
Especialistas do Cemaden publicam análise detalhada sobre probabilidades, impactos regionais e incertezas do fenômeno; agricultura e desastres naturais estão entre os focos de atenção
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) divulgou, com base em artigo técnico de pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), um panorama consistente sobre as projeções do fenômeno El Niño para o biênio 2026-2027. O texto, assinado pela diretora Regina Alvalá e pelos coordenadores-gerais Jose Marengo e Marcelo Seluchi, foi publicado no site The Conversation Brasil e tem como objetivo central distinguir evidências científicas de meras especulações.
De acordo com os especialistas, dados da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam 60% de chance de desenvolvimento do El Niño no trimestre de maio a julho de 2026, probabilidade que ultrapassa os 90% a partir da primavera (setembro). Embora o fenômeno na segunda metade de 2026 seja considerado praticamente certo, os pesquisadores alertam: prever sua intensidade com tanta antecedência ainda envolve alto grau de incerteza.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Ele integra o sistema conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que combina a componente térmica oceânica (El Niño) e a componente atmosférica (Índice de Oscilação Sul). Durante um episódio de El Niño, as temperaturas da superfície do mar ficam, no mínimo, 0,5°C acima da média por um longo período, podendo o evento se estender por mais de dois anos.
O gatilho do fenômeno está nos ventos alísios. Normalmente, esses ventos constantes sopram de leste para oeste, empurrando as águas superficiais e permitindo a subida de águas mais profundas e frias. Quando os alísios enfraquecem ou invertem a direção, as águas quentes permanecem na superfície do Pacífico equatorial, podendo atingir até 3°C acima da média — condição que configura o El Niño.
Impactos esperados no Brasil
Os efeitos do El Niño no território brasileiro são regionalmente opostos e bem documentados pela literatura climática:
- Região Sul: aumento significativo dos volumes de chuva, especialmente no inverno e na primavera, com risco de encharcamento do solo, doenças fúngicas e dificuldades no manejo agrícola.
- Amazônia e Nordeste: tendência de seca mais acentuada, com redução das chuvas e maior frequência de períodos de estiagem.
- Centro do Brasil: maior ocorrência de ondas de calor.
Os pesquisadores do Cemaden fazem uma ressalva fundamental: o El Niño não causa desastres diretamente. Ele influencia as probabilidades de eventos extremos, mas a gravidade dos desastres depende também da vulnerabilidade e exposição da população, fatores que podem ser mitigados por políticas públicas preventivas.
El Niño 2026-2027: intensidade ainda incerta
Para o ciclo compreendido entre a primavera de 2026 e o verão de 2027, os cientistas indicam, com base em fontes oficiais, que há 25% de chance de ocorrer um El Niño de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de um fenômeno de intensidade muito forte — este último caracterizado pelo aquecimento superior a 2°C acima da média na porção central do Pacífico.
Contudo, o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI) ressalta, conforme o artigo do Cemaden, que será necessário aguardar até o inverno de 2026 para obter previsões mais precisas sobre intensidade e impactos.
Alerta para a agricultura
A matéria publicada pelos especialistas também destaca a sensibilidade do setor agrícola. Nas regiões Norte, Nordeste e porção norte do Centro-Oeste e Sudeste, a redução das chuvas pode comprometer lavouras de sequeiro, aumentar veranicos e prejudicar o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho.
Já na Região Sul, o excesso de chuvas entre setembro e outubro — meses críticos para cereais de inverno — afeta a floração, o enchimento de grãos e a maturação, além de favorecer doenças fúngicas e dificultar o tráfego de máquinas. Para a safra de verão, os impactos seguem a mesma lógica regional: seca ao norte, excesso hídrico ao sul.
Prevenção e ciência
Os doutores Alvalá, Marengo e Seluchi reforçam a necessidade de atualizar estudos da década de 1990 diante da nova realidade das mudanças climáticas, além de manter o monitoramento contínuo para subsidiar ações preventivas. “Informações não sustentadas por dados científicos confiáveis, em muitas ocasiões, resultam de meras especulações”, afirmam os autores. O artigo completo pode ser lido no site The Conversation Brasil.