
Pesquisador Científico Sênior do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Afonso Peche Filho construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a sustentabilidade dos sistemas agrícolas e pela defesa do solo como elemento central da produção e da vida no campo. Engenheiro agrônomo, com mestrado pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado pela Universidade Estadual Paulista, o pesquisador consolidou sua atuação na interface entre ciência, prática agrícola e gestão ambiental.
Ao longo de sua carreira de quase quatro décadas, Peche Filho tem se dedicado a compreender e enfrentar os impactos da atividade agrícola sobre o solo e os recursos hídricos, com ênfase na conservação, no manejo ecológico e na construção de modelos produtivos mais sustentáveis. Sua atuação combina pesquisa aplicada, extensão e diálogo com produtores, sempre com foco na realidade concreta da agricultura brasileira, especialmente em regiões tropicais.
Nos últimos anos, sua análise tem ganhado um tom de alerta. Em diferentes espaços – entre eles o site da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), ao qual colabora com artigos semanais – o pesquisador aponta sinais de regressão nas práticas de conservação do solo, destacando o avanço de processos erosivos, a perda de fertilidade e o comprometimento da capacidade produtiva das áreas agrícolas. Para ele, parte desses problemas está associada à adoção de modelos de manejo que privilegiam a eficiência operacional em detrimento do equilíbrio ambiental.
Inspirado pelos princípios do manejo ecológico do solo, difundidos por Ana Maria Primavesi, e dialogando com a tradição crítica da educação proposta por Paulo Freire, Peche Filho também amplia o debate para além da técnica. Em seus trabalhos mais recentes, incorpora conceitos como agricultura regenerativa e ecohidrologia, ao mesmo tempo em que propõe a ideia de uma “alfabetização agroecológica”, entendida como um processo de formação crítica capaz de integrar conhecimento científico, saberes tradicionais e transformação social.
Nesta entrevista, ele analisa os desafios contemporâneos da agricultura, discute os limites do modelo produtivo dominante e aponta caminhos para conciliar produtividade, conservação ambiental e qualidade de vida no meio rural. Trata-se de uma reflexão que articula ciência, prática e posicionamento político, e que coloca o solo no centro do debate sobre o futuro da agricultura.
APqC – O senhor construiu uma trajetória de quatro décadas no Instituto Agronômico de Campinas. Como sua formação acadêmica, aliada à prática, influencia a maneira como o senhor enxerga a relação entre agricultura e meio ambiente?
Afonso Peche Filho – Minha formação acadêmica me deu a base científica para compreender os processos que sustentam a agricultura: o solo, a água, as plantas, a mecanização, a conservação e a dinâmica da paisagem. Mas foi a prática, ao longo de quatro décadas no Instituto Agronômico de Campinas, que me ensinou que a agricultura não pode ser vista apenas como produção. Ela é uma forma permanente de intervenção no ambiente.
No campo, aprendemos que toda decisão agrícola tem consequência ambiental. A forma de preparar o solo, conduzir máquinas, manejar a cobertura, aplicar insumos, organizar a drenagem ou conservar uma nascente interfere diretamente na qualidade do solo, na água, na biodiversidade e na estabilidade produtiva.
Essa vivência me levou a enxergar agricultura e meio ambiente como dimensões inseparáveis. Não existe boa agricultura sobre solo degradado, água mal manejada e paisagem empobrecida. A produtividade depende da conservação dos processos naturais que sustentam o sistema produtivo.
Por isso, minha visão é que o agricultor não é apenas produtor de alimentos ou matérias-primas. Ele é também gestor do solo, da água, da biodiversidade e da paisagem. A agricultura do futuro precisa unir ciência, prática e responsabilidade ecológica, produzindo com eficiência, mas sem comprometer a base natural que garante a própria continuidade da produção.
Ao longo da sua carreira, o senhor acompanhou diferentes fases da agricultura brasileira. Na sua avaliação, quais foram as principais mudanças, positivas e negativas, no manejo do solo nesse período?
