Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Agricultura Conservacionista: pesquisador Roberto Branco articula solo, diversidade e resiliência na produção de hortaliças

No Instituto Agronômico (IAC/APTA), o engenheiro agrônomo e pesquisador científico Roberto Botelho Ferraz Branco desenvolve trabalhos voltados à produção de hortaliças em condições de campo, com foco na adaptação de materiais genéticos e no enfrentamento dos desafios impostos pelas variações climáticas. Sua atuação no IAC, em Ribeirão Preto, articula diferentes frentes de pesquisa que dialogam diretamente com a sustentabilidade dos sistemas produtivos e com a necessidade de ampliar a resiliência da agricultura paulista.

Entre essas frentes, destaca-se o estudo e a aplicação dos princípios da Agricultura Conservacionista, baseada no mínimo revolvimento do solo, na rotação de culturas e na manutenção de cobertura permanente. Em suas pesquisas, o pesquisador analisa como essas práticas contribuem para a melhoria da fertilidade física, química e biológica do solo, além de favorecer a retenção de água, a atividade microbiológica e a proteção das lavouras frente a eventos climáticos adversos.

Paralelamente, Roberto Branco também conduz o trabalho de resgate e manutenção dos bancos de germoplasma de tomate, pimenta e pimentão do IAC, atividade estratégica para a preservação da variabilidade genética dessas culturas. A recuperação e renovação desses materiais, a partir da avaliação de viabilidade das sementes e do cultivo em campo, constitui uma base essencial para futuros programas de melhoramento genético.

Nesta entrevista à APqC, concedida ao jornalista Bruno Ribeiro, o pesquisador aborda as conexões entre essas linhas de trabalho.

APqC – Você poderia explicar, na prática, como funciona Agricultura Conservacionista no cultivo de hortaliças? Quais os benefícios proporcionados para o ambiente e como contribuem para a saúde do solo e para a produtividade das hortaliças?

RB – Os princípios agronômicos da Agricultura Conservacionista são o mínimo preparo do solo ou plantio direto para o estabelecimento das culturas agrícolas, rotação de culturas e manutenção permanente da cobertura do solo. Seguindo esses princípios tecnológicos o agricultor primeiramente terá protegido seu principal patrimônio que é o solo preservado e consequentemente terá o solo da propriedade com elevada fertilidade física, química e biológica. A prática da Agricultura Conservacionista elevará o teor de carbono no solo o que refletirá em diversos benefícios ao ambiente de cultivo, elevando a saúde do solo e qualidade da água. Além disso os cultivos se tornarão mais resilientes a intempéries climáticos, assegurados por um solo mais fértil e protegido da ação das chuvas, da insolação e dos ventos, fatores climáticos que causam a queda da fertilidade do solo e da produtividade das culturas agrícolas. Os produtores que praticam a Agricultura Conservacionista para produção de hortaliças fazem adaptações necessárias em seus implementos para conseguirem sucesso no estabelecimento dos cultivos hortícolas sobre a palha de cobertura do solo e quando conseguem dominar o cultivo conservacionista terão benefícios expressivos em suas áreas de produção, devido especialmente ao aumento da matéria orgânica do solo. O solo com teor de matéria orgânica elevada terá melhoria na porosidade do solo, retenção e infiltração de água, aumento na atividade biológica do solo e consequentemente na produtividade das culturas.

A ciclagem de nutriente especialmente pela rotação com plantas de cobertura e a redução das plantas daninhas também são benefícios nos campos de cultivo conservacionista de hortaliças proporcionadas pela prática da Agricultura Conservacionista. Consolidadas todas essas práticas conservacionistas o produtor terá além do benefício da conservação dos recursos naturais solo e água a melhoria da saúde do solo, redução de insumos agrícolas e aumento da rentabilidade dos cultivos.   

De que forma percebe que a agricultura conservacionista, com cobertura permanente do solo e mínimo revolvimento, torna as hortaliças mais resilientes a eventos climáticos extremos, como chuvas fortes, longos períodos de seca ou alta insolação?

O fato de manter o solo permanentemente protegido com cobertura de palha ou mesmo viva com cultivo de plantas e sob condição de preparo mínimo do solo ou em plantio direto primeiramente protegerá o solo da ação de processos erosivos de perda por escorrimento superficial. Além disso o cultivo de hortaliças nas condições conservacionista se beneficiará do solo coberto com a palha na superfície do solo. A palha mantida na superfície do solo reduzirá a energia de impacto das gotas da chuva no solo e com isso evitará estragos nas plantas que crescem no cultivo. Isso é bastante evidente em hortaliças folhosas, como alface, agrião e espinafre quando cultivadas em canteiros protegidos com palha em relação ao cultivo convencional com solo descoberto. A qualidade comercial dessas hortaliças cultivadas em sistema conservacionista é muito superior às do cultivo convencional. A temperatura do solo é reduzida devido à cobertura de palha o que proporciona conforto térmico aos cultivos especialmente nas estações mais quentes do ano, como primavera e verão. A barreira física da palha repousada no solo também contribui diretamente para reduzir a evaporação de água do solo e assim manter o solo mais úmido reduzindo a quantidade de água aplicada na irrigação e mantendo o cultivo adequadamente hidratado. Assim o contexto dos benefícios ecossistêmicos proporcionados pelas práticas conservacionistas torna os cultivos hortícolas mais resilientes à nova realidade climática que estamos vivenciando.    

