
Ex-diretor-geral do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o pesquisador Marco Antonio Teixeira Zullo construiu uma trajetória sólida e reconhecida na pesquisa pública paulista. Farmacêutico-bioquímico formado pela Faculdade de Farmácia e Odontologia de Ribeirão Preto, com mestrado em Química pelo Instituto Militar de Engenharia, Zullo ingressou no IAC em 1975 e, desde então, desenvolve pesquisas na área de química dos produtos naturais, com ênfase em química esteroídica, envolvendo alcaloides, sapogeninas esteroídicas e brassinosteroides. Ao longo da carreira, publicou dezenas de artigos científicos, capítulos de livros e trabalhos em eventos, além de registrar produtos tecnológicos e colaborar com mais de uma centena de pesquisadores no Brasil e no exterior.
É a partir dessa experiência acumulada como pesquisador e gestor da pesquisa pública que Zullo assina o artigo “Ameaças na Pesquisa Agropecuária em São Paulo”, no qual apresenta um diagnóstico contundente sobre o desmonte progressivo dos institutos de pesquisa do Estado. Com base em dados orçamentários, marcos legais e na história institucional da ciência paulista, o autor alerta para a perda acelerada de recursos, de pessoal e de condições mínimas para a produção científica, apontando riscos concretos ao futuro da pesquisa agropecuária. Nesta entrevista, Zullo aprofunda as reflexões do artigo e discute os desafios enfrentados pelos pesquisadores científicos e pelos institutos públicos diante das políticas recentes do Governo do Estado de São Paulo.
APqC – O senhor demonstra que os recursos destinados à pesquisa agropecuária em São Paulo caíram mais de 90% em relação ao orçamento estadual ao longo de cinco décadas. O que esse dado revela sobre a prioridade que o Estado tem dado à pesquisa pública?
Zullo – Uma dissertação do agrônomo e economista Plínio Ribeiro dos Santos Filho analisou a alocação de recursos do Governo do Estado de São Paulo à pesquisa agropecuária no período de 1970 a 1990. Já nessa época, verificava-se uma redução nas despesas nessa área, principalmente na década de 1980, com a priorização de recursos para as secretarias da área social, como Saúde e Educação, e para o pagamento dos Encargos Gerais do Estado e do Serviço da Dívida Pública. Essa redução se acentua ainda mais nas décadas seguintes, até a situação crítica que hoje se vive. Ao acompanharmos a evolução da razão entre despesas com pesquisas da SAA e as despesas totais do Estado, ela varia de 0,6156% em 1971 para 0,0593% nos primeiros três trimestres de 2025. Essa redução de 90,4%, não sendo abrupta, mas paulatina, demonstra claramente que a pesquisa agropecuária não é prioridade para os diversos governos do Estado de São Paulo.
Ao longo do texto, o senhor mostra que esse desinvestimento não é recente nem pontual, mas uma política de longo prazo. Em que momento histórico essa inflexão se consolida e por que a pesquisa agropecuária parece ter perdido centralidade na agenda do governo paulista?
Nos governos Abreu Sodré e Laudo Natel, as despesas com a pesquisa agropecuária eram, em média, pouco acima de 0,5% das despesas do Governo do Estado, um pouco menores no governo Paulo Egídio (0,47%), porém com uma redução de 24% no governo Paulo Maluf–José Maria Marin. A partir daí, esse processo continua praticamente sem interrupção até agora. Devo ressaltar, no entanto, que não há dados disponíveis para o quinquênio 1991–1995, correspondente a todo o governo Fleury Filho e ao primeiro ano do governo Mário Covas. Houve importantes implementações na pesquisa agropecuária no governo Fleury Filho, como a implantação dos Planos de Modernização dos Institutos de Pesquisa da Coordenadoria da Pesquisa Agropecuária, com grande volume de recursos para infraestrutura, contratação de servidores administrativos e pesquisadores científicos, edição das Leis Complementares nº 661, 662 e 727, entre outras ações. Contudo, o Portal da Transparência da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo não apresenta dados para esse período. No governo Mário Covas, a média das despesas do Governo do Estado com a pesquisa agropecuária chegou a 0,12% e continuou a diminuir.
