
Afonso Peche Filho*
A autorresponsabilidade pode ser entendida como a capacidade de reconhecer a própria parcela de compromisso diante das escolhas, atitudes, omissões e consequências relacionadas àquilo que fazemos. Na vida do pesquisador científico, ela adquire significado particular. Ser autorresponsável não significa considerar-se culpado por tudo aquilo que acontece ao redor, muito menos assumir individualmente responsabilidades que pertencem às instituições e às políticas públicas. Significa compreender, com lucidez, aquilo que está ao alcance de sua consciência, de seu conhecimento e de sua capacidade de agir.
No cotidiano da pesquisa, essa responsabilidade manifesta-se de diferentes formas. Está no compromisso com a qualidade científica, no cuidado metodológico, na formação de novos profissionais e na disposição para transformar conhecimento em benefício social. O pesquisador autorresponsável não se limita a perguntar o que deve fazer formalmente. Pergunta também o que pode fazer, o que precisa ser feito e qual contribuição sua experiência permite oferecer.
Entretanto, essa consciência tem um peso.
Esse peso torna-se especialmente evidente quando o pesquisador presencia o enfraquecimento progressivo das condições institucionais necessárias ao exercício pleno de sua missão. Redução da capacidade operacional e distanciamento entre instituições científicas e necessidades da sociedade produzem uma situação particularmente angustiante: quanto menor se torna a capacidade institucional, maior parece tornar-se o esforço individual necessário para sustentar aquilo que ainda permanece vivo.
É nesse ponto que a autorresponsabilidade precisa ser compreendida com cuidado.
Não se pode transformar compromisso em culpabilização. O pesquisador não deve carregar sozinho o peso de estruturas que dependem de decisões políticas, administrativas e coletivas. Nenhuma dedicação individual substitui instituições fortalecidas, equipes renovadas, recursos adequados e políticas científicas de longo prazo. Autorresponsabilidade não pode significar naturalizar o abandono institucional nem exigir que indivíduos compensem indefinidamente deficiências estruturais.
Existe, porém, um dilema profundo. Quem acumulou conhecimento durante décadas percebe problemas que outros talvez ainda não percebam. Conhece a história da instituição, compreende o valor de seus acervos, reconhece competências ameaçadas e sabe quanto tempo é necessário para reconstruir capacidades científicas perdidas. Saber também pesa.
O pesquisador consciente dificilmente consegue permanecer indiferente quando percebe que algo de valor público está sendo progressivamente enfraquecido. Surge então uma inquietação legítima: até onde vai minha responsabilidade?
Talvez a resposta esteja no equilíbrio entre compromisso e limite. Ser autorresponsável significa continuar propondo, registrando, comunicando, formando pessoas, construindo parcerias e defendendo aquilo que se considera relevante. Significa não escolher a indiferença como resposta. Mas significa também compreender que preservar a ciência pública é uma responsabilidade compartilhada entre pesquisadores, dirigentes, governos e sociedade.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre carregar sozinho uma instituição e não abandonar sua responsabilidade diante dela.
O peso da autorresponsabilidade nasce justamente dessa consciência. Quem conhece profundamente o valor de algo sente mais intensamente a possibilidade de sua perda. Mas essa consciência não precisa produzir apenas sofrimento. Pode produzir posicionamento, memória, resistência construtiva e ação.
Talvez a autorresponsabilidade científica possa ser resumida por uma pergunta simples e difícil:
Diante daquilo que sei, daquilo que vejo e daquilo que ainda posso fazer, qual é a minha responsabilidade?
Responder honestamente a essa pergunta talvez seja um dos maiores desafios éticos de quem dedicou a vida à ciência.
*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC