Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Entrevista: Luis Filipe Mucci fala sobre vigilância entomológica em SP e os desafios após a extinção da SUCEN

Com trajetória consolidada na interface entre meio ambiente e saúde pública, o pesquisador científico Luis Filipe Mucci ajuda a compreender como as transformações ambientais impactam diretamente a dinâmica de doenças no estado de São Paulo. Biólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em Ecologia e doutorado em Saúde Pública, sua carreira foi construída ao longo de décadas dedicadas ao estudo de vetores e à vigilância epidemiológica.

Parte significativa desse percurso esteve ligada à Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN), órgão responsável pelo monitoramento e enfrentamento de doenças transmitidas por vetores no estado. Ao longo desse período, Mucci atuou tanto na pesquisa quanto em área técnicas, contribuindo para o avanço do conhecimento sobre ecologia de mosquitos e os riscos associados a arboviroses, como a febre amarela. Atualmente é pesquisador científico no âmbito da Secretaria de Estado da Saúde, com atuação vinculada ao Instituto Pasteur.

Sua produção científica reúne estudos sobre distribuição de vetores, dinâmica de transmissão de doenças e uso de ferramentas como geoprocessamento para análise de risco epidemiológico. Em um contexto marcado por desafios crescentes — como as mudanças climáticas, a expansão urbana sobre áreas naturais e o aumento de doenças transmitidas por vetores — o trabalho de pesquisadores como Mucci ganha ainda mais relevância. Soma-se a isso a recente reconfiguração das estruturas públicas de vigilância em saúde no estado, após a extinção da SUCEN, o que levanta questionamentos sobre a capacidade de monitoramento e resposta frente a novos e antigos riscos epidemiológicos.

Nesta entrevista à APqC, Luis Filipe Mucci analisa os impactos dessas transformações e fala sobre os caminhos necessários para o fortalecimento da vigilância entomológica em São Paulo. 

APqC – O senhor construiu sua carreira na interface entre ecologia e saúde pública. O que mais mudou, nesse campo, desde o início da sua trajetória até hoje?

LFM – Estou nessa área desde 1997. Nesses quase 30 anos o principal impacto nos ciclos dos patógenos e vetores pode ser atribuído ao aquecimento global, implicando no favorecimento da reprodução dos artrópodes vetores e na replicação/amplificação dos patógenos. Entretanto, podemos citar outros dois aspectos que se modificaram significativamente neste período que vêm modulando os ciclos das doenças: ampliação da ocupação humana tanto sobre áreas urbanas quanto rurais/silvestres, por conta de especulação imobiliária, ocupação desordenada, turismo e agropecuária, e aumento da circulação humana entre os territórios e transporte de mercadorias.

De outro lado, considerando o desenvolvimento dos recursos tecnológicos e científicos, muito se avançou na capacidade computacional, nas bases de dados geográficos e de imagens de satélite, e certamente na capacidade de comunicação e registro de dados com dispositivos móveis. Em relação a tecnologias de controle, intervenções biológicas nos vetores (Wolbachia e alguns inseticidas/reguladores, principalmente) e vacinas também evoluíram, mas seu uso ainda pode ser considerado pequeno frente à demanda, dependendo do incremento na capacidade fabril e de recursos extra para municípios conseguirem adotar essas alternativas.

Sua atuação passou pela SUCEN e segue vinculada à Secretaria de Saúde. Como essa experiência moldou seu olhar sobre o controle de endemias no estado de São Paulo?

A atuação da SUCEN cumpria serviços à sociedade de maneira integral, “assumindo” a vigilância e controle de endemias de ponta a ponta, realizando ações em campo na coleta de amostras biológicas e caracterização socioambiental das localidades afetadas, ações educativas e de controle vetorial, análise de dados e projeções de risco, desenvolvimento de sistemas de informação, protocolos de trabalho, manuais técnicos e treinamentos de agentes municipais e, finalmente, desenvolvimento de pesquisas frente aos novos desafios que vieram se impondo na sucessão de cenários endêmicos e epidêmicos. Vale ressaltar que a pesquisa institucional sempre foi integrada aos programas de vigilância e controle, contando com recursos humanos altamente especializados, atualizados e equipados. Outro ponto crucial diz respeito à sua estrutura institucional, com seus laboratórios de referência, área de análise epidemiológica e orientação técnica e planejamento operacional e assistência aos municípios, onde esse tripé era reproduzido em seus dez serviços regionais. Ainda, o fato de ser autarquia trazia certa autonomia no planejamento e execução orçamentários e, principalmente, na manutenção de uma cultura de gestão, sempre validada internamente pelas áreas técnicas dos níveis central e regional. Isso permitia voltar a gestão a aspectos mais técnicos e mais direcionados ao interesse da sociedade via assistência aos municípios e cenários epidemiológicos.