Contribuem para o avanço dessa involução, no período considerado (1970 a 2024), inicialmente a consolidação do processo de urbanização no Brasil, com elevada migração de habitantes do campo para a cidade; o desenvolvimento do moderno agronegócio; a reorganização da pesquisa agropecuária federal, com a criação e consolidação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária; a vinculação obrigatória de recursos orçamentários a determinadas ações governamentais, como as de saúde e educação; a criação ou o aprimoramento de faculdades de agronomia e zootecnia de qualidade, com a realização de pesquisas de excelência e com recursos humanos abundantes; e a pequena importância política da pesquisa agropecuária frente a outros atores.
O senhor aponta a fragmentação institucional dos institutos e a falta de uma política integrada de ciência e tecnologia. Como essa desorganização afeta o cotidiano dos pesquisadores e a capacidade de gerar inovação?
Essa desorganização é permanente, infelizmente. Hoje, os institutos de pesquisa da administração direta de São Paulo estão em três secretarias: Agricultura, Saúde e Meio Ambiente. São órgãos de governo que devem atender a prioridades de ações governamentais, que podem ser permanentes ou efêmeras. Têm estado sujeitos a administrações, às vezes capazes, mas em outras ocasiões marcadas por períodos de balbúrdia administrativa. Até há poucos anos, a média de permanência de um secretário de Agricultura era de nove meses no cargo: como haver continuidade administrativa dessa maneira?
No início da carreira de pesquisador científico, os institutos da SAA estavam organizados em três coordenadorias: Pesquisa Agropecuária, Recursos Naturais e Socioeconômica. Na Secretaria da Saúde, também havia várias coordenadorias. Apenas em 1990 ocorreu um movimento, o Fórum dos Diretores dos Institutos de Pesquisa, que passou a reunir esses dirigentes com o objetivo de discutir problemas administrativos comuns, financiamento das instituições, gerenciamento de recursos humanos, entre outros assuntos. Tratava-se de um órgão informal, por vezes malvisto pelos governos estaduais.
O Conselho das Instituições de Pesquisa do Estado de São Paulo (CONSIP), criado em 1989 por decreto legislativo, ao qual competiria subsidiar o governador do Estado na formulação e implementação da política estadual de desenvolvimento científico e tecnológico, reuniu-se pela primeira vez apenas em 2010, por insistência do Fórum dos Diretores. Tanto o CONSIP quanto o Fórum dos Diretores estão há muito inativos, resultando no “cada um por si” na administração dos institutos. Não havendo interlocução entre si, não há como estabelecer contato produtivo com a administração superior do Estado, restando apenas a fragilização dos institutos de pesquisa.
A carreira de Pesquisador Científico aparece no artigo como um ponto central de tensão, marcada por perdas salariais, mudanças legais e quebra de isonomia com as universidades. Como isso impacta a permanência de pesquisadores qualificados e a renovação dos quadros?
Não se pode dizer que permanecem nos institutos apenas pesquisadores menos qualificados: as oportunidades não surgem igualmente para todos, nem no tempo adequado. A carreira de Pesquisador Científico surge, na década de 1970, como um ponto de unificação dos institutos de pesquisa em torno do reconhecimento de cientistas empregados pelo Estado de São Paulo como atores competentes no desenvolvimento científico e tecnológico, ao lado das universidades públicas e dos institutos isolados de ensino superior. Desde o início, porém, sofreu adversidades que prejudicaram profundamente os institutos.
Se, no início, até 1988, os vencimentos de pesquisadores científicos em regime de tempo integral e de docentes universitários em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa eram equivalentes, a progressão nas carreiras não o era: enquanto nas universidades o processo era contínuo, nos institutos o primeiro enquadramento na série de classes ocorreu em 1976, porém o segundo apenas em 1984, com a inclusão da anualidade do acesso, da progressão dentro da série de classes.
Com a obtenção das autonomias administrativa, didática e financeira das universidades após a promulgação das Constituições Federal de 1988 e Estadual de 1989, e com a vinculação de recursos às universidades públicas paulistas à arrecadação do ICMS estadual, os vencimentos nas carreiras citadas passaram a ser decididos em instâncias diferentes, em detrimento dos institutos de pesquisa. Ainda que os vencimentos de pesquisadores fossem inferiores aos dos docentes universitários, aqueles eram muito superiores aos percebidos pelos servidores auxiliares, mantendo um ambiente de crescente insatisfação nos institutos de pesquisa.