APF – Ao longo da minha carreira, acompanhei transformações muito expressivas na agricultura brasileira. Entre os avanços positivos, destaco a chegada, a consolidação e a maturação do manejo ecológico e da agroecologia como campos legítimos de conhecimento, pesquisa, extensão e ação pública. Durante muito tempo, a agroecologia foi vista apenas como prática alternativa ou como posição periférica. Hoje, felizmente, ela se apresenta como ciência, como método de interpretação dos agroecossistemas e como base para repensar a relação entre produção, solo, água, biodiversidade, território e sociedade.
Essa mudança é muito importante porque ampliou a compreensão sobre o solo. O solo deixou de ser visto apenas como suporte físico ou reservatório químico de nutrientes e passou a ser entendido como sistema vivo, complexo, estruturado por relações físicas, químicas e biológicas. A valorização da cobertura permanente, das plantas de serviço, da matéria orgânica, da biodiversidade funcional, da rotação de culturas, da integração entre lavoura, paisagem e água, e da redução da dependência de insumos externos representa uma evolução conceitual importante. O manejo ecológico amadureceu justamente ao mostrar que produtividade e conservação não são objetivos opostos, mas dimensões complementares de uma agricultura bem conduzida.
Também houve avanços técnicos importantes no campo da conservação do solo, do sistema plantio direto, da mecanização mais precisa, do monitoramento da fertilidade, da agricultura de precisão e da gestão da água. Esses instrumentos trouxeram ganhos reais, sobretudo quando utilizados dentro de uma visão sistêmica. Entretanto, quando a tecnologia é aplicada sem critério ecológico, ela pode apenas intensificar velhos problemas com ferramentas mais modernas.
No campo negativo, vejo com grande preocupação o uso crescente, frequente e muitas vezes indiscriminado de agrotóxicos. Esse processo revela uma dependência química perigosa e empobrece a capacidade de leitura ecológica dos sistemas produtivos. Em muitos casos, pragas, doenças e plantas espontâneas são tratadas apenas como inimigos a serem eliminados, e não como sinais de desequilíbrios no solo, na paisagem, na diversidade biológica e no próprio modelo de manejo. O uso abusivo de agrotóxicos fragiliza a saúde ambiental, afeta organismos não alvo, ameaça a qualidade da água, reduz a biodiversidade funcional e pode comprometer a saúde de trabalhadores rurais e consumidores.
Outro ponto que observo com muito pesar é a fragilização e a prorrogação contínua da reforma agrária. O Brasil adiou, por décadas, uma reorganização mais justa e democrática do acesso à terra. Isso tem consequências profundas. A concentração fundiária, a precarização de políticas públicas para a agricultura familiar e a dificuldade de estruturar territórios produtivos diversificados limitam o potencial da agroecologia e do manejo ecológico em escala social. Não se trata apenas de distribuir terra, mas de criar condições reais para que famílias agricultoras tenham acesso a assistência técnica, crédito adequado, infraestrutura, mercados, educação, água, sementes, biodiversidade e autonomia produtiva.
Mas talvez uma das maiores tristezas dessa trajetória seja vivenciar o desmantelamento progressivo e a falta de respeito com os institutos públicos de pesquisa e com seus pesquisadores. Instituições que foram construídas ao longo de décadas, com enorme esforço científico, técnico e humano, vêm sofrendo com perda de quadros, precarização estrutural, redução de investimentos, descontinuidade de programas e baixa valorização do conhecimento público. Isso é muito grave, porque a agricultura brasileira depende profundamente da pesquisa pública para responder a desafios complexos: mudanças climáticas, conservação do solo, segurança alimentar, uso racional da água, transição agroecológica, sanidade vegetal, inovação tecnológica e sustentabilidade dos territórios.