Diante disso, considero que a experiência de trabalhar em uma instituição como a SUCEN não poderia ser mais rica, me oferecendo a oportunidade de vivenciar como o conhecimento técnico e científico são preciosos à sociedade, experiência que tem paralelo em poucos lugares no mundo. Além disso, a própria importância da instituição e sua projeção como referência técnica nacional para alguns agravos trouxe oportunidades de discussão e trocas de experiências com profissionais do Ministério da Saúde e de outros estados que ampliaram minha visão da diversidade e complexidade do país e como isso se manifesta na dinâmica das doenças transmitidas por vetores.

A SUCEN foi historicamente uma referência no controle de endemias no Estado de São Paulo. Qual foi, na sua avaliação, o principal impacto da sua extinção?

Apesar da municipalização vigorar desde o início dos anos 2000, os municípios paulistas sempre tiveram o privilégio de contar com o suporte técnico, científico e também operacional (na assistência técnica, complementação e até suplementação de ações de controle vetorial, principalmente em situações de epidemia) da SUCEN, principalmente dos profissionais que compunham as equipes dos serviços regionais. Em 2010 a instituição contava com pouco mais de 2.200 funcionários, enquanto em 2022, quando houve a redistribuição dos servidores pós-extinção entre cinco instituições da CCD (Coordenadoria de Controle de Doenças), havia cerca de 900 funcionários. Mesmo após a perda financeira por perda dos cargos estes servidores continuaram atuando com o mesmo empenho, contudo, com mais dificuldades, pois ficaram lotados em instituições distintas, sujeitos a indefinições administrativas e articulação institucional deficiente que perduram até hoje. Ainda assim é o que resta para o estado dar conta da vigilância, controle e pesquisa das doenças transmitidas por vetores e hospedeiros intermediário, sendo que a maior parte destas atividades é coordenada por pesquisadores e técnicos do Instituto Pasteur, enquanto o programa de vigilância e controle de arboviroses urbanas é tocado pelo CVE. Nesses quatro anos, as aposentadorias e o último PDI tornaram a situação de trabalho ainda mais complicada. Diante disso, fica mais que evidente a necessidade de uma reformulação dos processos de trabalho e acertos institucionais. Minha percepção é a de que enquanto o restante do país sempre buscou se organizar nos níveis estaduais seguindo o modelo de atuação da SUCEN no âmbito da assistência técnica, o próprio estado de SP adotou sentido contrário. É importante reforçar que diferente dos demais estados, São Paulo sempre ofereceu e continua oferecendo aos municípios não só essa assistência técnica, mas também o apoio operacional e a pesquisa científica. É obvio que não há mais possibilidade de termos uma estrutura como a SUCEN, mas é imperativo que haja um mínimo de organização dentro da Secretaria para que os serviços à sociedade se mantenham.

O interior de São Paulo vem registrando aumento de casos e mortes por febre maculosa em 2026. Como o senhor analisa esse cenário? É possível estabelecer alguma relação entre esse tipo de situação e a desestruturação de órgãos históricos como a SUCEN

Especificamente para o caso da febre maculosa o sucesso dos serviços de saúde em salvar as pessoas depende muito da atuação conjunta entre assistência e vigilância. É inegável que a extinção da SUCEN vem diminuindo a capacidade de vigilância, mas não só isso, é preciso considerar que a falta de reposição de servidores estaduais nos centros regionais da assistência e vigilâncias (DRS e GVE) fragiliza o serviço como um todo.

Muito se fala hoje no risco de reurbanização da febre amarela. Esse risco é real no cenário atual? Por quê?

Existem aspectos que tanto sinalizam para a possibilidade de urbanização quanto para a manutenção em ambiente silvestre exclusivamente. Por um lado, as populações de Aedes aegypti das cidades brasileiras na atualidade parecem não apresentarem a mesma capacidade vetorial daquelas que ocorriam desde o século XVII até meados do século passado. Já foi demonstrado, por exemplo, que a infecção prévia por outros flavivírus como dengue e Zika impedem que as fêmeas se infectem com o vírus amarílico; assim, diante da alta prevalência de dengue nos municípios brasileiros, é possível que ocorra um efeito bloqueador, pelo menos parcialmente. Por outro lado, o aquecimento global e as mudanças de padrão de ocupação do território e circulação humana, somado à baixa cobertura vacinal em populações urbanas de várias cidades brasileiras, oferecem cenário favorável ao estabelecimento do ciclo humano-Aedes aegypti-humano, onde outras espécies de vetores semi-silvestres em que já se detectou infecção natural poderiam servir de ponte para o spillover (transbordamento), como Aedes albopictus.

