Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Entrevista: o pesquisador Rubens Antonio da Silva fala sobre o controle de endemias em São Paulo

O trabalho de Rubens Antonio da Silva se destaca pela capacidade de unir ciência e ação prática ao transformar conhecimento epidemiológico em estratégias concretas de proteção à saúde pública. Com uma trajetória dedicada ao estudo e controle de vetores de doenças — em especial os triatomíneos, associados à doença de Chagas, e os escorpiões em áreas urbanas —, o pesquisador construiu uma carreira marcada pelo compromisso com a vigilância em saúde no Estado de São Paulo.

Ao longo de décadas de trabalho vinculado à rede pública, sua atuação contribuiu para avanços importantes no monitoramento e no controle de vetores. Seja no apoio técnico a municípios, na formação de profissionais ou no desenvolvimento de ferramentas para a vigilância entomológica, Rubens Silva representa uma geração de pesquisadores cuja produção está conectada às necessidades concretas da população.

Na entrevista a seguir, o pesquisador fala sobre sua trajetória, suas contribuições científicas e sua visão sobre a extinção da SUCEN e seus impactos à saúde pública.

APqC – O que o levou a seguir a área da saúde pública e, especificamente, a trabalhar com epidemiologia e controle de vetores?

Minha trajetória na saúde pública foi construída a partir do interesse em compreender como os fatores ambientais e biológicos influenciam a saúde das populações. Ao atuar com vigilância epidemiológica e controle de vetores, percebi que a prevenção é uma das ferramentas mais eficazes para proteger comunidades inteiras contra doenças e agravos. O contato direto com a vigilância de vetores e zoonoses, especialmente com triatomíneos, escorpiões e outros artrópodes de importância médica, o interesse em compreender como fatores ambientais, biológicos e sociais influenciam a ocorrência de doenças na população, a percepção de que a saúde pública permite gerar impacto coletivo, protegendo comunidades inteiras por meio da prevenção, da vigilância e do controle de riscos e a aproximação com a pesquisa científica foram fatores que me colocaram diante da saúde pública.

Nesse percurso, o trabalho mais intenso com triatomíneos e posteriormente escorpiões despertou em mim o interesse pela epidemiologia, especialmente pela possibilidade de integrar investigação científica, vigilância em saúde e ações de campo. Ao longo da minha carreira, tenho buscado unir a prática profissional à pesquisa aplicada, contribuindo para o aprimoramento das estratégias de monitoramento e controle de vetores de importância em saúde pública. Mais do que estudar doenças, minha motivação sempre esteve ligada à produção de conhecimento capaz de orientar decisões, fortalecer os serviços de vigilância e gerar benefícios concretos para a população.

Ao longo da sua formação e carreira, quais experiências foram mais determinantes para definir seu campo de atuação?

Ao longo da minha formação e carreira, algumas experiências foram fundamentais para definir meu campo de atuação na saúde pública, especialmente na epidemiologia e no controle de vetores. Uma das mais importantes foi o contato direto com as atividades de vigilância entomológica e epidemiológica. A atuação em campo, realizando inspeções, investigações e monitoramento de vetores de importância médica, permitiu compreender a complexidade da relação entre ambiente, vetores, agentes etiológicos e populações humanas. Essa vivência despertou meu interesse pela prevenção de doenças e pela utilização de evidências científicas para orientar ações de saúde pública.

Outra experiência determinante foi o trabalho com a doença de Chagas e seus vetores. O estudo dos triatomíneos, a participação em atividades laboratoriais, a incorporação de espécimes em coleções biológicas e o desenvolvimento de pesquisas voltadas à vigilância entomológica ampliaram minha compreensão sobre a importância da integração entre pesquisa científica e serviços de saúde.

Ao longo da sua trajetória, o senhor acompanhou mudanças importantes no perfil epidemiológico da doença de Chagas em São Paulo. Quais foram as transformações mais significativas?

