
Afonso Peche Filho*
A tradição institucional, construída ao longo de décadas de produção científica, formação de quadros técnicos e contribuição efetiva ao desenvolvimento nacional, sempre foi um dos pilares de legitimidade dos institutos públicos de pesquisa no Brasil. Ela simboliza competência acumulada, memória técnica, reconhecimento social e autoridade científica. Contudo, em contextos prolongados de desinvestimento, desvalorização política e desestruturação administrativa, essa mesma tradição passa a exercer um papel ambíguo: deixa de ser apenas patrimônio e converte-se, gradualmente, em mecanismo de defesa institucional.
Diante da escassez crônica de recursos, da falta de reposição de pessoal, da precarização das carreiras e do enfraquecimento do papel estratégico da ciência nas agendas governamentais, a tradição passa a ser mobilizada como argumento central de sobrevivência. Sustenta-se a ideia de que o valor histórico da instituição, por si só, justificaria sua continuidade, mesmo quando as condições objetivas para o avanço do conhecimento já não existem. O discurso se ancora no passado: “sempre fomos referência”, “já entregamos muito ao país”, “temos um corpo técnico altamente qualificado”. Embora todas essas afirmações sejam verdadeiras, elas ocultam uma realidade desconfortável, competência acumulada não substitui condições estruturais de trabalho.
A ciência é um processo dinâmico, cumulativo e coletivo. Ela exige investimento contínuo, renovação de equipes, atualização de infraestrutura, tempo protegido para pesquisa e liberdade institucional para formular perguntas relevantes. Quando esses elementos desaparecem, o conhecimento deixa de avançar em sua plenitude. O que permanece é a capacidade de manter rotinas, reproduzir procedimentos conhecidos, preservar linhas tradicionais de atuação, mas não de expandir fronteiras, integrar novas abordagens ou responder a desafios emergentes com a profundidade necessária.
Nesse cenário, a tradição funciona como um escudo simbólico. Ela protege a instituição do reconhecimento explícito de sua fragilização, mas também impede uma autocrítica mais profunda. O passado passa a ser invocado não como base para avançar, mas como justificativa para resistir à evidência do esvaziamento. Trata-se de uma defesa compreensível do ponto de vista humano e institucional, mas perigosa do ponto de vista científico.
O impacto mais sensível desse processo recai sobre o pesquisador. Formado em um ambiente que valorizava a excelência, a investigação rigorosa e a contribuição social do conhecimento, ele se vê inserido em uma estrutura que já não oferece os meios mínimos para cumprir plenamente sua função histórica. Diante dessa contradição, emerge uma resposta psíquica e profissional semelhante à observada em contextos de crise prolongada: a criação de um mundo alternativo da realidade institucional.
Nesse mundo, o pesquisador continua se reconhecendo como parte de uma instituição forte, relevante e estratégica, mesmo quando os sinais objetivos indicam o contrário. O reconhecimento simbólico substitui o reconhecimento material; a identidade profissional passa a se sustentar mais na memória do que na prática cotidiana. Mantêm-se a linguagem da excelência, mas sem as condições que a sustentam. Essa dissociação não é fruto de alienação individual, mas de um mecanismo de autoproteção diante da impossibilidade de transformar a realidade concreta.
O problema é que essa adaptação tem custos coletivos elevados. Ao naturalizar a precariedade em nome da tradição, perde-se a capacidade de tensionar o sistema político, de exigir recomposição estrutural e de denunciar o desmonte como projeto, e não como acidente. A tradição, que deveria ser alicerce para o futuro, transforma-se em âncora que impede o movimento. A instituição sobrevive formalmente, mas sua função estratégica é progressivamente esvaziada.
É preciso afirmar, com clareza, que não há desenvolvimento científico baseado apenas em legado. O conhecimento que transformou o país no passado foi produzido em contextos de investimento, planejamento e reconhecimento político da ciência como bem público. Reproduzir os resultados daquele período sem condições equivalentes é impossível. O corpo técnico pode ser altamente capacitado, mas sem renovação, sem massa crítica suficiente e sem estrutura, sua contribuição torna-se fragmentada, defensiva e limitada.
Reconhecer esse limite não significa negar a importância da tradição, mas resgatá-la em seu sentido verdadeiro: como compromisso histórico com o avanço do conhecimento e com o interesse público. A tradição não deve servir para justificar a estagnação, mas para denunciar o abismo entre o que a instituição foi capaz de produzir e o que hoje lhe é permitido produzir.
Superar a lógica da “tradição como defesa” exige coragem institucional e maturidade política. Exige romper o silêncio confortável, abandonar o mundo alternativo da normalidade aparente e recolocar a ciência no centro do projeto de desenvolvimento. Caso contrário, corre-se o risco de preservar apenas a casca simbólica das instituições, enquanto seu conteúdo científico se dissolve lentamente invisível aos discursos oficiais, mas evidente para quem vive o cotidiano da pesquisa.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.