Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

O Voo Cego da Pesquisa Paulista

Afonso Peche Filho*

A pesquisa científica é uma das formas mais importantes de uma sociedade compreender a realidade, interpretar suas transformações e antecipar necessidades futuras. Quando o poder público enfraquece essa capacidade, corre o risco de comprometer não apenas instituições, mas a própria inteligência necessária à condução do Estado.

A metáfora do voo cego permite refletir sobre essa condição: o movimento continua, as decisões se sucedem, as estruturas são modificadas, mas nem sempre existem instrumentos suficientes para compreender a complexidade da realidade sobre a qual se intervém.

No Estado de São Paulo, essa reflexão encontra particular significado diante das transformações promovidas na organização da pesquisa pública. A questão fundamental não está na necessidade de modernizar instituições, mas na capacidade de distinguir modernização administrativa de fortalecimento científico. A Lei Complementar nº 1.435, de 2025, reestruturou a carreira de pesquisador científico. Em fevereiro de 2026, o Decreto nº 70.410 determinou a extinção de diferentes cargos públicos, incluindo funções de apoio à pesquisa, abrangendo postos vagos e outros que serão extintos nas respectivas vacâncias. Essas medidas suscitam uma questão essencial: como reorganizar a estrutura científica sem comprometer sua capacidade de produzir conhecimento no futuro?

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo tem manifestado preocupação com os efeitos dessas transformações sobre a continuidade institucional e a capacidade de resposta dos institutos públicos. O governo, por sua vez, apresentou a reestruturação da carreira e a nomeação de novos pesquisadores como iniciativas de fortalecimento da pesquisa paulista. Entre essas interpretações permanece uma exigência fundamental: avaliar as consequências das mudanças por meio de diagnósticos científicos, indicadores institucionais e conhecimento das necessidades presentes e futuras da sociedade.

Uma política pública pode apresentar coerência administrativa e, simultaneamente, produzir efeitos científicos insuficientemente avaliados. A redução de estruturas de apoio, por exemplo, pode comprometer atividades experimentais, conservação de coleções, manutenção de laboratórios e continuidade de séries históricas. Seus efeitos não são necessariamente imediatos, mas podem manifestar-se quando o Estado necessitar de conhecimentos que deixou de produzir.

São Paulo possui responsabilidades que ultrapassam os limites de uma gestão administrativa. A agricultura, a saúde pública, a segurança alimentar, os recursos hídricos, a biodiversidade e as transformações climáticas exigem instituições capazes de investigar problemas que ainda não se manifestaram plenamente.

A pesquisa pública não existe apenas para responder às demandas conhecidas. Sua função também consiste em reconhecer ameaças emergentes, interpretar processos complexos e construir conhecimentos necessários às próximas gerações.

É nesse horizonte que a metáfora do voo cego adquire maior profundidade. Uma administração pode continuar avançando, reorganizando estruturas e anunciando resultados, sem dispor de avaliação suficientemente abrangente sobre os efeitos de suas decisões na capacidade científica acumulada.

O risco não reside exclusivamente na possibilidade de escolher caminhos inadequados, mas em perder progressivamente os instrumentos necessários para reconhecer e corrigir a própria trajetória. A memória científica, a experiência dos pesquisadores, a continuidade dos experimentos e a autonomia da investigação constituem instrumentos de orientação do Estado. Sua preservação não significa resistência à modernização, mas reconhecimento de que a capacidade científica não pode ser reconstruída instantaneamente por decisões administrativas.

Modernizar exige conhecer aquilo que se pretende transformar. Planejar exige compreender aquilo que se deseja preservar. Governar exige antecipar necessidades que ainda não se converteram em urgências.

O futuro da pesquisa paulista depende, portanto, de uma reflexão que transcenda a reorganização de cargos e estruturas: como assegurar que cada transformação institucional amplie, em vez de restringir, a capacidade pública de conhecer?

O voo cego começa quando o movimento das decisões deixa de ser acompanhado pela capacidade de compreender suas consequências. E um Estado que necessita da ciência para orientar seu futuro não pode prescindir dos instrumentos que lhe permitem reconhecer o próprio caminho.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

Compartilhe: