
Presidente da APqC aponta excesso e proximidade de embarcações, ruído e uso de drones entre práticas que podem pressionar os animais; veja lista de credenciados para passeios
A ecóloga Helena Dutra Lutgens se surpreendeu ao analisar vídeos de avistamento de baleias em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. Dois elementos chamaram a atenção da pesquisadora: a quantidade de embarcações e o quão perto se aproximavam das baleias-jubartes. Em junho deste ano, a presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APQC) e seus colegas, então, emitiram uma nota pública para exigir mais fiscalização de órgãos ambientais para o que chamam de crescimento desordenado da prática.
O documento lista situações como uma aproximação exagerada dos cetáceos, o crescimento desordenado da atividade de avistamento e também apresenta vídeos e fotos publicados nas redes sociais de agências à frente desse tipo de serviço – algumas registram imagens com drones a poucos metros da espécie. “A APqC, publicamente, cobra dos órgãos ambientais o monitoramento dos impactos dessa atividade e a intensificação da fiscalização para garantir o cumprimento das regras de observação”, diz um trecho.
Para Helena, a observação não é necessariamente prejudicial. “Se bem orientado e bem planejado, é o tipo de turismo que favorece a conservação, inclusive, como educação ambiental”, afirma a doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela Unesp (Universidade Estadual Paulista).
O problema, diz, é como a disputa intensa e desorganizada para avistá-las pode prejudicar a dinâmica familiar e o ciclo de vida dos animais. “As embarcações podem desorientar um filhote, que podem se perder da mãe por conta do barulho e estresse”, acrescenta.
Os pesquisadores também chamam atenção para os valores superiores a R$ 500 por pessoa para o passeio, com serviço a bordo e música, o que desvirtua a proposta de um serviço com contrapartidas educacionais e ambientais. “É um turismo de elite”, afirma.
Recorde de avistamentos aumenta interesse
A discussão ocorre em um momento de alta nos registros de baleias-jubartes em Ilhabela. Entre abril e julho de 2025, foram contabilizados 695 avistamentos, contra 403 no mesmo período de 2024 e 644 em 2023. Os dados são do Projeto Baleia à Vista, que monitora os cetáceos na região desde 2016. O balanço divulgado posteriormente aponta 836 avistamentos de jubartes no ano passado. Os números se referem a registros e não necessariamente a animais diferentes, já que uma mesma baleia pode ser observada mais de uma vez.
A presença dos animais intensificou o turismo no município à beira-mar. Em balanço da temporada de 2025, a prefeitura informou que cerca de 8.000 pessoas participaram de passeios realizados por empresas certificadas com o selo “Cidade Amiga das Baleias”. Naquele momento, 29 agências possuíam a certificação.
Barcos têm limite para aproximação e ruído
A observação de baleias em águas brasileiras segue regras estabelecidas pelo Ibama há 30 anos. A Portaria 117 proíbe que embarcações se aproximem de baleias com o motor engrenado a menos de 100 metros do animal mais próximo. Também impede de perseguir uma baleia com o motor ligado por mais de 30 minutos, interromper seu deslocamento, tentar alterar sua rota ou penetrar intencionalmente em um grupo de cetáceos, dividindo ou dispersando os animais.
Desde 2002, o Ibama também proíbe que uma embarcação se aproxime de uma baleia ou grupo que já esteja sendo acompanhado, naquele momento, por pelo menos outros dois barcos. As regras não tratam apenas da distância.
O órgão ambiental federal também proíbe ruídos excessivos, como música e percussão, a menos de 300 metros de qualquer cetáceo. Também veta o despejo de detritos, substâncias ou materiais a menos de 500 metros dos animais. Na entrevista, Helena foi questionada sobre vídeos em que passeios apresentam música, bebida e ambiente de festa durante a atividade de observação.
“De forma alguma”, respondeu ao ser perguntada se esse tipo de som seria adequado. Para ela, a experiência perde seu sentido quando o entretenimento se sobrepõe ao contato responsável com a natureza. “A pessoa foi teoricamente para observar a baleia e ela vai beber, vai festejar, vai ouvir música. Não tem sentido, pode fazer isso em qualquer outro campo e deixa a baleia lá sossegada”, pontua.