A mobilização do Fórum dos Diretores e da Comissão Permanente do Regime de Tempo Integral levou à criação das carreiras de apoio e de assistente técnico à pesquisa científica e tecnológica, com o objetivo de estancar o êxodo de profissionais de níveis básico, médio e superior nos institutos de pesquisa. O sucesso inicial da criação dessas carreiras foi, contudo, suplantado pela realidade: vencimentos muito superiores no mercado de trabalho, tanto público quanto privado, aliados à baixíssima reposição desses funcionários, mantiveram o êxodo ao longo de todo o período. Se eram alguns milhares de servidores na ativa na pesquisa agropecuária na década de 1970, hoje são poucas centenas, insuficientes para a atuação eficiente dos institutos de pesquisa.
O texto menciona a redução drástica do número de servidores ativos, além da queda contínua das despesas de custeio e investimento. Que tipo de pesquisas acaba sendo inviabilizado por conta disso? Poderia citar alguns exemplos?
Há um número enorme de pesquisadores agropecuários em universidades públicas e privadas, em instituições públicas e privadas, organizações não governamentais e entre investidores em pesquisa agropecuária em São Paulo. Há muita inovação nesse campo e muita ainda a se desenvolver. Alguns pontos, entretanto, continuam a descoberto, como o conhecimento do território. Os Institutos Agronômico, Geográfico e Cartográfico e Geológico, bem como a Universidade de São Paulo, realizaram extensos levantamentos da geologia do estado, porém com detalhamento adequado apenas em poucas e pequenas regiões. Conhecer melhor o território permitiria definir a melhor destinação para cada área, evitando riscos desnecessários em obras de infraestrutura ou de ocupação.
O conhecimento da fauna e da flora naturais do estado, antes sistematizado, hoje se resume a levantamentos esparsos, como se essas fossem estáveis ao longo do tempo, como se não fossem afetadas pela atividade humana. Espécies invasoras frequentemente provocam desequilíbrios ecológicos que necessitam ser precocemente controlados, a fim de evitar danos permanentes.
O intenso e crescente intercâmbio internacional tem trazido inúmeras novas doenças e pragas que afetam tanto a agricultura quanto a pecuária, para não falar da saúde humana. Há necessidade de fitopatologistas e zootecnistas públicos para identificar essas novas ameaças e desenvolver métodos para combatê-las. O melhoramento genético de animais e vegetais sempre será necessário para aumentar a produtividade de criações e cultivos, bem como suas resistências a ameaças sanitárias e climáticas. Isso, que sempre foi feito com competência pelos institutos, hoje ocorre em escala muito menor devido à deficiência de recursos humanos, a despeito de toda a diversidade genética ainda presente nessas instituições.
Agricultura de baixo carbono, integração lavoura-pecuária-floresta, agricultura de precisão, climatologia agrícola, conservação do meio ambiente e sua recuperação, desenvolvimento e utilização de bioinsumos na agricultura são alguns dos pontos a considerar no futuro próximo. Isso está sendo considerado pelos dirigentes da pesquisa agropecuária paulista? Pensa-se no futuro ou apenas se administra o presente como dá, perfumando uma ou outra iniciativa como se fosse a grande contribuição dos institutos? Há algum planejamento estratégico crível na pesquisa agropecuária de São Paulo ou isso ainda continua a ser considerado desnecessário por certos dirigentes?
Nos últimos anos, várias reformas administrativas, decretos e leis — como a extinção do Regime de Tempo Integral e a alienação de áreas experimentais — são tratadas pelo senhor como ameaças concretas. Quais os interesses ocultos do governo e como a categoria deve se posicionar diante deles?
Não sei dos interesses ocultos, ainda que possam existir. Há muito se dizia ser necessário otimizar os recursos humanos dos institutos da SAA, bem como a utilização dos recursos financeiros. Subentendido estava: “mostrem mais resultados com menos gente e menos recursos”. Em um curto período, na década de 1990, houve realmente um esforço de otimização da administração desses institutos de pesquisa, com investimentos em reformas e construções de próprios, modernização e compra de equipamentos, máquinas agrícolas, veículos e contratação de pessoal, entre outros.