Ao longo da minha trajetória profissional, acompanhei importantes transformações no perfil epidemiológico da doença de Chagas no estado de São Paulo. Entre as mudanças mais significativas destaca-se a interrupção da transmissão vetorial domiciliar por Triatoma infestans, resultado de décadas de ações sistemáticas de vigilância e controle vetorial. Esse marco representou uma profunda mudança no cenário epidemiológico da doença, reduzindo drasticamente o surgimento de novos casos autóctones por transmissão vetorial clássica. Com a eliminação desse principal vetor domiciliado, a vigilância epidemiológica passou a concentrar esforços na detecção e monitoramento de espécies nativas de triatomíneos, como Panstrongylus megistus, Triatoma sordida e Rhodnius neglectus, que continuam sendo encontradas em diferentes regiões do estado, em ambientes urbanos, periurbanos e rurais. Vale destacar, a mudança no perfil de ocupação desses vetores, com registros de sua presença em ambientes urbanos, inclusive em pequenos e grandes centros urbanos, o que amplia a complexidade da vigilância e exige atenção permanente às condições ambientais e domiciliares favoráveis à sua dispersão. Dessa forma, o enfoque deixou de ser o combate a um vetor altamente adaptado ao ambiente domiciliar e passou a priorizar a vigilância contínua, baseada na participação da população e na investigação de notificações.

Outra transformação relevante foi a mudança do perfil dos indivíduos acometidos pela doença. A maior parte dos casos atualmente identificados corresponde a pessoas infectadas há décadas, antes da interrupção da transmissão vetorial, refletindo o envelhecimento da população chagásica. Esse fenômeno trouxe novos desafios para os serviços de saúde, relacionados ao acompanhamento clínico e ao manejo das formas crônicas da doença.

Também se observou o fortalecimento da vigilância laboratorial e entomológica, com a incorporação de novas metodologias diagnósticas, técnicas de georreferenciamento, sistemas informatizados e integração entre laboratórios, serviços de vigilância e instituições de pesquisa. Essa evolução permitiu maior sensibilidade na detecção de riscos e melhor compreensão da dinâmica dos vetores no ambiente. Além disso, houve ampliação do reconhecimento de outras vias de transmissão, especialmente a transmissão congênita e a transmissão por transfusão e transplante, que passaram a receber maior atenção após o controle da transmissão vetorial clássica. Embora raras em São Paulo, essas formas exigem vigilância permanente e protocolos específicos de prevenção e diagnóstico.

Por fim, uma das mudanças mais importantes foi a transição de um modelo baseado no controle intensivo para um modelo sustentado de vigilância epidemiológica. Atualmente, o desafio não é apenas manter os avanços alcançados, mas garantir a capacidade dos serviços de saúde em detectar precocemente situações de risco, preservar a expertise técnica acumulada e assegurar a participação da população no monitoramento dos vetores, evitando a reemergência da transmissão da doença de Chagas no estado.

O controle dos triatomíneos é frequentemente citado como um dos grandes êxitos da saúde pública no Brasil. Quais fatores foram decisivos para esse resultado?

O controle dos triatomíneos é, sem dúvida, um dos maiores êxitos da saúde pública brasileira e paulista, resultado de uma combinação de fatores técnicos, institucionais e sociais que se consolidaram ao longo de várias décadas. Entre os fatores mais decisivos, destaco a continuidade das políticas públicas de vigilância e controle. O enfrentamento da doença de Chagas foi tratado como prioridade sanitária durante muitos anos, permitindo a implementação de programas estruturados, com planejamento de longo prazo, equipes capacitadas e financiamento adequado.

Outro aspecto fundamental foi o conhecimento científico acumulado sobre a biologia e a ecologia dos vetores. Os estudos desenvolvidos por instituições de pesquisa permitiram compreender os hábitos dos triatomíneos, sua distribuição geográfica, capacidade de domiciliação e dinâmica populacional, fornecendo bases sólidas para a definição de estratégias de controle mais eficientes.

A utilização sistemática de inseticidas de ação residual, associada às melhorias habitacionais observadas em diversas regiões do país, contribuiu significativamente para a eliminação de populações domiciliadas de Triatoma infestans, principal vetor da doença de Chagas no Brasil. A substituição de moradias precárias por construções mais adequadas reduziu a disponibilidade de abrigos para os insetos e dificultou sua colonização dos domicílios.