“As baleias, elas se orientam então pelo som. Elas se comunicam”, explica Helena. “O barulho, por exemplo, dos barcos atrapalha a comunicação entre elas”.
O uso de drones também aparece entre as preocupações dos pesquisadores da APqC. Helena ressalta que a tecnologia também tem uso científico, mas que a popularização do equipamento provocou um uso excessivo por leigos.
“O equipamento é uma coisa que, quando surgiu, parecia que era alguma coisa que ia ajudar muito os pesquisadores, e inclusive é bastante usado para pesquisa”, afirma. Segundo ela, porém, o equipamento produz ruído e pode causar perturbação quando utilizado próximo aos animais.
Helena defende que o crescimento da atividade seja acompanhado por monitoramento científico e fiscalização. “É uma atividade que tem que ser monitorada por pesquisadores, pelas informações científicas”, diz. Ela também chama atenção para o tempo de interação: “Não pode ficar muito tempo observando o mesmo grupo, porque isso causa estresse.”
Fiscalização ainda carece de dados consolidados
Apesar do aumento dos avistamentos e da expansão da atividade turística, as informações públicas disponíveis não permitem verificar se houve aumento de multas e infrações no mesmo período por órgãos ambientais.
Em seu site, a Prefeitura de Ilhabela diz que “observar baleias e golfinhos em seu habitat natural é mágico, porém para maior segurança de todos e melhor experiência a bordo é importante ter critério ao contratar o passeio”. O órgão cita que, para orientar o turista e valorizar as empresas e prestadores de serviços que trabalham de forma responsável, foi criado o selo “Ilhabela, Cidade Amiga das Baleias” através do Decreto Municipal nº 11.320/2025. “Os contemplados com o selo passaram por treinamento, estão cientes das regras de avistamento de cetáceos e trabalham com embarcações e marinheiros habilitados para o transporte de passageiros”, indica o texto.
Nas fontes públicas consultadas pela reportagem, não foi encontrada uma série consolidada que informe, ano a ano, quantas denúncias por perseguição, aproximação irregular, excesso de embarcações, ruídos ou outras formas de molestamento foram recebidas no litoral paulista e quantas resultaram em advertências, autuações ou multas.
Durante três semanas, a reportagem procurou os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização e pelo acompanhamento da atividade. Até a publicação desta reportagem, o pedido de resposta à Prefeitura de Ilhabela, sob a gestão de Toninho Colucci (PL), não foi respondido. O Ibama e a Marinha do Brasil também não se posicionaram sobre as denúncias.
Também foram procuradas empresas associadas aos vídeos que aparecem nos registros da APqC como exemplos de possíveis irregularidades. No site da Prefeitura, há uma lista dos “Credenciados padrão ouro”, empresas que, segundo o governo local, receberam o Selo Cidade Amiga das Baleias nos anos de 2024, 2025, 2026 e participaram de treinamento prático (embarcados) realizado pelo Projeto Baleia Jubarte. Há uma lista separada de todas as empresas liberadas para os passeios. “Este selo é concedido a quem pratica o turismo de forma segura e responsável”, define a gestão.
A reportagem pesquisou pesquisou os nomes das empresas que aparecem na denúncia da APqC, mas na busca, nenhuma das empresas citadas aparecem na lista.
A Navega Ilhabela respondeu que não ultrapassa os limites impostos por lei e apoia fiscalizações na região. Por outro lado, citou que há problemas “com as embarcações particulares onde a maioria dos condutores não têm experiência e mal sabem o que estão fazendo”.
Na mesma linha, a empresa Conhecendo Ilhabela reconheceu a importância das regras e pontuou que não descumpre os ordenamentos. Já a Azure Ilhabela e Baleias com Scalea não responderam aos contatos.
As baleias estão voltando
Para Helena, a necessidade de controle se torna maior justamente porque o retorno das jubartes representa uma conquista da conservação. Ela lembra que a população desses animais foi duramente afetada pela caça e se recuperou após medidas de proteção.
“É importante que agora a gente não vá na contramão disso e desenvolva uma atividade de uma forma tão agressiva que possa prejudicar essa conservação que é um ganho, que é um avanço”, afirma. “Nesse caso a gente tá falando de uma vitória em relação à recuperação de uma espécie importante”.
Fonte: Lucas Veloso / GQ Globo