Quando um país enfraquece seus institutos de pesquisa, ele compromete sua capacidade de antecipar crises e de construir soluções próprias. E quando desvaloriza seus pesquisadores, fragiliza justamente aqueles que dedicaram a vida a compreender os problemas reais do campo e a propor caminhos para superá-los. A ciência agrícola não se improvisa. Ela exige tempo, continuidade, equipes qualificadas, memória institucional, laboratórios, campos experimentais, diálogo com agricultores e compromisso público.
Portanto, minha avaliação é que a agricultura brasileira avançou muito em conhecimento, produtividade e capacidade técnica, mas ainda convive com contradições muito graves. De um lado, amadurecem o manejo ecológico, a agroecologia, a conservação do solo e a visão sistêmica da paisagem. De outro, persistem a dependência química, a simplificação dos sistemas produtivos, a degradação ambiental, a injustiça no acesso à terra e o enfraquecimento das instituições públicas de pesquisa. O futuro da agricultura brasileira dependerá da nossa capacidade de superar essa contradição: usar a ciência, a técnica, a política pública e a justiça social para construir sistemas produtivos mais vivos, mais diversos, mais democráticos e mais ambientalmente responsáveis.
Em várias entrevistas, o senhor afirma que há um processo de regressão nas práticas de conservação do solo. O que explica esse movimento, mesmo diante de tantos avanços tecnológicos no campo?
APF – Esse movimento pode ser explicado por uma contradição muito clara: avançamos muito em tecnologia, mas nem sempre avançamos na qualidade da aplicação das práticas conservacionistas. Hoje temos máquinas melhores, sensores, mapas, agricultura de precisão, insumos mais sofisticados e grande capacidade de informação. Mas, em muitas situações, a decisão de manejo continua sendo tomada de forma simplificada, imediatista e pouco ecológica.
A regressão ocorre quando práticas fundamentais deixam de ser bem executadas. Por exemplo: curvas de nível abandonadas, terraços malconservados, plantio direto sem rotação de culturas, pouca palhada, excesso de tráfego de máquinas, solo exposto, compactação, estradas rurais sem drenagem adequada e áreas de preservação tratadas como espaços secundários. Ou seja, a tecnologia avança, mas a disciplina conservacionista recua.
Também há uma falsa sensação de segurança. Muitos acreditam que, por usar uma máquina moderna ou uma técnica conhecida, o sistema está automaticamente protegido. Mas conservação do solo exige rotina, observação, manutenção, planejamento e bons hábitos operacionais. Não basta ter tecnologia; é preciso aplicá-la com critério técnico e responsabilidade ambiental.
Outro fator é a pressão por produtividade imediata. Quando o manejo é orientado apenas pelo resultado da safra, decisões importantes para a estabilidade do solo são adiadas ou negligenciadas. O problema é que o solo não responde apenas no curto prazo. Ele acumula impactos: perde estrutura, reduz infiltração, aumenta enxurrada, compacta, erode e perde capacidade produtiva.
Portanto, a regressão nas práticas de conservação do solo não acontece por falta de conhecimento ou de tecnologia. Ela acontece, principalmente, por perda de atenção, de manutenção, de formação prática e de compromisso com a paisagem. O grande desafio é recuperar uma cultura conservacionista no campo: aquela que entende que conservar o solo não é uma prática complementar, mas a base da produtividade, da segurança hídrica e da sustentabilidade da agricultura.
O senhor tem alertado para o impacto da eliminação de terraços e curvas de nível em nome da eficiência operacional das máquinas. Até que ponto a mecanização, da forma como vem sendo conduzida, entrou em conflito com a sustentabilidade dos sistemas agrícolas?
APF – A mecanização é indispensável para a agricultura moderna. O problema não está na máquina em si, mas na forma como o sistema produtivo passou a adaptar a paisagem à máquina, e não a máquina à paisagem. Quando terraços, curvas de nível, faixas de contenção e outras estruturas conservacionistas são eliminados apenas para facilitar manobras, aumentar velocidade operacional ou ampliar o rendimento das operações, cria-se um conflito direto entre eficiência mecânica e sustentabilidade agrícola.