Também merece destaque a estruturação de sistemas permanentes de vigilância entomológica. Após a interrupção da transmissão vetorial domiciliar, o desafio passou a ser a manutenção dos resultados alcançados. Nesse contexto, a vigilância baseada na notificação da população, na investigação de focos e no monitoramento contínuo das espécies nativas mostrou-se essencial para detectar precocemente situações de risco.

A participação comunitária foi igualmente determinante. A população passou a desempenhar papel ativo na identificação e encaminhamento de exemplares suspeitos, fortalecendo a capacidade dos serviços de vigilância em monitorar extensas áreas geográficas e responder rapidamente às ocorrências notificadas. 

Por fim, considero que o sucesso alcançado decorreu da integração entre pesquisa científica, vigilância epidemiológica, laboratórios especializados e ações de campo. Essa articulação permitiu transformar o conhecimento produzido em intervenções efetivas, criando um modelo reconhecido internacionalmente como referência no controle vetorial da doença de Chagas.

Entretanto, esse êxito não significa que o problema esteja completamente resolvido. A presença contínua de espécies nativas de triatomíneos, sua adaptação a ambientes urbanos, periurbanos e rurais, as mudanças ambientais e a necessidade de renovação permanente das equipes técnicas reforçam a importância da manutenção de sistemas robustos de vigilância para evitar a reemergência da transmissão vetorial.

Mesmo com a interrupção da transmissão vetorial domiciliar em muitos locais, por que a vigilância da doença de Chagas ainda é necessária?

Embora a transmissão vetorial domiciliar da doença de Chagas tenha sido interrompida no estado de São Paulo e em diversas regiões do Brasil, a vigilância continua sendo indispensável. A experiência acumulada ao longo das últimas décadas demonstra que a eliminação de um vetor domiciliado não significa a eliminação do risco de transmissão.

Primeiramente, diversas espécies nativas de triatomíneos permanecem amplamente distribuídas no ambiente natural. Esses insetos mantêm ciclos silvestres do Trypanosoma cruzi e podem invadir residências ou colonizar estruturas peridomiciliares, especialmente em áreas onde alterações ambientais, expansão urbana ou mudanças no uso do solo favorecem sua aproximação das populações humanas.

Além disso, tenho observado que algumas espécies apresentam crescente capacidade de adaptação a ambientes modificados pelo homem. Registros de triatomíneos em áreas urbanas e periurbanas têm sido cada vez mais frequentes, inclusive em municípios de médio e grande porte, exigindo vigilância permanente para identificar precocemente possíveis mudanças no comportamento desses vetores.

Outro aspecto importante é a necessidade de monitorar continuamente a circulação do parasito e a ocorrência de outras formas de transmissão, como a congênita, transfusional e por transplantes. Embora essas vias sejam menos frequentes, a sua prevenção depende de sistemas de vigilância epidemiológica e laboratorial bem estruturados.

A vigilância também é fundamental para preservar a capacidade técnica construída ao longo de décadas. O sucesso alcançado pode gerar a falsa percepção de que o problema foi completamente resolvido, reduzindo investimentos, capacitação de profissionais e ações de monitoramento. Entretanto, a história da saúde pública mostra que a descontinuidade da vigilância frequentemente favorece o reaparecimento de problemas anteriormente controlados.

Por fim, considero que a vigilância da doença de Chagas representa um compromisso permanente com a proteção da população. Mais do que responder a situações de risco já estabelecidas, ela permite antecipar cenários, detectar alterações na dinâmica dos vetores e garantir que os avanços conquistados sejam mantidos para as futuras gerações. O grande desafio atual é evitar que as condições que permitiram sua ocorrência no passado voltem a se estabelecer.

O senhor também atua no estudo e controle de escorpiões. Como esse problema evoluiu nos últimos anos e o que explica sua expansão em áreas urbanas?

A questão dos escorpiões, especialmente de Tityus serrulatus, tornou-se um dos principais desafios da vigilância em saúde ambiental e do controle de animais peçonhentos no Brasil. Ao longo dos últimos anos, observamos um crescimento expressivo tanto da área de ocorrência desses animais quanto do número de acidentes registrados, incluindo em municípios onde anteriormente não havia registros significativos.