Como está sendo feito o resgate dos bancos de germoplasma de tomate, pimenta e pimentão? Quais são os principais desafios para recuperar esse material que estava perdendo viabilidade, e qual a importância desse resgate para a pesquisa e para os produtores?

O resgate dos bancos de germoplasma de tomate, pimenta e pimentão do Instituto Agronômico (IAC/APTA) é a nova missão institucional que me foi atribuída. O principal desafio é saber a viabilidade das sementes dos acessos de cada coleção. Para isso estamos fazendo uma varredura de toda coleção colocando as sementes para germinar em bandejas com substrato apropriados para produção de mudas de hortaliças e assim cultivá-las no campo, colher as sementes e resguardar os acessos que germinaram. Já realizamos essa etapa para coleção de tomate; dos 309 acessos mantidos na coleção conseguimos recuperar 298 acessos e dessa forma renovando a coleção com as novas sementes. No momento estamos trabalhando nesse sentido com a coleção de pimentas que possui 991 acessos e com o pimentão que possui 138 acessos e para isso temos apoio da Fapesp com projeto que está em andamento dos Programas Especiais / PCD – Programa Ciência para o Desenvolvimento / PCD – CCD – Centros de Ciências para o Desenvolvimento (Processo Fapesp: 2025-07018-0). A recuperação dos acessos dos bancos de germoplasma de tomate, pimenta e pimentão é de extrema valia para preservação de uma base genética sólida baseada na variabilidade de indivíduos com potencial de preservar genes de interesse agronômico para produtividade e qualidade nutricional e organoléptica assim como para resistência a pragas e doenças. O resgate, a manutenção e o conhecimento adequado desses bancos de germoplasma possibilita subsidiar futuros trabalhos de melhoramento genéticos dessas espécies e também fornecer novas possibilidades de cultivos à produtores interessados em diversificar sua produção de hortaliças com materiais genéticos que atendam a expectativa do consumidor.         

É possível integrar o trabalho com os bancos de germoplasma de tomate, pimenta e pimentão à sua linha principal de pesquisa em Agricultura Conservacionista? 

É possível sim e desejado integrar o trabalho com os bancos de germoplasma de tomate, pimenta e pimentão com a pesquisa em Agricultura Conservacionista. Já é sabido o efeito da interação entre ambientes de cultivo e genótipos de plantas. Em experimentos realizados notamos interação significativa entre variedades de tomate cultivados em sistema conservacionista e convencional. Uma das hipóteses que nos atentamos nesse trabalho está relacionada com o vigor do crescimento radicular que proporciona maior estabilidade de cultivo e desempenho produtivo. Por isso acreditamos que híbridos ou variedades tenham desempenhos diferentes em relação ao ambiente de cultivo e que assim devam ser estudados para entender qual melhor se adapta em condições conservacionista. Outro ponto relevante a ser considerado é que hoje a Agricultura Conservacionista está inserida no contexto da Agricultura Regenerativa que preza por iniciativa de ampliar a biodiversidade de espécies na área de cultivo. Nesse sentido podemos pensar em cultivar variedades de tomates selvagens que são extremamente atrativos às abelhas tanto nativas quanto exóticas para compor o quadro de espécies vegetais com função ecossistêmica no planejamento da Agricultura Regenerativa. Dessa forma, dominando o conhecimento sobre os acessos que possuem cada coleção (tomate, pimenta e pimentão) abrirá um leque de possibilidades para utilização dos acessos para integrá-los aos métodos de produção de Agricultura Conservacionista e Regenerativa que tanto são desejados por toda sociedade.         

Eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes. Como isso impacta o planejamento e a condução de experimentos agrícolas de médio e longo prazo?

Não tenha dúvida! Na verdade, condições climáticas sempre estiveram inerentes às decisões e aos planejamentos de execuções experimentais agronômicas. No caso do cultivo do tomateiro, sempre condicionamos as execuções de cultivo no campo às estações de outono/inverno, que são as mais propícias ao cultivo do tomateiro na região de Ribeirão Preto, por ter dias com elevada insolação e noites frescas com temperaturas amenas, além de período com baixa precipitação — condições adequadas para o crescimento e desenvolvimento da lavoura de tomate. No entanto, com eventos climáticos extremos que acontecem mesmo fora de época, como o ocorrido em Ribeirão Preto, o planejamento do cronograma dos experimentos é bastante dificultado. É uma situação que não temos como controlar e faz parte do nosso ofício trabalhar com essas possibilidades de perdas com eventos climáticos adversos.

Diante das limitações estruturais e dos riscos climáticos, quais são as perspectivas para a continuidade dessa linha de pesquisa no IAC e para o fortalecimento da pesquisa pública agrícola?

