
Uma mobilização de servidores, estudantes e entidades sociais impediu, na última quarta-feira (17), a votação do projeto que propõe a autarquização da área da saúde da Unicamp. A proposta, que retira os hospitais da estrutura administrativa e financeira da universidade, teve sua análise suspensa duas vezes no mesmo dia após atos organizados dentro e fora dos espaços institucionais da universidade.
Mesmo diante da suspensão da votação no Conselho Universitário (Consu), o reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, declarou que o processo não está encerrado. Segundo ele, a Reitoria irá convocar uma reunião ainda esta semana para dar sequência ao plano.
O projeto prevê a transformação da área da saúde em uma autarquia, reunindo oito órgãos, entre eles o Hospital de Clínicas (HC) e o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism). A nova estrutura passaria a ser vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo para fins administrativos e financeiros, alterando profundamente o modelo de gestão atualmente integrado à universidade.
A primeira interrupção da sessão ocorreu por volta das 10h15, quando representantes do movimento estudantil e do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU) ingressaram na sala do Consu e, com palavras de ordem contrárias à proposta, ocuparam mesas e cadeiras, anunciando que permaneceriam no local ao longo do dia. Tentativas de negociação por parte da Reitoria não resultaram em acordo.
Diante do impasse, a universidade decidiu transferir a reunião extraordinária para o período da tarde, em formato remoto, a partir de uma sala da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). No entanto, o espaço também foi ocupado por manifestantes, o que levou à segunda suspensão da votação.
Greve geral dos servidores pressiona debate
A tentativa de votação ocorre em meio à greve geral dos servidores da Unicamp, iniciada na segunda-feira (15). A paralisação tem como principal motivação a oposição à proposta de mudança na gestão da saúde, apresentada, segundo os trabalhadores, sem consulta adequada à comunidade universitária.
De acordo com o STU, caso o projeto seja aprovado pelo Consu, ele ainda precisará ser encaminhado ao Governo do Estado de São Paulo e, posteriormente, passar pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
O que prevê a proposta de autarquização
Anunciado em setembro, o projeto propõe a criação de uma autarquia vinculada à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, denominada Hospital das Clínicas da Unicamp (HC-Unicamp). A mudança separa a gestão da saúde da estrutura administrativa da universidade, o que pode afetar a qualidade do atendimento e gerar insegurança quanto à manutenção dos empregos no setor.
“Os hospitais da Unicamp cumprem um papel estratégico no atendimento à população, e devem permanecer 100% públicos. Entregá-los ao governo Tarcísio de Freitas abrirá caminho para a terceirização, atendimento por convênios privados, perda de direitos e desmonte do SUS dentro da universidade”, disse o STU.
Segundo o sindicato, cerca de 30% dos trabalhadores da área da saúde aderiram à paralisação, com revezamento nas unidades hospitalares para garantir o funcionamento dos serviços essenciais, como atendimentos de urgência e emergência.
O Hospital de Clínicas informou que as atividades assistenciais seguem normais, tanto para atendimentos eletivos quanto de urgência.