Diversos fatores contribuem para essa expansão. Um dos mais importantes é a capacidade de adaptação de algumas espécies ao ambiente urbano. O escorpião-amarelo encontra nas cidades condições extremamente favoráveis para sua sobrevivência, incluindo abundância de abrigos em galerias pluviais, redes de esgoto, entulhos, depósitos de materiais e estruturas urbanas que reproduzem condições semelhantes às encontradas em seus habitats naturais.

Outro aspecto relevante é a ampla disponibilidade de alimento, principalmente baratas e outros artrópodes sinantrópicos. O crescimento urbano desordenado, associado a falhas no manejo de resíduos sólidos e à degradação ambiental, cria condições propícias para a manutenção de elevadas populações de presas, favorecendo consequentemente o estabelecimento e expansão dos escorpiões.

A biologia reprodutiva do Tityus serrulatus também desempenha papel fundamental nesse processo. A capacidade de reprodução por partenogênese permite que uma única fêmea introduzida em determinada área origine uma nova população, facilitando sua dispersão e colonização de novos ambientes. Essa característica torna o controle particularmente complexo quando comparado a outras espécies de importância em saúde pública.

Além disso, a intensa movimentação de mercadorias, materiais de construção, resíduos recicláveis, produtos agrícolas e veículos contribui para o transporte passivo desses animais entre diferentes municípios e regiões, favorecendo a expansão de sua distribuição geográfica.

Do ponto de vista da saúde pública, houve também um aprimoramento dos sistemas de vigilância e notificação, permitindo melhor identificação dos acidentes e maior sensibilidade na detecção de áreas infestadas. Entretanto, o aumento dos registros não pode ser explicado apenas pela melhoria da vigilância, refletindo efetivamente a expansão das populações urbanas de escorpiões em diversas regiões do país.

Diante desse cenário, tornou-se evidente que o controle dos escorpiões não pode se basear exclusivamente na eliminação direta dos animais. As estratégias mais efetivas envolvem ações integradas de vigilância, educação em saúde, manejo ambiental, redução de abrigos, controle das fontes alimentares e participação ativa da comunidade. Trata-se de um problema complexo, que exige atuação contínua e articulada entre os serviços de saúde, os setores de saneamento, meio ambiente e a própria população.

Minha experiência ao longo dos anos reforça a compreensão de que os escorpiões são um excelente indicador das transformações ambientais e urbanas que vêm ocorrendo nas cidades brasileiras. Por isso, seu enfrentamento demanda uma abordagem cada vez mais integrada, baseada em evidências científicas e na vigilância permanente dos fatores que favorecem sua proliferação.

Qual é o papel dos municípios no controle de vetores e quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas equipes locais?

Os municípios ocupam posição estratégica no controle de vetores, pois são a esfera do Sistema Único de Saúde mais próxima da população e dos problemas que ocorrem no território. São as equipes municipais que realizam grande parte das atividades de vigilância, investigação, monitoramento ambiental, educação em saúde e resposta às notificações relacionadas a vetores e animais de importância em saúde pública. Na prática, o município é responsável por identificar precocemente situações de risco, investigar denúncias da população, desenvolver ações de controle, promover atividades educativas e manter a vigilância contínua sobre doenças e agravos relacionados a vetores. Além disso, cabe às equipes locais produzir informações que subsidiam o planejamento das ações e permitem a integração com os níveis regional, estadual e federal.

Entretanto, as equipes municipais enfrentam diversos desafios. Um dos principais é a limitação de recursos humanos. Muitos municípios possuem número reduzido de profissionais especializados em vigilância ambiental, controle de vetores e entomologia, o que dificulta a cobertura adequada do território e a manutenção de ações permanentes.

Outro desafio importante é a alta rotatividade de profissionais. A perda frequente de técnicos capacitados compromete a continuidade das ações e resulta na necessidade constante de treinamento e qualificação de novas equipes. Em áreas altamente especializadas, como vigilância de triatomíneos, escorpiões e outros vetores de importância epidemiológica, a experiência acumulada pelos profissionais representa um patrimônio técnico que nem sempre é facilmente reposto.