Passada essa fase, seguida por outra curtíssima, em que os institutos de pesquisa da SAA foram considerados unidades orçamentárias e não apenas de despesa, decidiu-se por uma aventura desnecessária: o desmembramento dos institutos de pesquisa na criação da Agência Paulista de Pesquisa dos Agronegócios. À época, o Instituto Agronômico contava com 19 estações experimentais, do Vale da Ribeira ao do Paraíba, de Itararé a Ribeirão Preto, Pindorama, Votuporanga e Adamantina, cobrindo muitas e distintas condições de clima e solo existentes no estado de São Paulo. Essa Divisão de Estações Experimentais, de difícil administração e conciliação de interesses na solução das dificuldades de cada uma de suas unidades, era, todavia, a alma da interação entre a pesquisa e seu usuário, o agricultor.
Situação semelhante ocorria no Instituto de Zootecnia e, em menor escala, em outros institutos. Ao invés de oferecer recursos, inclusive gerenciais, que minorassem essas dificuldades, os dirigentes da SAA optaram por retirar a maioria das estações experimentais dos institutos, abrigando-as em um Departamento de Descentralização do Desenvolvimento, desvinculado dos institutos-mãe. Se, num primeiro momento, havia algum vínculo por força dos pesquisadores originários, em breve esse departamento passou a manter relação conflituosa com os demais institutos, na competição por recursos cada vez mais escassos e na desvinculação programática de suas origens.
O retorno de várias antigas estações experimentais ao IAC é um sinal da inadequação da criação desse departamento, hoje Instituto de Ação Regional. Essa reforma, conquanto tenha permitido a contratação de pesquisadores científicos entre 2004 e 2008 e, posteriormente, na década de 2010, de um pequeno número de assistentes técnicos de pesquisa científica e tecnológica, não resolveu a questão salarial de seus servidores, nem a permanência de seus funcionários, tampouco garantiu recursos mínimos estáveis para o seu funcionamento.
Como mudar essa situação? Não há esperança de que se altere por iniciativa do Governo do Estado, nem de que surja alguma solução miraculosa a qualquer momento. Sinto um divórcio de concepções entre governantes e pesquisadores: uns querem resultados imediatos que resultem em dividendos políticos palpáveis, que façam com que eleitores os vejam como bons dirigentes, responsáveis no trato da coisa pública, não importa o que seja; enquanto a maioria dos outros quer que seu trabalho seja reconhecido como de excelência segundo os parâmetros da ciência, da tecnologia e do desenvolvimento, sem se importar se o que produz renderá votos ao governante de plantão.
O trabalho dos pesquisadores é pouco visto pela sociedade, conta com poucos e sinceros apoios políticos de expressão e enfrenta muitos outros atores semelhantes, cujo valor é mais facilmente reconhecido pela sociedade. O pequeno diálogo interinstitucional, a ausência de reflexão sobre a situação interna no presente e a falta de discussão sobre o futuro das instituições em nada auxiliam a melhorar o ambiente dos institutos.
Criar grupos de discussão que cuidem, além da política salarial, de oferecer alternativas ao modo de operação dos institutos seria um começo. O diálogo entre o conjunto de pesquisadores e demais funcionários com os dirigentes das instituições, de modo a reabilitar o Fórum dos Diretores e o CONSIP e torná-los instâncias de autêntica representação junto ao Governo do Estado, seria uma iniciativa importante para iniciar o reerguimento dos institutos. Isso não acontecerá com o atual estado de apatia e pusilanimidade reinante nas instituições. Esse pequeno exercício de democracia institucional poderá render outras medidas de impacto para o fortalecimento das instituições.
O governo costuma defender a captação de recursos externos, parcerias e prestação de serviços como alternativas ao orçamento público. Até que ponto essas estratégias podem ajudar — e onde se tornam insuficientes ou até ilusórias?
A captação de recursos externos para a execução de projetos de pesquisa, seja por agências de fomento, seja pela iniciativa privada, por contratos de gestão com o próprio Governo Estadual ou pela prestação de serviços especializados, deve ser vista como complementar ao orçamento público dos institutos da SAA. A captação de recursos externos não é missão dos institutos, nem objetivo central de sua atuação. Nem por isso deve ser considerada supérflua: trata-se de um importante parâmetro de reconhecimento da inserção da instituição na sociedade.
