Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Helena Dutra: “Garantir investimento em Ciência depende da opinião pública”

Em 7 de abril, data em que se celebra o Dia do Jornalista no Brasil, o Portal dos Jornalistas dedicou sua cobertura especial de 2026 ao jornalismo especializado em saúde, ciência e bem-estar — área fundamental para a disseminação de informações que impactam diretamente a qualidade de vida da população. Em um cenário ainda marcado pela desinformação e pelo avanço de discursos negacionistas, discutir a relação entre ciência, comunicação e sociedade torna-se cada vez mais urgente.

Como parte dessa edição especial, o veículo entrevistou a pesquisadora Helena Dutra Lutgens, presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC). Nela, Helena analisa os desafios da divulgação científica no Brasil, reflete sobre o papel da imprensa na mediação entre ciência e sociedade e chama atenção para o quadro de fragilização da pesquisa pública e da carreira de pesquisador científico no Estado de São Paulo — um campo historicamente essencial para o desenvolvimento científico e tecnológico do País.

Jornalistas&CiaA repercussão recente em torno da polilaminina, pesquisada como possível terapia para lesões medulares, reacendeu o debate sobre a divulgação de resultados científicos ainda em fase experimental. O que esse episódio revela sobre a forma como ciência e saúde vêm sendo comunicadas no Brasil?

Helena Dutra Lutgens – Pesquisadores, de modo geral, cientistas, costumam dialogar apenas com seus iguais e divulgar seus dados dentro da sua esfera da ciência, daqueles que entendem a sua linguagem, daqueles que compreendem o que está sendo pesquisado ou a importância dos seus resultados, sempre em revistas científicas devidamente qualificadas. Essa é a grande cobrança sobre os cientistas: publicarem em periódicos qualificados. Isso traz notoriedade ao cientista – ter um artigo aceito por periódico com qualificação A, B ou C. Porém, isso não permite o diálogo entre a ciência e a sociedade. E a sociedade é impactada pelos resultados da ciência. Falar da polilaminina é algo óbvio: um resultado como esse vai impactar a vida de muitas pessoas, positivamente – há essa esperança. Então é natural que as pessoas se animem e se comovam com resultados apresentados pelos pesquisadores. Garantir investimento em ciência depende da opinião pública. O que não é interessante não é apresentar dados preliminares – é apresentá-los sem dizer que são preliminares. É preciso dizer: temos aqui um resultado bom, interessante, que traz esperança. Porém, precisamos de mais investimento na própria pesquisa para seguir.

J&Cia – Na sua avaliação, quais são os principais riscos quando pesquisas preliminares ganham grande exposição pública antes de validação científica mais ampla?

Helena – Não apresentar dados preliminares seguramente não traria para a pesquisadora, no caso da polilaminina, o investimento na pesquisa de que ela precisava. Ela relata a luta nos 25 anos de estudo dessa substância para poder manter esse trabalho, inclusive pagando do próprio bolso algumas necessidades que surgiram nesse caminho. O investimento em ciência, o investimento na pesquisa pública, é que deveria ser a pauta – e não a questão se houve ou não sensacionalismo por parte da pesquisadora. Houve um primeiro momento em que se fez uma grande exposição dessa pesquisadora, inclusive da sua vida pessoal, dos seus hábitos – se ela toma cerveja, se gosta de carnaval, se dança. Houve um endeusamento da pesquisadora e, em seguida, esse ídolo foi derrubado, colocando em dúvida todo o trabalho: se havia grupo controle, se não havia, se foi ético, se não foi ético. Ou seja, um grande mérito. A doutora Tatiana tem dois grandes méritos: a descoberta da polilaminina para uso terapêutico em lesões medulares, com grandes possibilidades de sucesso, e também o mérito de trazer o debate sobre ciência para o público geral.

J&CiaNesses casos, como deveria se dar o equilíbrio de responsabilidades entre pesquisadores, instituições científicas, assessorias de comunicação e jornalistas?