Em muitas áreas, a busca por maior eficiência operacional acabou simplificando demais o desenho da lavoura. Grandes talhões, linhas longas, ausência de obstáculos e tráfego mais rápido podem favorecer o desempenho das máquinas no curto prazo. Porém, se essa reorganização desconsidera a declividade, o caminho da água, o tipo de solo, a cobertura vegetal e a capacidade de infiltração, o resultado pode ser aumento da enxurrada, erosão, assoreamento, compactação e perda de fertilidade.
O terraço e a curva de nível não são “atrasos” tecnológicos. São estruturas de inteligência hidrológica da paisagem. Eles ajudam a reduzir a velocidade da água, favorecer a infiltração, proteger a camada fértil do solo e diminuir o risco de erosão. Quando são retirados sem um projeto técnico equivalente, a propriedade perde parte de sua capacidade de regular a água da chuva.
Portanto, a mecanização entra em conflito com a sustentabilidade quando é conduzida apenas pela lógica do rendimento operacional, sem integração com a conservação do solo e da água. A verdadeira modernização não deveria eliminar as práticas conservacionistas, mas redesenhá-las com engenharia, planejamento e tecnologia. É possível mecanizar com eficiência e conservar o solo ao mesmo tempo, desde que a operação respeite a paisagem.
O desafio é substituir a ideia de “adaptar o terreno à máquina” pela ideia de “adaptar a mecanização ao funcionamento ecológico da propriedade”. Isso exige planejamento em nível, controle de tráfego, manutenção de terraços quando necessários, uso adequado de plantas de cobertura, boa drenagem de estradas internas, redução da compactação e análise técnica de cada vertente. A eficiência operacional não pode ser medida apenas em hectares por hora. Ela também precisa ser medida pela capacidade de manter o solo no lugar, conservar água e garantir produtividade estável ao longo do tempo.
Sua atuação envolve também a gestão ambiental de bacias hidrográficas. Como o manejo inadequado do solo nas propriedades rurais se conecta com problemas mais amplos, como assoreamento de rios e crises hídricas?
APF – O manejo inadequado do solo dentro de uma propriedade rural nunca fica restrito apenas à propriedade. Ele se conecta diretamente com a bacia hidrográfica, porque toda área produtiva faz parte de um sistema maior de circulação da água, sedimentos, nutrientes e energia.
Quando o solo fica exposto, compactado, sem cobertura vegetal, sem terraceamento adequado, sem plantio em nível e sem boa infiltração, a água da chuva deixa de entrar no solo e passa a escoar pela superfície. Esse escoamento carrega partículas de solo, matéria orgânica, fertilizantes e outros resíduos para as partes mais baixas da paisagem. Com o tempo, esse material chega aos córregos, rios, represas e nascentes.
É assim que o problema local vira problema coletivo. A erosão na propriedade contribui para o assoreamento dos cursos d’água, reduz a profundidade dos rios, diminui a capacidade de armazenamento das represas, compromete a qualidade da água e aumenta o risco de enchentes. Ao mesmo tempo, como menos água infiltra no solo, há menor recarga de lençóis freáticos, menor regularização das vazões e maior vulnerabilidade nos períodos de estiagem.
Por isso, a crise hídrica não pode ser entendida apenas como falta de chuva. Muitas vezes ela também é consequência da perda de funcionalidade hidrológica da paisagem. Uma bacia com solos degradados, compactados, erodidos e mal manejados perde a capacidade de captar, infiltrar, armazenar e liberar água gradualmente.