Deve-se considerar, todavia, que, à medida que as instituições perdem recursos humanos — por aposentadorias, demissões ou não reposição de pessoal —, têm infraestrutura deteriorada e recursos de custeio insuficientes, essa captação de recursos se fragiliza, chegando ao ponto de compromissos não mais poderem ser assumidos, pela perspectiva de não poderem ser cumpridos. Existe um ponto de equilíbrio entre orçamento público e captação externa que há muito deixou de ser adequado à atuação dos institutos, mas, enquanto isso não for reconhecido pelos dirigentes, não haverá como ser mudado.
Deve ser lembrado também que não há um modelo único de captação de recursos entre os institutos, nem mesmo dentro de um mesmo instituto. Em algumas áreas, o financiamento via agências como Fapesp, Capes e CNPq é adequado; em outras, a parceria com a iniciativa privada, segundo diversos modelos de cooperação, pode ser mais apropriada. Não é demais lembrar que um orçamento público minimamente suficiente e recursos humanos em nível adequado são imprescindíveis tanto para o cumprimento das missões dos institutos quanto para a própria captação de recursos externos — e esse mínimo há muito tem sido negado.
O senhor fala em uma “ofensiva indiferença” do Estado em relação à pesquisa agropecuária. Essa indiferença é apenas orçamentária ou também simbólica e política? Como ela se manifesta no dia a dia dos institutos?
A “ofensiva indiferença” é aquela que ofende, que agride, que deteriora a pesquisa agropecuária. Como não entender como indiferença a constante redução de recursos humanos nos institutos da SAA, em todos os níveis, sem reposição em quantidade e prazo razoáveis; a redução contínua dos recursos de custeio; a concessão errática e de tendência declinante de recursos para investimento?
Como não entender como ofensiva a promulgação da Lei Complementar nº 1.435, que reestrutura a série de classes de Pesquisador Científico, transformando-a em carreira, permitindo ao Governo do Estado remunerar seus integrantes por subsídio, eliminando nuances remuneratórias que permitiam distinção de vencimentos conforme tempo de exercício, mérito técnico-científico e experiência administrativa; congelando por tempo indeterminado os vencimentos da significativa maioria dos pesquisadores; ampliando a diferença entre pesquisadores equiparados e não equiparados; extinguindo o Regime de Tempo Integral, exclusivo da série de classes; aumentando significativamente o tempo de progressão na carreira, pela criação de número excessivo de níveis e subníveis, com remuneração inadequada e sem critérios claros de progressão; e estabelecendo subsídios espantosamente inferiores aos de carreiras assemelhadas, tanto no governo estadual quanto no federal?
Como se manterão em exercício, no médio prazo, pesquisadores sujeitos a tão draconianas condições? Por cúmulo, sequer os institutos de pesquisa são nomeados na lei, devendo ser citados em decreto posterior, não se sabendo se algum será criado, extinto ou fundido, como ocorrido em passado recente.
Diante desse cenário, que caminhos o senhor enxerga para evitar o que chama de “fim inglório” dos institutos de pesquisa? Que papel os pesquisadores, entidades como a APqC e a sociedade podem desempenhar para reverter esse processo?
Os institutos de pesquisa, não apenas os da SAA, vivem uma época de pouca iniciativa e muito pouco empreendedorismo, para usar um termo da moda. Alguns podem afirmar que criaram algum hub, alguma incubadora, que sediam uma ou outra startup, que estão antenados com as mudanças climáticas, mas percebe-se que estão anêmicos, apáticos, alguns até acéfalos, ainda que com dirigente formalmente no cargo. Visitar um ou outro instituto é como excursionar por um muro de lamentações.
Raros são os pesquisadores em quem se percebe brilho de satisfação com o que estão realizando — e é sempre muito bom encontrá-los. Essa raridade não deveria ser exceção, mas a norma: o conjunto — pesquisadores, assistentes, técnicos, agentes, auxiliares, oficiais — deveria estar satisfeito com o trabalho que realiza, com o futuro que percebe e com as condições em que trabalha e vive.
