigmas na ciência e tecnologia no Brasil, o setor privado tem entrado com força, através de consórcios de empresas ou mesmo misto com o Estado. Temos projetos como o BAT – Bioprodutos para Agricultura Tropical financiados diretamente pelo setor privado, com 3 milhões de aporte para a solução de uma importante praga da cana-de-açúcar Sphenophorus levis. O maior desafio é mostrar para ambos os setores a importância do investimento em pesquisa para solucionar os nossos problemas agrícolas e pecuários.

Como a tecnologia de encapsulamento dos fungos pode transformar, na prática, o controle de pragas nas lavouras brasileiras?

A formulação de fungos entompatogênicos é uma das áreas de pesquisas mais necessárias para a manutenção dos propágulos infectivos desses agentes de controle biológico. Não só as técnicas de encapsulamento, mas outras tais como: emulsão ou mesmo pó molhável são maneiras importantes para estabilizar os fungos de modo que permaneçam vivos pr mais tempo em condições de ambiente.

Quais são os principais desafios para levar essa solução do laboratório para o uso em larga escala no campo?

Atualmente os maiores desafios para os fungos entomopatogênicos são os bioprocessos de produção, principalmente em sistemas de fermentação líquida para que possamos ter um escalonamento mais rápido, por exemplo, em três dias obter os propágulos em quantidade necessária para aplicação em campo. O outro desafio, como já citado, é a formulação, para dar estabilidade no ambiente e na aplicação.

Entrevista concedida a Bruno Ribeiro, para a APqC

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