Helena – A questão é que as pessoas discutem e debatem aquilo que não conhecem, não buscam conhecer para poder opinar – se a cientista foi ética, se fez grupo controle ou não. Primeiro é preciso saber o que é um grupo controle, qual a importância disso, qual a necessidade desse método e, principalmente, que não existe um único método científico. Nesse sentido, o equilíbrio de responsabilidades entre pesquisadores, instituições científicas, comunicação e jornalistas está justamente nisso: na hora de divulgar dados preliminares, divulgá-los com responsabilidade, dizendo que são dados preliminares, que o estudo precisa avançar, que precisa de investimento. Sem tirar o mérito do trabalho, sem desmerecer o pesquisador e também sem endeusar um pesquisador. A grande questão aí é investir em pesquisa pública, em ciência pública. E o Brasil, especialmente o Estado de São Paulo, não tem feito isso na medida que deveria fazer.

J&CiaDe maneira mais ampla, como a senhora avalia hoje a qualidade da divulgação científica no Brasil e, em especial, no Estado de São Paulo?

Helena – Hoje, a qualidade da divulgação científica no Brasil, em especial no Estado de São Paulo, é muito restrita. Você vai procurar um assunto sobre ciência e ele está lá num cantinho meio escondido do veículo de notícias, normalmente como uma pequena nota. A ciência não tem grande espaço na mídia e nem as mazelas que os cientistas têm enfrentado aparecem. De modo que, se a sociedade não conhece as suas instituições de pesquisa, os seus cientistas e os trabalhos que eles desenvolvem – e a importância disso para sua própria qualidade de vida, seja na saúde, na agricultura, no meio ambiente, nas finanças – ela não compreende esse impacto. Cientistas estão trabalhando no sentido de trazer soluções para os problemas da sociedade, mas a própria sociedade desconhece esse trabalho, porque ele não tem espaço na mídia, a menos que seja uma notícia que traga uma novidade imensa, como foi o caso da polilaminina. Uma solução para uma questão crucial, como foi a vacina da Covid-19, ou mais recentemente a vacina da dengue, que teve alguma divulgação, mas não tanta – como se a dengue não matasse suficientemente. De modo geral, a imprensa espera um grande furo. O dia a dia do pesquisador, que está no laboratório estudando bactérias, vírus, mudanças climáticas e seus impactos, isso não é considerado assunto. Há uma barreira na imprensa sobre o que é notícia e o que não é. Da mesma forma que não se leva para a sociedade o trabalho cotidiano dos pesquisadores, também não se leva o impacto das políticas de governo que desmantelam estruturas de pesquisa, cortam orçamento, alteram carreiras e fragilizam a ciência. Isso não chega à sociedade como deveria chegar, com o impacto que deveria ter. Mostrando: essa política vai alterar a produção científica, vai alterar o serviço que é prestado à população. Esse serviço é a busca de soluções para problemas como segurança alimentar, saúde, meio ambiente, água. Os cientistas estão buscando soluções, mas não vão poder continuar da mesma forma porque o recurso foi cortado, porque a carreira foi fragilizada, porque não há reposição salarial. E, ao mesmo tempo, quando vão divulgar seus resultados, não se entende que isso seja notícia.

J&CiaA senhora acompanha as mudanças recentes na estratégia de comunicação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, incluindo a reorganização da Revista Pesquisa Fapesp e a integração com a Agência Fapesp e o boletim Pesquisa para Inovação?

Helena – O que está sendo chamado de reorganização da revista Pesquisa Fapesp é, na verdade, o desmonte de uma estrutura de uma instituição pública, de uma revista com mais de 25 anos de sucesso na divulgação científica, para “uberizar” esse trabalho. Essa questão da terceirização de um trabalho que é desenvolvido por uma fundação pública é uma linha de governo, um objetivo, um princípio: a terceirização dos serviços públicos. Isso está sendo feito com a Fapesp, como está sendo feito com os institutos públicos de pesquisa e com as universidades. É retirar da sociedade o serviço público e precarizar os resultados desse mesmo serviço.