Nesse sentido, conservar o solo é também conservar a água. Cada propriedade rural precisa ser vista como uma unidade de manejo dentro da bacia hidrográfica. Práticas como cobertura permanente do solo, rotação de culturas, plantas de cobertura, terraceamento bem dimensionado, curvas de nível, recuperação de matas ciliares, proteção de nascentes, adequação de estradas rurais e manejo correto da compactação têm impacto direto na segurança hídrica.
Portanto, o manejo do solo é uma questão produtiva, ambiental e pública. Quando uma propriedade perde solo por erosão, a bacia perde qualidade ambiental. Quando muitas propriedades manejam mal seus solos, toda a sociedade paga o custo: rios assoreados, água mais cara de tratar, reservatórios comprometidos, enchentes mais intensas e estiagens mais severas. A gestão ambiental de bacias começa, necessariamente, pela qualidade do manejo do solo em cada propriedade rural.
Seu trabalho dialoga diretamente com os princípios defendidos por Ana Maria Primavesi. Como esses fundamentos do manejo ecológico do solo se traduzem, na prática, para o agricultor contemporâneo?
APF – Os princípios defendidos por Ana Maria Primavesi se traduzem, na prática, em uma mudança de olhar: o agricultor deixa de manejar apenas a cultura e passa a manejar o solo como um sistema vivo. Isso significa entender que a produtividade não depende somente de adubo, defensivo e máquina, mas da qualidade da estrutura do solo, da matéria orgânica, da atividade biológica, da infiltração da água, da presença de raízes e da diversidade de organismos.
Na prática, isso começa por observar melhor o solo. Antes de aplicar uma solução, é preciso diagnosticar: verificar compactação, presença de raízes, agregação, cheiro, umidade, cobertura, erosão, infiltração e atividade biológica. Para Primavesi, o manejo ecológico parte da leitura do solo e da paisagem. O agricultor precisa perguntar: a água está infiltrando? As raízes estão aprofundando? O solo está vivo? A palhada permanece? A área está produzindo com estabilidade?
Esses fundamentos também significam manter o solo sempre coberto, reduzir o revolvimento, diversificar plantas, usar rotação de culturas, valorizar plantas de cobertura, devolver matéria orgânica ao sistema, evitar compactação e diminuir a dependência de insumos químicos usados de forma automática. A matéria orgânica não deve ser vista apenas como fonte de nutrientes, mas como alimento da vida do solo e base para formar agregados, poros, canais de raízes e ambiente favorável à água e ao ar.
Para o agricultor contemporâneo, isso não é um retorno ao passado, mas uma agricultura mais inteligente. A tecnologia continua importante, mas precisa trabalhar a favor dos processos naturais. Máquinas, bioinsumos, remineralizadores, compostos, agricultura de precisão e irrigação só fazem sentido quando fortalecem a vida, a estrutura e a funcionalidade ecológica do solo.
Portanto, traduzir Primavesi para a prática atual é orientar o agricultor a produzir conservando: cuidar da cobertura, da raiz, da água, da matéria orgânica, da biodiversidade e da estrutura do solo. É compreender que o solo bem manejado não apenas sustenta a planta; ele regula água, armazena carbono, abriga vida e dá estabilidade ao sistema produtivo. Essa é a base de uma agricultura mais resiliente, econômica e ambientalmente responsável.
Nos últimos anos, o senhor tem se dedicado a temas como agregação do solo, ecohidrologia e agricultura regenerativa. O que esses conceitos acrescentam às abordagens tradicionais de conservação e manejo?
APF – Esses conceitos acrescentam uma visão mais integrada e funcional ao manejo do solo. A conservação tradicional foi muito importante ao ensinar o agricultor a evitar erosão, reduzir perdas de solo, plantar em nível, manter terraços, proteger nascentes e conservar a cobertura. Mas hoje precisamos ir além de “evitar perdas”. Precisamos compreender como o solo funciona, como a água circula na paisagem e como o sistema produtivo pode se regenerar.
