Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Obra do Hospital Inteligente exigirá investimento extra de R$ 170 milhões para não comprometer pesquisas do Instituto Adolfo Lutz

Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo diz que falta um plano de ação e informações transparentes sobre de onde virá o dinheiro e qual o cronograma de investimento

Campinas, 30 de março de 2026 – A construção do Hospital Inteligente dentro do Complexo de Saúde, Educação em Saúde e Pesquisa em Saúde – Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) precisará de um investimento extra estimado em R$ 170 milhões para garantir o funcionamento dos laboratórios do Instituto Adolfo Lutz (IAL). A informação divulgada pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) considera a transferência de estruturas de pesquisa de quatro prédios para um novo endereço, também dentro do Complexo. Reconhecido internacionalmente, o (IAL) exerce papel central na resposta às emergências em saúde e é credenciado pelo Ministério da Saúde como Laboratório Central em Saúde Pública (Lacen) e Macroregional.

“A criação do Hospital Inteligente é um salto de qualidade para a saúde pública, mas isso não pode ser feito sem um planejamento por parte do governo de São Paulo sobre como ficarão as pesquisas realizadas no Instituto Adolfo Lutz, sob o risco de comprometermos o funcionamento de uma das mais importantes instituições de pesquisa em saúde do país. Não me parece lógico jogar milhões de investimento público nos últimos anos na lata do lixo sendo que há local alternativo para receber este importante hospital”, afirma Dra. Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.

O valor estimado para a mudança não inclui os investimentos públicos feitos nestes laboratórios nos últimos anos. Um dos três prédios que seriam demolidos abriga o setor de virologia do IAL e conta com quatro andares. Nas últimas duas décadas, mais de R$ 100 milhões foram investidos neste espaço para assegurar o funcionamento e a qualidade das pesquisas. A associação reforça que a comunidade científica não foi consultada sobre a demolição dos prédios do IAL.

“O patrimônio científico de São Paulo é protegido pelo artigo 272 da Constituição Estadual. Nenhuma intervenção em áreas ou prédios de pesquisa pode ser feita sem a consulta prévia da comunidade científica e de aprovação por parte dos deputados estaduais”, explica Helena Goldman, advogada da APqC.

Para a associação, há alternativas de espaço dentro do próprio Complexo Hospitalar das Clínicas para receber o Hospital Inteligente, como o campo de futebol e a piscina da Faculdade de Medicina da USP. Mesmo com esta opção, o governo de São Paulo preferiu destruir prédios que abrigam estruturas de pesquisa de alta complexidade, incluindo áreas de biossegurança, com certificações específicas.

“Nós apuramos que há um mapeamento sendo desenhado por arquitetos e que prevê readequações completas nas redes elétrica e hidráulica do prédio que vai receber os laboratórios, mas até agora nada foi oficialmente apresentado, o que preocupa a comunidade científica”, reforça Lutgens. “A falta de um plano de ação claro e de transparência sobre como será conduzido esse processo pode impactar diretamente as inúmeras pesquisas realizadas nesses prédios que estão sob risco de demolição. Estamos falando de atividades essenciais, que não podem sofrer interrupções ou perdas de capacidade”.

Com mais de 130 anos de história, o Instituto Adolfo Lutz conta atualmente com 774 servidores distribuídos entre a capital e 12 unidades regionais no estado. Desse total, 433 profissionais atuam no Laboratório Central, instalado em um prédio tombado pelo patrimônio histórico e que também deverá ser desocupado. No mesmo edifício, outros sete andares são ocupados pela Coordenadoria de Controle de Doenças, CCD.

Laboratórios

O IAL instituição atua como referência em diversas frentes, incluindo o monitoramento de contaminantes em alimentos, controle de qualidade de micotoxinas e resíduos de pesticidas, além de coordenar programas nacionais e colaborar com organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde, em áreas como arbovírus, influenza e produção de imunobiológicos. É referência nacional para Coqueluche e Meningites bacterianas e foi o IAL, por exemplo, que criou a metodologia para mapeamento de variantes da covid-19.

Nos edifícios do instituto estão instalados laboratórios de referência em virologia, parasitologia, imunologia, bromatologia e análises químicas, responsáveis por diagnósticos e pesquisas relacionadas a doenças como Aids, febre amarela e leishmaniose. O Instituto também mantém dentro do Complexo das Clínicas o único laboratório para bioensaio com camundongo para pesquisas sobre botulismo.

“A falta de planejamento, em situações como essa, já resultou em perdas de acervos científicos, interrupção de projetos e piora das condições de trabalho em outros institutos. Esse histórico evidencia a necessidade de um plano detalhado, com definição de recursos, gestão e prazos. Por se tratar de pesquisa pública, a participação da comunidade científica no processo é fundamental”, afirma Helena Dutra Lutgens.


Estruturas ameaçadas

Os prédios identificados para ceder espaço ao hospital são:
(1) prédio central abriga a parte administrativa, centro de referências, almoxarifado e o museu – não será demolido, mas será usado pelo novo hospital;
(2) prédio da Bromatologia e Química com 6 andares;
(3) prédio de Pesticidas em anexo com 2 andares;
(4) Virologia com 6 andares e 2 blocos, 3 biotérios de experimentação e criação, abrigo de resíduos químicos e biológicos, geradores e abrigos de gases;
(5) prédio que deve abrigar toda esta estrutura, conhecido como Prédio da Biologia Médica, já abriga os Centros de Patologia, Parasitologia e Micologia, Bacteriologia (que possui um Laboratório NB3 – nível máximo de segurança), Imunologia (Laboratório NB2) e Coleções de Microrganismos e o Laboratório Estratégico do IAL;
(6) Biotério.

Marcelo Nadalon
11.96632-6689

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