
Parque Estadual da Cantareira, a maior floresta urbana do Brasil e o centenário Parque Estadual Alberto Löfgren (também conhecido como Horto Florestal), localizados na zona norte de São Paulo, estão desde 2022 sob responsabilidade de uma empresa privada, a Urbia Gestão de Parques, do Grupo Construcap.
Desde a privatização, frequentadores relatam mudanças no parque, especialmente nos valores para acessá-lo. “Recentemente eu fui até o parque da Cantareira para fazer a trilha da Pedra Grande e foi cobrado o valor de R$ 60 para entrar. Tive que achar um modo alternativo para conseguir acessar”, comenta Reginaldo de Oliveira, 30, trilheiro e morador do Jardim Hebrom, bairro periférico da zona norte da capital paulista.
Para ele, espaços privatizados afastam o acesso à população local. “Colocar um preço alto para uma trilha na maior área verde da cidade significa fechar o acesso para a periferia para atrair outro público. Encontrei pessoas de várias nacionalidades e países diferentes”, pontua Reginaldo.
Alguns dos valores para acessar as atividades do parque: o estacionamento custa R$ 10 (moto) e R$ 19 (carro), Pedalinho: R$ 30 (30 minutos); Visita guiada no Horto: R$ 70; aluguel de bicicleta: R$ 25; Oficina de fotografia: R$ 150.
A arte educadora Maira Nunes, 25, moradora do Jardim Peri, frequentava o horto desde criança, quando os pais levavam a família para passear. Apesar das memórias felizes, a educadora conta que, depois que o parque foi privatizado, o frequentou poucas vezes. “A galera da quebrada frequentava mais antes da privatização; agora eu percebo que o público do parque é outro”, diz.
Ela questiona sobre a descaracterização do espaço e considera os preços abusivos. “Atualmente o parque tem de tudo, como se fosse um shopping, só que ao ar livre.”
O Parque do Horto Florestal ganhou um “Velho” novo restaurante. Inicialmente instalado no Palácio do Horto Florestal, casarão de 1937, ele funciona ao lado do campo de futebol na antiga sede do Clube Silvicultura, cuja fachada foi alterada para receber o restaurante que oferece café colonial de R$ 68 por pessoa.
Diversos quiosques e food trucks estão espalhados por diferentes pontos do parque. Aos fins de semana, uma feira gastronômica ocupa o espaço com opções como pastel, caldo de cana, chopp e hambúrguer artesanal – a partir de R$ 15.
A reportagem da Agência Mural enviou um e-mail questionando sobre a política de acesso para pessoas de baixa renda, mas não existe. Para garantir à gratuidade no Núcleo Engordador, é necessário encaminhar um comprovante de residência de até 2 km do local e renda familiar de até R$ 2.500.
Os impactos da privatização e a falta de opções de lazer para a população periférica são destacados por Tainã Dorea, 29, arquiteta e paisagista do Arquilombo, moradora da Vila Matilde, zona leste de São Paulo. “A privatização de parques pode resultar em cobrança de ingressos, aumento dos custos, que vai contra a função social da cidade e o direito à cidade”, avalia.
Museu de história natural
Outra preocupação citada por moradores é a preservação de um espaço histórico no local. O Museu Florestal Octávio Vecchi, inaugurado em 1931, é um espaço que reúne parte da história da preservação ambiental do Estado de São Paulo. O acervo é composto por diversos tipos de madeiras, sementes, peças de xilografia, vitrais e murais.
Em 2026, o Museu Florestal completará 95 anos, cumprindo a missão de salvaguardar a história da preservação ambiental do Estado de São Paulo.
Segundo os professores da Unifesp, Letícia Squeff e Manoela Rossinetti, do departamento de História da Arte, e Janes Jorge, do departamento de História, o museu é considerado um dos últimos remanescentes de museus de história natural do país.
“Eu temo pela conservação do acervo”, comenta uma ex-funcionária do museu Florestal Octávio Vecchi, que preferiu não se identificar por medo de retaliação. Desde a privatização do Horto Florestal e do Museu Florestal, a preocupação com o acervo se intensificou.
O museu deixou de ter acesso gratuito. A entrada custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), com gratuidade apenas na primeira quarta-feira do mês, entre 12h00 e 14h00. Anteriormente, a concessionária praticava um dia de gratuidade na semana, que era sempre às quartas-feiras.
“Eu acho que uma das grandes fragilidades do processo de concessão do museu, isso desde a modelagem e da própria empresa que assumiu, é tratar o museu como uma unidade de geração de receita. O museu trabalha com outro tipo de valores”, pontua a ex-funcionária que trabalhou oito anos antes da privatização.