A agregação do solo mostra que a qualidade do solo não está apenas na análise química. Ela está também na sua estrutura: nos agregados, poros, canais de raízes, atividade biológica e capacidade de infiltrar e armazenar água. Um solo bem agregado é mais resistente à erosão, menos sujeito à compactação e mais favorável ao desenvolvimento das plantas.
A ecohidrologia amplia o olhar para a água. Traz a relação intima entre o ecossistema local e a água. Ela mostra que a crise hídrica não depende apenas da chuva, mas da capacidade da paisagem de captar, infiltrar, armazenar e liberar água ao longo do tempo. Assim, práticas como cobertura permanente, raízes profundas, terraceamento, curvas de nível, matas ciliares e estradas bem planejadas deixam de ser medidas isoladas e passam a compor uma estratégia de segurança hídrica da propriedade e da bacia.
Já a agricultura regenerativa acrescenta a ideia de reconstrução. Reconstruir funcionalidades perdidas pela agricultura convencional. Não basta reduzir danos; é preciso recuperar funções ecológicas: vida no solo, biodiversidade, ciclagem de nutrientes, estoque de carbono, infiltração e armazenamento de água, estabilidade produtiva e resiliência climática. Ela reforça que a propriedade deve ser manejada como um sistema vivo e saudável.
Portanto, esses conceitos não substituem a conservação do solo; eles a aprofundam. A conservação tradicional pergunta: “como evitar que o solo seja perdido?”. A visão regenerativa pergunta também: “como fazer esse solo voltar a funcionar melhor?”. Essa é a grande contribuição: passar de uma agricultura apenas defensiva para uma agricultura construtiva, capaz de conservar, regenerar e produzir com maior estabilidade ambiental e econômica.
O senhor também desenvolve uma reflexão sobre “alfabetização agroecológica”, inspirada em Paulo Freire. Como essa proposta pode transformar não apenas a forma de produzir, mas também a forma como os agricultores compreendem seu papel social?
APF – A alfabetização agroecológica parte de uma ideia simples, inspirada em Paulo Freire: antes de transformar a prática agrícola, é preciso transformar a leitura que o agricultor faz da sua realidade. Não se trata apenas de ensinar técnicas, mas de ajudar o agricultor a compreender o solo, a água, a biodiversidade, a paisagem e a comunidade como partes de um mesmo sistema.
Na prática, isso significa estimular o agricultor a “ler” sua propriedade: observar onde a água escorre, onde o solo compacta, onde aparece erosão, onde falta vida, onde a planta não desenvolve raiz, onde a biodiversidade foi reduzida e onde existem oportunidades de regeneração. Essa leitura crítica permite que ele deixe de ser apenas executor de recomendações externas e passe a ser sujeito ativo do manejo.
Essa proposta também muda a forma de produzir. O agricultor passa a entender que cobertura do solo, rotação de culturas, matéria orgânica, diversidade de plantas, proteção de nascentes, cuidado com áreas ciliares e redução da dependência química não são práticas isoladas. Elas fazem parte de uma nova consciência produtiva, baseada na vida do solo, na saúde da paisagem e na estabilidade do sistema.
Mas a transformação é também social. Quando o agricultor compreende que seu manejo interfere na água da bacia, na qualidade dos alimentos, na biodiversidade, no clima local e na vida da comunidade, ele passa a enxergar seu trabalho como uma função pública. Produzir alimentos deixa de ser apenas uma atividade econômica e passa a ser também um ato de responsabilidade ambiental, cultural e social.
Portanto, alfabetização agroecológica é formar agricultores capazes de interpretar, decidir e agir com autonomia. É substituir a dependência cega de pacotes tecnológicos por uma inteligência prática, crítica e ecológica. O agricultor deixa de ser visto como simples usuário de insumos e passa a ser reconhecido como gestor da terra, cuidador da água, produtor de alimentos e agente de transformação do território. O agricultor que agriculta produz ambientes produtivos e não ambientes degradados.