Não é ignorando o coletivo, acreditando que a condição de cada um é individual, lamentando a própria sorte, que se poderá mudar a situação própria e a dos demais institutos. É cômodo enfurnar-se no laboratório, no campo experimental, no projeto, na prestação de serviços, na orientação do mestrando ou doutorando, e esquecer o espaço ao redor. Como dizia Brecht, em Galileu Galilei: “Mesmo um mercador de lã, além de comprar barato e vender caro, tem que pensar em outras providências para que o seu comércio ocorra sem empecilhos”.
Se não pensarmos nesse nosso comércio, se não o discutirmos com nossos pares, se não tomarmos providências para que nossa atividade tenha rumo — se não tranquilo, ao menos beneficamente impactante —, não haverá como estancar a agonia presente. Caso contrário, como no mesmo monólogo, “a ingenuidade da dona de casa romana a fará perder sempre a luta pelo leite”.
É isso que estamos fazendo: estamos, inconscientemente, perdendo essa luta. Acreditamos que ações judiciais nos trarão sucesso, que financiamentos individuais de pesquisa nos garantirão reconhecimento, que progressões nas carreiras sempre nos beneficiarão, e esquecemos que não estamos isolados. Assim como o sucesso de uns nos envaidece, o insucesso de outros nos deprime. Sem solidariedade, sem espírito de corpo, sem noção do conjunto, seremos sempre frágeis e sempre sujeitos a circunstâncias que, a julgar pelos últimos governos estaduais e pelas perspectivas dos próximos, nos serão adversas.
Reuniões do Fórum dos Diretores com a Secretaria de Ciência e Tecnologia no governo Alberto Goldman indicavam a inadequação da administração direta para os institutos de pesquisa, porém essa parece ser uma cláusula pétrea da carreira de pesquisador científico. Como resolver esse impasse? O conjunto dos institutos não reflete sobre suas próprias condições de trabalho, como se isso fosse problema de outros, não seu, devendo apenas cumprir o que o dirigente superior exige.
Não creio — como nunca cri — em soluções chapa-branca, em soluções vindas de cima para baixo. Acredito nas construídas em consenso, elaboradas da base para o topo. O início se daria na discussão entre os pares em cada instituto, na elevação do debate ao conjunto dos institutos e de seus dirigentes e na submissão das reivindicações ao Governo Estadual, por meio das instâncias já citadas.
Isso não se dá na passividade, na atuação de cordeirinhos ou vaquinhas de presépio; dá-se na atuação firme, na discussão sincera dos assuntos das instituições, sobretudo entre aqueles que estão em atividade. Lembrem-se dos antigos, dos veteranos: sua experiência pode ser valiosa, no mínimo como contraponto à ingenuidade e à inexperiência.
De qualquer modo, a única maneira de evitar o “fim inglório” dos institutos de pesquisa é por meio da discussão franca de suas condições de trabalho, de financiamento e de gerenciamento. Não será deixando-os à mercê de quem sequer sabe o que é pesquisa científica e tecnológica, de quem mal compreende a importância da criação de uma nova cultivar, de uma nova vacina ou de uma nova solução ambiental, que os institutos sobreviverão.
A Associação dos Pesquisadores Científicos, a Comissão Permanente do Regime de Tempo Integral, ou o que a suceda, podem ser catalisadoras dessa busca de caminhos para a valorização e o soerguimento dos institutos de pesquisa. Dirigentes comprometidos com o papel das instituições, ainda que não afeitos ao cargo, seriam fundamentais para reverter o triste futuro que se avizinha.
É necessário abandonar o rame-rame da lamentação, afastar a passividade reinante e iniciar uma campanha vigorosa de repensar os institutos de pesquisa — sem dogmas, sem preconceitos, sem medo. Pode-se esperar o apoio de algumas personalidades políticas relevantes, de figuras do agronegócio ou do meio ambiente, do Ministério Público ou da Justiça, embora, em geral, pouco eficazes frente à indiferença ou ao desconhecimento da sociedade.
Em suma, a atuação dos pesquisadores científicos e dos demais funcionários da pesquisa da administração direta é fundamental para a revitalização dos institutos de pesquisa e para afastar ameaças como a perda de patrimônio para a especulação imobiliária.
Clique aqui e leia o artigo Ameaças na Pesquisa Agropecuária em São Paulo.
Entrevista concedida a Bruno Ribeiro, para a APqC, em 19/12/2025