O Brasil — e especialmente São Paulo — está preparado hoje para detectar rapidamente uma mudança no padrão de transmissão da febre amarela?

A partir da epidemia que atingiu o Sudeste entre 2016 e 2020, mudanças significativas ocorreram na vigilância e controle da febre amarela, como a determinação de todo o território nacional como área de recomendação de vacina. Outra importante mudança teve origem na atuação da SUCEN junto ao CVE/SES-SP, quando a definição de áreas de risco baseadas na projeção da dispersão e estimativa da velocidade de propagação do vírus a partir da vigilância de epizootias permitiu otimizar a distribuição de doses e atuação dos recursos humanos na cobertura vacinal. Esta abordagem foi combinada com trabalhos de mapeamento de risco desenvolvidos pela FIOCRUZ, associada ainda ao aplicativo de registro de eventos epizoóticos, o SISS-Geo, adotados pelo Ministério da Saúde de forma permanente. Isso gerou experiências muito bem sucedidas no seguimento da epidemia para os estados do Sul do país e posteriormente para a nova onda originada no Pará que passou por Goiás, DF, Minas Gerais, retornando para São Paulo. Certamente o gerenciamento de riscos e a atenção à mudança nos padrões de transmissão tiveram uma evolução; mas de verdade, dependem muito da atuação de pesquisadores interagindo com os serviços de vigilância nas esferas municipais, estaduais (central e regionais) e Ministério da Saúde. É patente que a vigilância só evoluiu com a participação de centros de pesquisa com especialidades como entomologia, virologia/genética, primatologia, ecologia e ciência da computação. Respondendo mais objetivamente se estamos preparados para detectar mudanças rápidas e agir a contento, digo que demos um salto qualitativo quanto às ferramentas e protocolos, mas estamos muito vulneráveis por redução de recursos humanos principalmente nos serviços regionais das secretarias estaduais, mas também nos municípios. O fato é que temos, pontualmente, locais em que a vigilância funciona muito melhor atualmente pelo avanço nos processos, mas outros locais pioraram por não haver mais pessoal suficiente ou qualificado para colher os frutos destes avanços; e isso fica bem evidente no estado de São Paulo.

De que forma as mudanças climáticas estão impactando a distribuição de mosquitos vetores no Estado?

A temperatura tem efeito direto no metabolismo dos insetos; temperaturas médias maiores, temperaturas mais altas por períodos contínuos mais extensos e temperaturas mínimas maiores certamente vêm impactando a reprodução, sobrevivência e taxa de infectividade de vetores urbanos e silvestres. O incremento do acumulado de chuvas e da umidade relativa do ar têm efeitos para as fases larvárias e adultas também. A super epidemia de dengue de 2024 mostra que mesmo depois de quase 40 anos de endemismo, o impacto do clima no favorecimento do Aedes aegypti pode gerar situações epidêmicas imprevisíveis. A persistência da transmissão da febre amarela na Mata Atlântica segue a mesma lógica e a nova onda de Oropouche que vem assolando o país nos últimos três anos resulta da ultrapassagem de um limiar reprodutivo nunca registrado nas subpopulações de culicoides.

Como o senhor avalia o espaço que a ciência tem hoje na formulação de políticas públicas de saúde ambiental?

Ciência e políticas públicas deveriam ser indissociáveis. A questão é que para a ciência ser incorporada às políticas públicas é necessário haver participação de pesquisadores. Ocorre que não são em todas as áreas que surgem oportunidades de uma real participação. Na área ambiental o desafio parece ser sempre maior, pois as consequentes regulações podem causar impactos em bens, serviços e setor produtivo.

Existe um distanciamento entre o conhecimento produzido pelos pesquisadores e as decisões do poder público?

Não há dúvidas disso em várias situações. Convergências são pouco frequentes. Obviamente o conhecimento científico é uma das dimensões que devem ser ponderadas nas decisões, mas certamente há situações de contrariedade ao que é posto pela ciência que se torna dificilmente justificável. O maior envolvimento do pesquisador em ciência-cidadã, interfaces educativas e produção científica em veículos de mídia mais ampla pode auxiliar na visibilidade da importância do conhecimento científico e resultados de pesquisas.

Para o cidadão comum, qual é o principal alerta em relação às doenças transmitidas por vetores hoje? 

É preciso passar a noção de que não há solução mágica e de que os vetores e patógenos por eles transmitidos têm uma ecologia complexa, resultando em um controle mais difícil. É preciso se valer de todo tipo de recursos para que a somatória das iniciativas haja possibilidade de reduzir as chances de contato com o vetor e consequente infecção. E, se ocorrer o adoecimento do cidadão, de conseguirem encaminhamentos adequados para uma rápida conclusão de diagnóstico e tratamento. Informação, conscientização e bom uso dos serviços públicos.

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