Em seus textos, há uma crítica clara ao modelo agrícola convencional, especialmente no que diz respeito à dependência de insumos e à degradação ambiental. Na sua visão, quais são hoje os principais obstáculos para a transição em direção a sistemas mais sustentáveis?
APF – Na minha visão, os principais obstáculos para a transição não são apenas técnicos. Eles são também econômicos, culturais, institucionais e políticos. Hoje já existe conhecimento suficiente para avançar em sistemas mais sustentáveis, mas ainda falta criar condições reais para que essa mudança aconteça em escala.
O primeiro obstáculo é a dependência do modelo de insumos. Grande parte da agricultura foi organizada em torno da compra contínua de fertilizantes solúveis, agrotóxicos, sementes, corretivos e pacotes tecnológicos. Isso cria uma lógica em que o agricultor passa a resolver problemas complexos com respostas rápidas e externas, em vez de reconstruir a funcionalidade do solo, da biodiversidade e da paisagem.
O segundo obstáculo é o imediatismo econômico. A transição ecológica exige planejamento, tempo, observação e investimento gradual. Muitas vezes, o agricultor está pressionado por dívidas, custos de produção, mercado, arrendamento e necessidade de resultado na próxima safra. Essa pressão dificulta práticas de médio e longo prazo, como rotação de culturas, plantas de cobertura, recuperação da estrutura do solo, redução da compactação e recomposição de áreas estratégicas.
Outro obstáculo importante é a falta de assistência técnica preparada para a transição. Não basta recomendar a troca de um insumo por outro. Sistemas sustentáveis exigem diagnóstico, acompanhamento, manejo adaptativo e leitura integrada da propriedade. É preciso formar técnicos e agricultores capazes de interpretar solo, água, raízes, cobertura, biodiversidade, erosão, compactação e dinâmica produtiva.
Também existe uma barreira cultural. Durante décadas, difundiu-se a ideia de que produtividade depende principalmente de controle químico, adubação intensiva e mecanização pesada. Mudar essa mentalidade exige alfabetização agroecológica, demonstrações práticas, áreas de referência e valorização do conhecimento do agricultor.
Há ainda obstáculos institucionais e políticos. A pesquisa pública, a extensão rural, o crédito, o seguro agrícola e as políticas de compras públicas deveriam estimular mais fortemente práticas conservacionistas, agroecológicas e regenerativas. Sem apoio consistente, a transição fica restrita a iniciativas isoladas.
Portanto, o maior desafio é substituir uma agricultura baseada na dependência por uma agricultura baseada na funcionalidade ecológica. Isso não significa abandonar a tecnologia, mas usá-la de outra forma: a serviço da vida do solo, da água, da biodiversidade, da autonomia do agricultor e da estabilidade produtiva. A transição sustentável depende de ciência, política pública, mercado responsável e, principalmente, de uma nova cultura de manejo.
Diante do cenário atual, marcado por mudanças climáticas, pressão por produtividade e degradação de recursos naturais, quais são, na sua avaliação, os caminhos mais urgentes para garantir o futuro da agricultura brasileira?
APF – Na minha avaliação, o futuro da agricultura brasileira depende de uma mudança profunda de prioridade. Não basta produzir mais; é preciso produzir melhor, com estabilidade, menor risco ambiental e maior capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
O primeiro caminho urgente é recuperar a qualidade do solo. Solo degradado não sustenta agricultura resiliente. Precisamos ampliar práticas como cobertura permanente, rotação de culturas, plantas de cobertura, redução da compactação, plantio em nível, manutenção de terraços quando necessários, manejo da matéria orgânica e estímulo à vida biológica. O solo precisa voltar a ser tratado como patrimônio produtivo e ecológico.
O segundo caminho é reorganizar a água na paisagem. A crise hídrica não se resolve apenas com reservatórios; resolve-se também com infiltração, proteção de nascentes, recuperação de áreas ciliares, conservação de estradas rurais, terraceamento, controle de enxurradas e manejo adequado das bacias hidrográficas. Cada propriedade precisa contribuir para captar, infiltrar, armazenar e liberar água de forma equilibrada.