Também existem dificuldades relacionadas à infraestrutura e aos recursos operacionais. A manutenção de veículos, equipamentos, sistemas de informação, materiais de campo e laboratórios exige investimentos contínuos que nem sempre acompanham a complexidade crescente das demandas enfrentadas pelos municípios.

Outro aspecto que merece destaque é a necessidade de atuação intersetorial. Muitos fatores que favorecem a proliferação de vetores estão relacionados ao saneamento, manejo de resíduos sólidos, planejamento urbano, habitação e meio ambiente. Dessa forma, os resultados dependem da articulação entre diferentes setores da administração pública, o que nem sempre ocorre de forma satisfatória.

Além disso, as mudanças ambientais e o processo de urbanização têm modificado o comportamento de diversos vetores, exigindo atualização constante das estratégias de vigilância. O avanço de escorpiões em áreas urbanas, a adaptação de triatomíneos a ambientes modificados e a emergência de novos desafios relacionados às arboviroses ilustram a necessidade de sistemas de vigilância cada vez mais dinâmicos e qualificados.

Por fim, considero que um dos maiores desafios atuais é manter a percepção de risco diante do sucesso obtido em diversos programas de controle. Quando uma doença ou vetor deixa de representar um problema evidente para a população, pode haver redução da participação comunitária e da prioridade política atribuída às ações de vigilância. No entanto, a experiência demonstra que a manutenção dos resultados depende justamente da continuidade dessas ações, mesmo quando os indicadores epidemiológicos são favoráveis. Nesse contexto, fortalecer a capacidade técnica dos municípios, investir na formação permanente das equipes e ampliar a integração entre vigilância, assistência e gestão continuam sendo medidas fundamentais para enfrentar os desafios presentes e futuros do controle de vetores no Brasil.

O Laboratório de Mogi Guaçu tem uma longa história na pesquisa sobre a doença de Chagas. No entanto, ele foi recentemente autuado pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo por operar sem registro e sem responsável técnico. Como o senhor avalia essa situação e seus impactos práticos?

O Laboratório de Triatomíneos de Mogi Guaçu possui uma trajetória histórica de mais de seis décadas dedicada à pesquisa, vigilância e controle da doença de Chagas no estado de São Paulo. Ao longo desse período, contribuiu significativamente para o conhecimento da biologia dos triatomíneos, da epidemiologia da doença e do desenvolvimento de estratégias de vigilância entomológica que subsidiaram políticas públicas de saúde.

Em relação à autuação pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), é importante destacar que os conselhos profissionais exercem atribuições legais de fiscalização e que toda instituição pública ou privada deve buscar a plena conformidade com a legislação vigente. O próprio CRMV-SP estabelece a necessidade de registro e de responsável técnico para determinados estabelecimentos sujeitos à sua fiscalização.

Do ponto de vista prático, uma autuação administrativa não invalida automaticamente o conhecimento científico acumulado, os resultados das pesquisas realizadas ou a relevância dos serviços prestados à vigilância em saúde. Entretanto, pode gerar desafios operacionais, administrativos e burocráticos que demandam adequações institucionais para garantir a continuidade das atividades de pesquisa, manutenção de colônias, biotérios, coleções biológicas e ações de capacitação técnica.

Acredito que situações dessa natureza devem ser conduzidas com diálogo técnico e institucional, buscando a regularização dos aspectos apontados pelos órgãos fiscalizadores sem comprometer atividades estratégicas para a saúde pública. O principal objetivo deve ser assegurar que o laboratório continue desempenhando seu papel de referência científica, atendendo simultaneamente às exigências regulatórias e às necessidades dos programas de vigilância e controle de doenças transmitidas por vetores.

A extinção da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) gerou preocupações sobre possíveis descontinuidades nas ações de vigilância e controle. Como o senhor avalia esse processo e seus impactos para a saúde pública paulista?