J&CiaA APqC tem acompanhado o debate sobre a carreira de pesquisador científico no estado. Qual é hoje a situação atual do Projeto de Lei Complementar 9/2025 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, cuja votação havia sido suspensa em agosto do ano passado? Houve avanços ou novas negociações desde então?

Helena – O Projeto de Lei Complementar 09/2025, infelizmente, foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em outubro do ano passado. A votação foi suspensa em agosto, mas retomou e avançou dentro da Alesp, a despeito de toda a categoria – ou da grande maioria dos pesquisadores – ser contrária a essa mudança. Os pesquisadores mostraram ao governo, em reuniões com a Casa Civil, em debates na Alesp e em audiências públicas, que essa mudança precariza uma carreira fundamental para o desenvolvimento científico do estado. Os institutos públicos de pesquisa de São Paulo atravessam séculos – muitos remontam ao século XIX, anteriores à própria universidade em São Paulo. A estruturação da carreira veio com a Lei 125 dos anos 1970, que completou 50 anos em 2025. Houve uma mudança sem ouvir a comunidade científica, assim como ocorreu com a revista da Fapesp. São ações autocráticas, que extinguem instituições, mudam carreiras e mexem em estruturas importantes. A lei foi aprovada, mas sem regulamentação. Até o momento, não há definição de como será o novo regime de trabalho, que depende de decreto. A lei entrou em vigor em 1º de dezembro e, até agora, não há esse decreto. Também não há definição da comissão que avaliará os cientistas. Tudo isso foi feito sem participação dos pesquisadores.

J&CiaEm um ambiente de grande circulação de informação – e também de desinformação –, qual deveria ser o papel conjunto de pesquisadores, jornalistas e instituições científicas para garantir que a ciência chegue ao público com rigor e responsabilidade?

Helena – O estreitamento da relação entre pesquisadores, jornalistas e profissionais da comunicação poderia garantir uma maior integração entre esses profissionais. Os jornalistas, a partir de uma maior compreensão do trabalho das instituições científicas e dos profissionais que atuam nelas, poderiam levar ao público esses trabalhos e seus resultados. Bem como aquelas ações de governo que desestabilizam esse trabalho, que precarizam esse trabalho, que retiram da sociedade um serviço que ela usufrui no dia a dia. Quando uma pessoa senta para comer um prato de feijão ou tomar um café, ela precisa saber que aquilo é resultado de pesquisa – da melhoria do alimento, da produtividade, do acesso. Quando é vacinada e salva de uma doença, precisa saber que isso é resultado de pesquisa pública. Quando usufrui de um parque, de melhor qualidade ambiental, de unidades de conservação, precisa saber que isso é resultado do trabalho de instituições públicas. Quando recebe um alerta da Defesa Civil, precisa saber que há cientistas trabalhando com dados climáticos, mapeamento de risco. Mas isso não chega à sociedade. Um pouco por conta dos veículos de comunicação, que priorizam mensagens de alto impacto, e um pouco pelos próprios cientistas, que falam mais entre si. Há também o receio da exposição. A doutora Tatiana, por exemplo, recebeu críticas e teve sua vida exposta. Existe o risco de não divulgar por estar em fase experimental, mas é importante divulgar – explicando o método, os possíveis resultados e as limitações. As certezas vêm aos poucos. Também é importante divulgar quando uma hipótese não é comprovada – isso também é resultado científico. Muitas linhas de pesquisa foram interrompidas com a extinção de instituições como o Instituto Florestal, o Instituto de Botânica e o Instituto Geológico em São Paulo. Outras foram interrompidas com mudanças em órgãos como a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Outras estão sendo interrompidas com mudanças na carreira, aposentadorias sem reposição e ausência de concursos. A sociedade não sabe avaliar essas perdas, porque não conhece essas instituições – muitas vezes nem sabe que elas existem, como o Instituto Adolfo Lutz ou o Instituto Agronômico de Campinas. Então, quando perde, não percebe de onde vinha aquele benefício. Garantir investimento em ciência depende da opinião pública. A vontade política nasce da pressão popular. Se a sociedade não conhece suas instituições de pesquisa, não haverá pressão para defendê-las.

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