O terceiro caminho é reduzir a dependência de insumos externos, especialmente quando usados de forma automática e indiscriminada. A agricultura precisa avançar para sistemas mais diversificados, biologicamente ativos e menos vulneráveis ao custo de fertilizantes, agrotóxicos e pacotes tecnológicos. Isso não significa rejeitar tecnologia, mas usá-la com critério ecológico.
Outro ponto essencial é fortalecer a pesquisa pública, a extensão rural e a formação técnica. O Brasil só terá agricultura de futuro se valorizar seus institutos de pesquisa, seus pesquisadores, seus técnicos e seus agricultores. A transição para sistemas sustentáveis exige conhecimento, acompanhamento, experimentação, políticas públicas e assistência técnica qualificada.
Também considero urgente valorizar a agricultura familiar, a reforma agrária, os territórios rurais e os mercados locais, porque a segurança alimentar do país depende de diversidade produtiva, acesso à terra, permanência no campo e fortalecimento das comunidades rurais.
Portanto, o futuro da agricultura brasileira passa por uma agenda clara: regenerar solos, proteger água, diversificar sistemas, reduzir dependências, fortalecer a ciência, apoiar os agricultores realizando a reforma agrária e planejar a produção dentro dos limites ecológicos da paisagem. A agricultura que terá futuro não será apenas a mais produtiva no curto prazo, mas aquela capaz de conservar sua própria base de sustentação.
O senhor mantém uma produção regular como articulista da APqC, com textos semanais que dialogam com temas atuais envolvendo a pesquisa pública, a carreira de pesquisador e as dificuldades pelas quais passam os institutos. O que significa, para o senhor, esse espaço de reflexão e intervenção pública, e de que forma essa escrita complementa sua atuação como pesquisador?
APF – Esse espaço de escrita tem, para mim, um significado muito importante. Ele permite que o pesquisador não fique restrito ao laboratório, ao campo experimental, ao relatório técnico ou à publicação científica. É um espaço de reflexão pública, onde a experiência acumulada na pesquisa pode dialogar com os problemas concretos da sociedade, da agricultura, do meio ambiente e das instituições públicas.
Como articulista da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo, procuro transformar vivências, preocupações e análises em textos que ajudem a dar visibilidade à realidade da pesquisa pública. Muitas vezes, a sociedade conhece os resultados da ciência, mas não conhece as condições em que essa ciência é produzida: a falta de reposição de quadros, a precarização de estruturas, a descontinuidade de programas, o envelhecimento das equipes e a falta de reconhecimento da carreira de pesquisador.
Para mim, escrever semanalmente é também uma forma de resistência institucional. É uma maneira de registrar, alertar, propor e defender a importância dos institutos públicos de pesquisa. Não se trata apenas de uma manifestação pessoal, mas de um compromisso com a memória, com a responsabilidade pública e com o futuro da ciência paulista e brasileira.
Essa escrita complementa minha atuação como pesquisador porque amplia o alcance do conhecimento. A pesquisa produz dados, métodos, diagnósticos e soluções. A escrita pública ajuda a interpretar esses elementos, a aproximá-los da sociedade e a mostrar que a ciência não é neutra diante do abandono institucional, da degradação ambiental ou da perda de políticas públicas estratégicas.
Eu vejo esse trabalho como uma extensão da própria atividade científica. O pesquisador também tem o papel de comunicar, provocar reflexão, defender instituições, formar opinião qualificada e contribuir para que a sociedade compreenda o valor da pesquisa pública. Em um momento de tantas dificuldades, escrever é uma forma de permanecer ativo, crítico e comprometido com a ciência, com os colegas pesquisadores e com o interesse público.
Entrevista concedida a Bruno Ribeiro em 18 de maio de 2026