Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

A Solidão dos Cientistas

Afonso Peche Filho*

A solidão científica é um sintoma silencioso da crise contemporânea da ciência. Muitos pesquisadores percorrem diariamente laboratórios vazios, instituições fragilizadas e agendas pressionadas por métricas que desumanizam a pesquisa. A ciência, que deveria nascer da colaboração, da troca e da construção coletiva, transforma-se progressivamente em uma trajetória individualista, marcada pela competição, pela produtividade forçada e pelo isolamento emocional e profissional.

Essa solidão não decorre da personalidade do cientista, mas de um modelo institucional que o transforma em “empreendedor de si mesmo”: alguém que deve publicar incessantemente, captar recursos, orientar alunos, administrar projetos, preencher relatórios e manter presença ativa em redes acadêmicas, quase sempre sem apoio material proporcional. Cria-se um paradoxo cruel: exige-se colaboração, mas as recompensas são estruturadas como se a ciência fosse uma corrida individual. Projetos são coletivos, mas avaliações e progressões de carreira permanecem rigidamente centradas na figura isolada do pesquisador.

Outra face dessa solidão é a perda gradual de pessoas fundamentais ao funcionamento dos laboratórios: técnicos, analistas, assistentes, pesquisadores seniores, funcionários especializados e colaboradores experientes. Muitos se aposentam, outros mudam de área, alguns falecem, e quase nunca há reposição. Assim, o laboratório permanece fisicamente de pé, com seus equipamentos e bancadas, mas sem a presença humana que lhe dava vida. As máquinas continuam lá, mas faltam as mãos que as calibravam, a experiência acumulada que solucionava falhas, e as conversas que compartilhavam saberes implícitos, conhecimentos que nunca foram escritos, mas mantinham o sistema funcionando.

Em inúmeros centros de pesquisa instala-se um cenário paradoxal: há o laboratório, mas não há a equipe. Há estrutura material, mas não há a comunidade epistêmica. O pesquisador se vê sozinho, tentando ocupar múltiplos papéis simultâneos: técnico, gestor, professor, analista, escritor científico e orientador. Essa multiplicidade impossível produz um esgotamento profundo. A ciência, que deveria ser trabalho de muitos, passa a ser responsabilidade de poucos, às vezes, de apenas um.

A solidão científica revela também a fragilidade dos vínculos institucionais contemporâneos. Quando o pesquisador se torna “a equipe de um”, rompe-se a continuidade das gerações científicas. Sem técnicos de carreira, sem jovens pesquisadores com bolsas dignas, sem renovação do quadro funcional, instala-se um processo lento de erosão. Laboratórios transformam-se em acervos do passado. Universidades perdem vitalidade. A ciência, esvaziada de sua base humana, perde capacidade de se projetar no futuro.

Diante desse quadro, surge a pergunta essencial: como superar a condição solitária e reconstruir a ciência como trabalho coletivo? A resposta não reside apenas no financiamento, embora este seja fundamental, mas na recuperação da noção de comunidade científica como infraestrutura social. É preciso reconectar pessoas, restaurar vínculos profissionais, garantir mecanismos de permanência institucional e valorizar equipes multidisciplinares. Exige-se a criação de ambientes que promovam convivência, acolhimento, diálogo, aprendizagem e cooperação cotidiana.

Superar a solidão científica implica reconhecer que a vulnerabilidade dos pesquisadores não é fraqueza individual, mas expressão de um sistema que negligencia sua própria sustentação. A reconstrução começa pelo fortalecimento das relações de trabalho: entre pesquisadores, docentes, técnicos, estudantes, parceiros institucionais e comunidades envolvidas na pesquisa. A ciência avança quando existe troca real, quando saberes circulam, quando a experiência se transmite e quando há continuidade institucional.

A solidão dos cientistas, portanto, é um alerta. Ela não é inevitável, tampouco definitiva. Indica que o ecossistema científico precisa de renovação estrutural, de políticas de valorização, de equipes estáveis e de vínculos sustentáveis. O futuro da pesquisa dependerá menos de indivíduos geniais e mais da capacidade de reconstruir ambientes coletivos que permitam às pessoas permanecer, colaborar e criar.

Enquanto houver esperança de recompor equipes, fortalecer instituições e cultivar redes de cuidado profissional, a ciência continuará encontrando caminhos para florescer, mesmo em meio às ausências, às perdas e aos silêncios que hoje marcam tantos laboratórios.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas.

Compartilhe: