Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

O Abismo da Ciência

Afonso Peche Filho*

A expressão “o abismo da vida” costuma representar uma experiência-limite: o momento em que o ser humano se percebe diante do vazio, da incerteza, da dor profunda, do desconhecido ou da sensação de que os sentidos que sustentavam sua caminhada se romperam. É uma metáfora forte porque não descreve apenas uma dificuldade passageira, mas uma condição de confronto com algo maior que a própria vontade. O abismo não é apenas um buraco diante dos olhos; é também a percepção de que o chão simbólico, moral e emocional que sustentava a existência começa a desaparecer. A partir dessa imagem, é possível construir uma analogia com aquilo que se poderia chamar de “o abismo da ciência”, especialmente quando se observa a situação de pesquisadores que, mesmo comprometidos com o conhecimento, com a sociedade e com o futuro, encontram-se diante de instituições fragilizadas, carreiras desvalorizadas, estruturas deterioradas e políticas públicas descontínuas.

O abismo da ciência não nasce da ausência de vocação científica. Ao contrário, muitas vezes ele se abre justamente diante daqueles que mais acreditam na ciência como instrumento de emancipação social, desenvolvimento tecnológico, soberania nacional e cuidado com a vida. O pesquisador não se aproxima desse abismo porque perdeu o interesse pelo conhecimento, mas porque percebe que o ambiente institucional ao seu redor deixou de oferecer as condições mínimas para que esse conhecimento floresça. Há uma diferença profunda entre enfrentar as dificuldades naturais da investigação científica, a dúvida, o erro, a demora dos resultados, a necessidade de comprovação, e enfrentar a sensação de abandono estrutural. A primeira faz parte da ciência; a segunda revela uma crise de civilização.

O problema surge quando o abismo deixa de ser o mistério natural do conhecimento e passa a ser a precariedade artificialmente produzida por decisões administrativas, omissões políticas e indiferença social. Nesse caso, o pesquisador não está apenas diante de perguntas difíceis da natureza, da sociedade ou da tecnologia; está diante da pergunta mais amarga: como produzir ciência quando a própria estrutura que deveria sustentá-la está sendo enfraquecida?

Esse é o ponto mais doloroso do abismo da ciência. Ele não se expressa apenas em laboratórios sem manutenção, equipamentos obsoletos, falta de reposição de pessoal, perda de jovens talentos, burocracias paralisantes ou orçamentos insuficientes. Ele se expressa também em sentimentos humanos, muitas vezes silenciosos, que acompanham a vida dos pesquisadores: frustração, cansaço moral, sensação de invisibilidade, tristeza institucional, indignação contida e, em alguns casos, uma profunda solidão profissional. O pesquisador continua produzindo, orientando, escrevendo, avaliando, participando de projetos, respondendo às demandas da sociedade, mas frequentemente sente que trabalha sobre uma ponte estreita, suspensa entre o compromisso público e o desamparo político.

Há uma forma específica de sofrimento no pesquisador que percebe a importância social do seu trabalho, mas vê a sociedade tolerar a desestruturação das instituições que tornam esse trabalho possível. É como se houvesse uma contradição permanente: todos desejam alimentos mais seguros, água de melhor qualidade, tecnologias sustentáveis, controle de doenças, adaptação às mudanças climáticas, conservação do solo, inovação industrial, políticas ambientais consistentes e soluções para crises complexas; no entanto, nem sempre há disposição coletiva para defender, financiar e respeitar os institutos, universidades e centros de pesquisa responsáveis por construir essas respostas. O abismo da ciência se aprofunda quando a sociedade exige soluções urgentes, mas aceita passivamente a erosão lenta das condições que permitem produzi-las.

Para muitos pesquisadores, esse abismo tem também uma dimensão ética. A ciência pública não é apenas uma profissão; é uma forma de serviço à sociedade. Quem trabalha em instituições públicas de pesquisa sabe que seus resultados não pertencem apenas ao currículo individual, mas integram uma memória coletiva, uma capacidade nacional instalada, uma reserva estratégica de inteligência. Quando essa estrutura é fragilizada, não se perde apenas produtividade acadêmica. Perde-se soberania, continuidade histórica, capacidade de resposta e autonomia intelectual. O dano não é apenas administrativo; é cultural, econômico e civilizatório.