É uma luta diária para todo pesquisador conseguir recursos para avançar com seus projetos, objetivos e metas. Temos possibilidades diversas para captação de recursos para trabalhos científicos, tanto em parcerias com a iniciativa privada como também em fundações públicas de apoio à pesquisa, como Fapesp, CNPq e Finep. Mas, na maioria das vezes, esses recursos são inapropriados para revertermos situações inusitadas como essa que aconteceu conosco aqui em Ribeirão Preto, que afetaram não somente os experimentos de campo como também a infraestrutura de salas de pesquisadores e laboratórios. No caso dessa linha de pesquisa, temos resiliência suficiente para dar continuidade sem maiores prejuízos, pois contamos com apoio financeiro da Fapesp com projeto em andamento — Programas Especiais / PCD – Programa Ciência para o Desenvolvimento / PCD – CCD – Centros de Ciências para o Desenvolvimento (Processo Fapesp: 2025-07018-0) —, além de estarmos buscando recursos com outras fontes de financiamento. O que mais prejudica no momento são os danos sofridos na estrutura predial de salas e laboratórios dos pesquisadores que foram afetados pelo vendaval.

Até que ponto o atual modelo de financiamento e manutenção da infraestrutura científica no Estado de São Paulo tem conseguido garantir a continuidade e a segurança de estudos estratégicos como o seu?

Existem recursos para financiamento e manutenção da infraestrutura da pesquisa, porém são ‘engessados’ e necessitam de abertura de edital ou submissão de projetos que contemplem alocação de recursos para infraestrutura. Isso demanda tempo tanto para elaboração do projeto quanto para análise e aprovação dos recursos. Porém, os recursos do estado aparentemente são escassos para atender à manutenção da infraestrutura em momentos de urgência de calamidade climática, que necessitam de agilidade para reverter o quadro de prejuízo, como acontecido aqui em Ribeirão Preto. Nesse caso, continuamos na expectativa de liberação do recurso por parte do estado para manutenção e reconstrução de nossas salas e laboratórios.

Sua atuação envolve a avaliação de desempenho de cultivares em campo. Quais são hoje os principais critérios utilizados para definir a adaptação de uma variedade a determinada região?

Minha atuação está direcionada à manutenção e caracterização do banco de germoplasma do tomateiro do IAC/APTA, assim como à possibilidade de expansão do banco genético para apoiar futuros trabalhos de melhoramento genético do tomateiro. Não temos trabalhos específicos de avaliação de desempenho de cultivares de tomate, porém acompanhamos com atenção o trabalho dos produtores de tomate, que estão sempre testando novos materiais genéticos em suas lavouras. Para um híbrido ou variedade se sobressair no mercado de sementes de tomate, é necessário que se cumpram prioritariamente as exigências do mercado, como tipo e tamanho de fruto e viabilidade de pós-colheita (tempo que permanece com integridade comercial após a colheita e comercialização), além de, no campo de produção, ser resistente às principais doenças da cultura e ter resiliência às adversidades climáticas, como elevadas temperaturas e chuva excessiva — condições tropicais que são consideradas para o estabelecimento de um novo híbrido ou variedade de tomate.

O melhoramento genético de hortaliças tem papel direto na produção de alimentos. Quais são hoje os principais gargalos enfrentados nessa área de pesquisa no Brasil?

Indubitavelmente, o melhoramento genético de hortaliças tem papel direto na produção de alimentos. Atualmente, é grande o desejo da sociedade de consumir alimentos frescos, como frutas e hortaliças. Assim, a garantia da disponibilidade desses alimentos passa por um processo interminável de atualização e lançamento de variedades e híbridos que atendam tanto às necessidades dos consumidores quanto dos produtores rurais. Por isso, a dinâmica do trabalho de melhoramento genético é incessante e inovadora, assim como os desejos dos consumidores e as necessidades dos produtores, que estão sempre em movimento e exigindo inovações do setor. O Instituto Agronômico é pioneiro na tropicalização das hortaliças, com trabalhos iniciados na década de 1960, especialmente sob coordenação do pesquisador Hiroshi Nagai, que, por meio de programa de melhoramento, possibilitou o cultivo tropical em escala de tomate, pimentão, alface, entre outras hortaliças. Atualmente, o mercado de sementes de hortaliças está bem dominado por ações de empresas da iniciativa privada, que focam em trabalhos contínuos de melhoramento genético e lançamentos de novos híbridos e cultivares. Com isso, programas de melhoramento de hortaliças de iniciativas públicas perderam espaço comercial para empresas privadas, especialmente de espécies propagadas e comercializadas por sementes, como é o caso do tomate. Apesar de ser um campo fértil para a iniciativa privada no mercado de sementes, o setor público, salvo algumas exceções, perdeu protagonismo nos últimos tempos, talvez pelo fato de não ter tido condições de acompanhar a evolução do mercado nacional de produção de hortaliças.

Entrevista concedida a Bruno Ribeiro, para a APqC, em 01/10/2026

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