Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Quando o Dia Chegar

Afonso Peche Filho*

Há frases que parecem simples, mas carregam uma advertência profunda. “Quando o dia chegar” não é apenas uma expressão de espera. É uma pergunta lançada ao futuro: em que condições estaremos quando a realidade exigir de nós respostas rápidas, inteligentes, técnicas e socialmente responsáveis? Em tempos normais, pode parecer exagero falar em crise. Mas a história demonstra que as crises não costumam pedir licença. Elas amadurecem silenciosamente, acumulam sinais, revelam fragilidades negligenciadas e, quando se tornam evidentes, exigem respostas que já deveriam ter sido preparadas.

No campo da ciência, da pesquisa e da inovação pública, essa frase assume um sentido ainda mais grave. O desmantelamento progressivo dos institutos de pesquisa, das universidades, dos laboratórios, das equipes técnicas e das estruturas públicas de conhecimento representa uma forma silenciosa de desproteção coletiva. Não se trata apenas de reduzir prédios, cargos, equipamentos ou orçamentos. Trata-se de enfraquecer a capacidade de uma sociedade compreender seus problemas e propor soluções no tempo necessário.

Quando se desmonta uma instituição científica, não se perde apenas uma estrutura administrativa. Perdem-se memórias técnicas, séries históricas de dados, coleções científicas, campos experimentais, bancos genéticos, metodologias acumuladas, redes de cooperação, formação de novos pesquisadores e capacidade de interpretar a realidade com profundidade. Uma instituição de pesquisa não se reconstrói de um dia para o outro. Ela é resultado de décadas de investimento, continuidade, erro, aprendizado, experimentação e compromisso público. Destruí-la pode ser rápido; reconstruí-la é lento.

O paradoxo é evidente: justamente quando os desafios ambientais, agrícolas, climáticos, sanitários, urbanos e sociais se tornam mais complexos, muitas instituições responsáveis por estudá-los são fragilizadas. O mundo demanda mais ciência, mas frequentemente se oferece menos estrutura. A agricultura enfrenta extremos climáticos, degradação do solo, escassez hídrica, novas pragas, insegurança alimentar e necessidade de transição ecológica. As cidades enfrentam enchentes, ilhas de calor, impermeabilização, colapso de infraestrutura e desigualdade territorial. Os territórios rurais e urbanos exigem planejamento, monitoramento, inovação e assistência técnica qualificada. No entanto, em vez de fortalecer a inteligência pública, muitas vezes se normaliza sua erosão.

Quando o dia chegar, talvez a pergunta não seja apenas “qual é a solução?”, mas “quem ainda estará em condições de construí-la?”. Haverá equipes suficientes? Haverá laboratórios funcionando? Haverá pesquisadores formados? Haverá dados confiáveis? Haverá memória institucional? Haverá capacidade de campo, diagnóstico, análise e recomendação? Ou estaremos tentando responder à urgência com instituições esvaziadas, equipamentos obsoletos, carreiras desmotivadas e estruturas incapazes de operar na velocidade que a crise exige?

As respostas em tempos de crise são urgentes, mas a capacidade de respondê-las não nasce na urgência. Ela precisa ser cultivada antes. Pesquisa exige tempo, continuidade e ambiente institucional. A pressa da crise não combina com a lentidão da reconstrução. Quando uma seca extrema compromete sistemas produtivos, quando uma doença ameaça lavouras, quando uma enchente destrói cidades, quando a água escasseia ou quando o solo perde sua capacidade de sustentar a produção, não basta convocar a ciência de última hora. É preciso que ela já esteja viva, estruturada, financiada, respeitada e conectada à sociedade.

Por isso, “quando o dia chegar” é também uma frase de responsabilidade política e ética. Ela nos obriga a olhar para o presente e reconhecer que o futuro está sendo decidido agora. Cada corte, cada abandono, cada laboratório fechado, cada concurso não realizado, cada campo experimental perdido, cada pesquisador desestimulado e cada instituição enfraquecida compõe uma dívida que será cobrada no momento da necessidade.

A crise que naturalmente chegará poderá ser climática, alimentar, hídrica, sanitária, energética ou social. Talvez seja uma combinação de todas elas. Mas sua gravidade não dependerá apenas do fenômeno em si. Dependerá também da nossa capacidade institucional de compreendê-lo e enfrentá-lo. E essa capacidade não pode ser improvisada.

Quando esse dia chegar, como vai nos encontrar? Essa é a pergunta central. Poderá nos encontrar preparados, com instituições fortes, ciência ativa, pesquisa aplicada, extensão qualificada e inteligência pública orientada para o bem comum. Ou poderá nos encontrar perplexos, tentando recuperar, às pressas, aquilo que foi desmontado lentamente. A diferença entre esses dois futuros começa agora, na forma como tratamos a ciência, os institutos de pesquisa e a responsabilidade coletiva de preparar caminhos antes que a crise se imponha.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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