Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

A verdade que ninguém parece acreditar

Afonso Peche Filho*

A verdade nem sempre chega acompanhada de reconhecimento. Muitas vezes, ela aparece primeiro como incômodo, como advertência solitária, como voz dissonante diante de estruturas acostumadas a ouvir apenas aquilo que confirma suas conveniências. Na ciência, essa situação é especialmente dolorosa, porque o trabalho científico nasce justamente do compromisso com a realidade: observar, demonstrar, interpretar e revelar aquilo que muitos preferem não enxergar.

“A verdade que ninguém parece acreditar” expressa bem o drama vivido por pesquisadores, instituições científicas e associações representativas que insistem em mostrar a fragilidade crescente da ciência paulista e brasileira. Não se trata de uma verdade abstrata ou distante. Trata-se da realidade concreta dos institutos de pesquisa, da precarização das carreiras, da perda de quadros técnicos, da insuficiência de investimentos, da descontinuidade de programas e das ameaças permanentes à autonomia intelectual dos pesquisadores.

No caso da ciência pública, a descrença não nasce da ausência de evidências. Os sinais estão em toda parte: laboratórios funcionando com dificuldade, equipes reduzidas, concursos insuficientes, orçamento instável, estruturas envelhecidas e políticas públicas incapazes de compreender a importância estratégica da pesquisa aplicada. A verdade é visível, mas parece inconveniente. Quando uma associação como a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo, a APqC, denuncia esse quadro, sua voz nem sempre encontra o respaldo necessário. A denúncia existe, a experiência acumulada existe, a evidência institucional existe; ainda assim, a verdade permanece cercada de silêncio.

Há nisso uma dimensão profundamente política. Muitas vezes, a aceitação de uma verdade depende menos de sua consistência e mais da posição ocupada por quem a enuncia. Quando a verdade vem de setores fragilizados, tende a ser tratada como reclamação corporativa. Quando vem de grupos com maior poder econômico ou influência governamental, costuma ser recebida como prioridade estratégica. Essa assimetria revela um problema grave: a ciência, que deveria orientar decisões de Estado, passa a ser subordinada à conveniência de governos circunstanciais.

O pesquisador público vive, nesse cenário, uma tensão delicada. De um lado, é chamado a apoiar programas oficiais, participar de agendas institucionais e legitimar políticas muitas vezes insuficientes. De outro, conhece por dentro as necessidades reais da agricultura brasileira, da conservação ambiental, da segurança alimentar, da adaptação climática e do desenvolvimento territorial. Fica dividido entre a obediência administrativa e a responsabilidade científica; entre sustentar a aparência de normalidade e cumprir o dever ético de dizer que algo não vai bem.

Essa tensão atinge a dignidade da carreira científica. O pesquisador não é apenas um executor de projetos ou produtor de relatórios. Ele é um intérprete qualificado da realidade. Sua função social é transformar conhecimento em orientação pública, antecipar riscos, propor caminhos e sustentar tecnicamente decisões que afetam a vida coletiva. Quando sua carreira é ameaçada, não se atinge apenas uma categoria profissional; enfraquece-se a capacidade do Estado de compreender o próprio território.

Na agricultura, esse enfraquecimento é ainda mais preocupante. O Brasil depende profundamente da ciência para conservar solos, manejar água, proteger biodiversidade, reduzir emissões, enfrentar eventos climáticos extremos, qualificar sistemas produtivos e fortalecer agricultores. Institutos de pesquisa não são ornamentos administrativos. São estruturas estratégicas de soberania, inovação e segurança socioambiental. Desconsiderá-los é agir como se a agricultura pudesse avançar sem conhecimento acumulado, sem experimentação de longo prazo e sem inteligência pública.

A verdade que ninguém parece acreditar é esta: não há agricultura forte com ciência pública fraca. Não há sustentabilidade sem pesquisadores valorizados. Não há inovação consistente quando a carreira científica é tratada como despesa e não como investimento.

Por isso, insistir na verdade não é teimosia. É dever público. A APqC, os pesquisadores e os institutos de pesquisa cumprem uma função que ultrapassa a defesa corporativa: preservam a memória técnica, a inteligência científica e a capacidade crítica do Estado. Quando denunciam o descaso, não falam apenas por si. Falam pela agricultura brasileira, pela sociedade e pelas futuras gerações.

A verdade não precisa da crença para existir. Mas precisa de coragem para ser dita, de evidências para ser sustentada e de instituições fortes para ser transformada em ação pública.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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