
Afonso Peche Filho*
Há um tipo de destruição que não chega com explosões, mas com sorrisos e cargos. Um tipo de apagamento que não se faz por decreto, mas por consentimento. O colapso da ciência paulista e brasileira não se deve apenas à falta de recursos: é fruto de um projeto mais profundo, o rebaixamento moral do pensamento científico e o uso perverso das próprias instituições contra si mesmas.
A lógica é perversa: enquanto o discurso público exalta a inovação e o futuro, o cotidiano das instituições é corroído por decisões burocráticas travestidas de gestão moderna, por cortes disfarçados de reestruturações e por políticas que reduzem o pesquisador a operador de planilhas e slogans. Não é apenas o desmonte da estrutura física, mas o desmonte simbólico, o desmonte da ideia de que o conhecimento é um bem comum.
Mais grave ainda é a traição dentro das próprias fileiras. Há quem, por conveniência ou medo, aceite participar da ruína, reproduzindo a retórica dos poderosos, ajudando a apagar registros, dissolver acervos, desmontar equipes e calar vozes críticas. Muitos o fazem acreditando estar “garantindo o futuro”, quando na verdade apenas consolidam o esquecimento. São pares que se convertem em instrumentos de controle, esquecendo que o verdadeiro cientista não obedece à autoridade, obedece à verdade.
Há também os ingênuos úteis, seduzidos por discursos de eficiência e modernidade, que acabam servindo aos interesses daqueles que jamais compreenderam o valor do que está sendo destruído. Manipulados pela retórica do poder, tornam-se agentes involuntários da aniquilação da memória institucional. Acreditam estar colaborando com a transformação, mas apenas ajudam a empilhar ruínas sobre ruínas, ruínas de ideias, de coleções, de bibliotecas, de gerações inteiras de conhecimento acumulado.
Nos bastidores, o que se vê é uma perversão da meritocracia, onde o mérito é medido não pela qualidade da pesquisa, mas pela docilidade política. O pesquisador que resiste é isolado, difamado, esquecido. O que se alinha aos interesses dominantes é promovido como exemplo de “espírito institucional”. Assim, a ciência perde seu caráter republicano e torna-se refém de uma aristocracia de conveniência.
A história mostra que o autoritarismo nunca precisa destruir os cientistas de fora, basta cooptar os de dentro. E é nesse ponto que o desmonte se torna mais doloroso: quando o silêncio cúmplice dos pares ecoa mais alto que a voz dos inimigos declarados. Quando a neutralidade se transforma em omissão, e a omissão em cumplicidade.
Ao lado desse cenário de manipulação, floresce a amnésia. Centros de pesquisa com décadas de contribuição são rebatizados, suas origens apagadas dos documentos oficiais, seus fundadores riscados das placas e relatórios. O que se chama de “reestruturação” é, na verdade, reengenharia do esquecimento. O que se chama de “modernização” é, muitas vezes, a destruição calculada da história institucional. Cada sigla extinta, cada acervo disperso, cada laboratório abandonado é um corte na memória coletiva do país.
Porém, mesmo sob essa atmosfera de cinismo, há quem resista. Pesquisadores, técnicos, servidores e estudantes que se recusam a aceitar o apagamento e insistem em preservar registros, coletar testemunhos, manter vivos os fragmentos da história científica nacional. Esses poucos lembram que a ciência não é feita apenas de dados, mas de continuidade e memória, de uma ética que não se curva.
O que está em jogo não é apenas o futuro da pesquisa, mas o sentido de civilização. Um país que permite o desmonte de seus centros de saber destrói o próprio espelho de sua inteligência. A perversidade maior é transformar a ignorância em método de gestão e o oportunismo em critério de promoção.
A ciência, mesmo ferida, resiste, porque seu fundamento é a dúvida, e a dúvida é incompatível com o dogma do poder. Enquanto houver quem se recuse a aceitar o apagamento, haverá fagulhas de lucidez em meio à penumbra institucional. O cientista que insiste em preservar, estudar e ensinar em meio à ruína é, ele mesmo, um ato de resistência.
E talvez seja esse o destino da ciência brasileira neste tempo de desmantelamento: persistir como uma forma de desobediência ética. Persistir como último bastião da memória. Persistir, mesmo que o mundo ao redor insista em esquecer.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.