O pesquisador, diante desse quadro, pode experimentar um sentimento semelhante ao de estar olhando para um vazio institucional. Ele sabe o que precisa ser feito, conhece os caminhos técnicos, compreende a importância da pesquisa de longo prazo, identifica os riscos futuros, mas percebe que suas advertências muitas vezes não encontram escuta proporcional. Essa é uma das faces mais difíceis do abismo da ciência: a lucidez sem poder de decisão. Saber que um problema se aproxima, compreender suas causas, propor alternativas e, ainda assim, ver prevalecerem a negligência, o improviso ou a descontinuidade. A dor do pesquisador não está apenas no trabalho que falta realizar, mas na consciência de que muitas perdas poderiam ser evitadas.

Esse abismo também se manifesta na quebra da esperança profissional. A carreira científica exige décadas de formação. Um pesquisador não se improvisa. Ele é resultado de estudo continuado, experiência acumulada, convivência com problemas reais, domínio metodológico e compromisso institucional. Quando jovens pesquisadores não encontram espaço, quando aposentadorias não são repostas, quando laboratórios perdem equipes, quando programas são interrompidos e quando a carreira deixa de ser valorizada, cria-se um vazio geracional. Esse vazio talvez seja um dos abismos mais graves, porque compromete não apenas o presente, mas a capacidade futura de produzir conhecimento.

A metáfora do abismo, no entanto, não deve ser entendida apenas como imagem de derrota. Ela também pode representar um ponto de consciência. Ao olhar para o abismo, a ciência percebe a gravidade de sua condição e a urgência de reorganizar sua defesa pública. O abismo obriga a perguntar: que sociedade queremos ser? Uma sociedade que usa a ciência apenas quando precisa de respostas emergenciais, ou uma sociedade que reconhece a ciência como fundamento permanente de sua soberania, de sua qualidade de vida e de sua responsabilidade com as próximas gerações? Essa pergunta é decisiva, porque a ciência não pode ser tratada como ornamento institucional. Ela é infraestrutura invisível do futuro.

O abismo da ciência é, portanto, o espaço simbólico onde se encontram a grandeza da missão científica e a pequenez das políticas que a desamparam. É o lugar onde o pesquisador sente, ao mesmo tempo, orgulho pelo que constrói e tristeza pelo que vê ser desmontado. É a fronteira entre a esperança técnica e a exaustão moral. É o ponto em que a dedicação individual já não basta para compensar a negligência coletiva. E é também o chamado para que a sociedade compreenda que defender a ciência não é defender privilégios corporativos, mas proteger uma das formas mais qualificadas de cuidado com a vida.

Quando o pesquisador se vê diante do abismo da ciência, ele não está apenas falando de si. Está falando da água que poderá faltar, do solo que poderá degradar, das doenças que exigirão respostas rápidas, das cidades que precisarão se adaptar, da agricultura que terá de se regenerar, dos ecossistemas que dependerão de conhecimento aplicado, das tecnologias que ainda precisarão ser desenvolvidas e das políticas públicas que necessitarão de base técnica. O sentimento do pesquisador, nesse contexto, não é apenas pessoal; é histórico. Ele sente porque compreende. Sofre porque antecipa. Insiste porque sabe que o conhecimento ainda é uma das poucas pontes possíveis sobre o vazio.

Assim, “o abismo da ciência” pode ser compreendido como a metáfora de uma ciência que, mesmo cercada por incertezas, continua olhando para o futuro; mesmo ferida pela desvalorização, continua produzindo sentido; mesmo diante da indiferença, continua oferecendo caminhos. Mas nenhum país pode esperar que seus pesquisadores permaneçam indefinidamente sustentando pontes sem pilares. A ciência precisa de reconhecimento, continuidade, investimento, respeito e renovação. Sem isso, o abismo deixa de ser apenas uma metáfora e passa a ser uma realidade institucional. E quando uma sociedade permite que sua ciência se aproxime demais desse vazio, ela não coloca em risco apenas seus pesquisadores: coloca em risco sua própria capacidade de atravessar o futuro.

Afonso Peche Filho é Pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC)

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