Ela acrescenta: “tratar o museu como se fosse um quiosque, um ponto de vendas é um erro, porque não está olhando como política pública e cultural, e se você olha como negócio, ele não se sustenta”.
A URBIA tem a obrigação de produzir um plano museológico até dez meses depois da assinatura do contrato e esse plano não foi publicizado até hoje, ou seja, está com pelo menos quatro anos de atraso. O objetivo do plano museológico é garantir o desenvolvimento das atividades do museu, de acordo com o que determina a lei.
“Além do plano museológico e da equipe mínima, a concessionária teria que cumprir minimamente a agenda cultural de museus, promover eventos, exposições e atividades temporárias”, comenta a ex-funcionária.
Enquanto isso, no Museu Florestal, não há uma programação diversificada e gratuita com visitas educativas, falta diálogo com o entorno e aprofundamento de vínculos com os pesquisadores, trabalhadoras e trabalhadores.
“A empresa olha para o Museu como uma unidade econômica e geradora de renda. O museu não é para dar lucro”, afirma Sandra Terezinha Colla, 55, pós-graduada em museologia e funcionária pública federal, que conheceu o Parque do Horto Florestal durante a Jornada do Patrimônio, em 2024.
Para a servidora, a instituição não se encontra em condições adequadas de funcionamento: a iluminação interna é insuficiente, falta estrutura mínima de pessoas para receber e orientar os visitantes, e falta uma reforma estrutural do prédio, para conservação e adaptação (acessibilidade, salvaguarda do acervo).
A estatueta do Curupira, que fica próxima ao Museu Florestal e integra o acervo, é testemunha e vítima da falta de gestão da concessionária. Os poucos anos de concessão já fizeram o protetor das florestas perder a cabeça, literalmente. Aos poucos, por falta de monitoramento e manutenção, foi identificado a perda do topo da estátua.
Os demais Núcleos do Horto Florestal (Arboreto Vila Amália, Olaria e Polo Ecocultural) ainda não foram explorados como “centro comercial” e não receberam atenção da concessionária. O Arboreto Vila Amália é considerado berço da conservação ambiental no Brasil, protegendo remanescentes de vegetação de Mata Atlântica e fauna ameaçada de extinção.
Nenhum dos órgãos apresentou qualquer plano de ampliação da política de gratuidade ou de descontos para moradores do entorno ou frequentadores tradicionais do parque.
Preocupação com a Fauna e Flora
Desde criança Rosana Marques, 40, médica veterinária especialista em animais silvestres, moradora do bairro do Tremembé, visitava o Parque do Horto Florestal para ver os animais. Hoje os animais que ela costuma atender em maior número são roedores, mas também abrange lagartos, cobras, anfíbios, ave de rapina, falcão, coruja.
A veterinária relembra de uma ocasião em que foi chamada para atender um ganso machucado no parque, que já estava privatizado.
“Fui acionada porque o parque entrou em contato com o hospital veterinário particular que eu trabalho para me perguntar se eu poderia prestar um serviço gratuito, uma vez que eles não tinham condições de cuidar do animal e ele provavelmente morreria. Um descaso completo com a vida dos animais.”
A especialista explica que existem leis que garantem proteção à fauna e à flora. “As pessoas não devem interagir ou tocar em animais silvestres devido ao risco de transmissão de doenças. Os primatas e outros animais podem ser portadores de doenças contagiosas aos humanos”, comenta.
No parque, existem placas informando que não é permitido alimentar ou importunar os animais. Também é proibido empinar pipas, usar bexigas e soltar balões, pois essas atividades podem machucar a fauna e a flora do espaço.
“Além das placas, deveriam promover ações educativas e de conscientização ambiental”, afirma Rosana.
Empresa nega maus tratos
A Agência Mural questionou a concessionária Urbia Gestão de Parques sobre a política de cuidados com os animais e a empresa negou a ocorrência de maus-tratos e informou não ter recebido denúncias nos canais oficiais.
Ressaltaram que o manejo direto de animais silvestres é responsabilidade do Poder Concedente (Estado). Cabe à Urbia apenas acionar e encaminhar os animais que necessitam de cuidados especiais aos órgãos ambientais competentes.
Já a Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo) explicou que a Urbia é obrigada a manter protocolos para registrar, documentar e destinar animais mortos, feridos ou doentes. O manejo direto, contudo, permanece com as instâncias ambientais do Estado.
Também citou que a concessionária tem obrigações contratuais específicas para a proteção da fauna, como a instalação de sinalização educativa, adequação da rede elétrica e implantação de passagens para animais em pontos críticos.
A Arsesp confirmou a obrigatoriedade de protocolos de proteção animal pela empresa e informou que solicitará esclarecimentos oficiais diante das denúncias.
Fonte: Com informações de Natália Ract da Silva, para o Jaçanã