 A extinção da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) representa, na prática, uma mudança institucional de grande impacto para a vigilância em saúde no estado de São Paulo, especialmente quando se observa a complexidade das atividades que eram historicamente executadas pelo órgão. Ao longo de décadas, a SUCEN consolidou uma estrutura técnico-operacional altamente especializada, com equipes dedicadas à vigilância entomológica, investigação de surtos, manutenção de colônias de vetores, gestão de laboratórios de referência e apoio direto aos municípios em ações de campo. Esse acúmulo de conhecimento não se limita à produção científica, mas envolve rotinas operacionais complexas, que dependem de continuidade, padronização e experiência acumulada.

Com a sua descontinuidade enquanto estrutura autônoma, observa-se fragmentação das atividades entre diferentes setores administrativos. Essa fragmentação gera descontinuidade de fluxos de trabalho, perda de padronização de procedimentos e dificuldades de coordenação entre vigilância, laboratório e campo, o que tende a reduzir a agilidade das respostas em situações epidemiológicas.

Outro ponto crítico diz respeito à manutenção de estruturas laboratoriais e coleções biológicas, que exigem gestão contínua, recursos específicos e equipes técnicas com experiência consolidada. Nesse processo de reorganização que vivenciamos, não tem se observado preservação integral dessas capacidades no mesmo nível de especialização anterior, o que compromete a qualidade e a rapidez das análises e diagnósticos. Além disso, a vigilância de doenças como dengue, leishmanioses, doença de Chagas e acidentes por animais peçonhentos depende de um sistema integrado e contínuo. Qualquer desarticulação entre níveis central e regional pode impactar diretamente a capacidade de detecção precoce de riscos e de resposta rápida, com reflexos potenciais para a população.

Portanto, mais do que uma mudança administrativa, a extinção da SUCEN traz preocupações legítimas sobre a manutenção da memória técnica institucional, da coordenação das ações de vigilância e da sustentabilidade das estruturas laboratoriais. Atualmente se verifica perda de capacidade operacional, trazendo impacto direto na efetividade das ações de controle de endemias e, consequentemente, na proteção da saúde pública.

Como o senhor avalia a relação entre pesquisa científica e políticas públicas na área de controle de endemias? 

A relação entre pesquisa científica e políticas públicas no controle de endemias é intrinsecamente dependente e deve ser entendida como um eixo estruturante da saúde pública. As ações de vigilância e controle de vetores, em particular, só alcançam efetividade quando estão apoiadas em evidências científicas atualizadas, produzidas em contexto local e continuamente retroalimentadas pela prática operacional.

A pesquisa científica tem um papel central ao gerar conhecimento sobre a biologia dos vetores, dinâmica de transmissão, resistência a inseticidas, comportamento ecológico e padrões de dispersão das espécies envolvidas. Esse conhecimento não é apenas acadêmico: ele orienta diretamente a definição de estratégias de controle, a escolha de tecnologias, a priorização de áreas de risco e a avaliação de impacto das intervenções.

Por outro lado, as políticas públicas dependem de estruturas institucionais capazes de traduzir esse conhecimento em ações concretas. Isso exige integração entre laboratórios, serviços de campo e gestão em saúde, de forma que os dados gerados pela pesquisa não permaneçam restritos ao meio científico, mas sejam incorporados aos sistemas de vigilância e às decisões administrativas.

Quando essa interface é bem estruturada, observa-se um ciclo virtuoso: a pesquisa orienta a prática, e a prática gera novas perguntas que alimentam a pesquisa. Esse modelo é especialmente relevante em doenças endêmicas e reemergentes, nas quais os cenários epidemiológicos são dinâmicos e sujeitos a mudanças ambientais, urbanização e fatores socioeconômicos.

No entanto, quando há descontinuidade institucional ou fragilização de estruturas técnicas, esse fluxo é interrompido ou enfraquecido. Isso resulta em perda de capacidade de resposta rápida e em políticas menos ajustadas à realidade local, o que pode comprometer a efetividade das ações de controle.

Portanto, fortalecer a integração entre pesquisa e políticas públicas não é apenas desejável, mas essencial. Trata-se de garantir que a produção científica esteja diretamente vinculada às necessidades da população e que as decisões em saúde pública sejam baseadas em evidências sólidas, sustentáveis e continuamente atualizadas.

Entrevista concedida a Bruno Ribeiro em 26 de junho de 2026

Compartilhe: