Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

O Silêncio Institucional

Afonso Peche Filho*

O silêncio raramente é neutro. Em determinadas circunstâncias, ele não representa prudência, maturidade ou estratégia; representa retração, medo ou conformismo. Quando se observa o cenário contemporâneo de progressivo enfraquecimento das estruturas públicas de ciência e tecnologia, emerge uma inquietação que transcende a análise orçamentária: o silêncio institucional dos próprios institutos de pesquisa diante da política de desmantelamento do Estado.

Não se trata apenas da redução de recursos, da precarização da infraestrutura ou da diminuição de quadros técnicos. Trata-se de algo mais profundo: a naturalização da perda de protagonismo científico como se fosse um processo inevitável, quase orgânico, fruto de “ajustes” administrativos ou contingências fiscais. O que está em jogo é a erosão silenciosa da função pública da ciência.

Institutos de pesquisa não são meros executores de projetos. São estruturas estratégicas de soberania cognitiva. Constituem a memória técnica de um país, acumulam séries históricas de dados, desenvolvem metodologias adaptadas às condições locais, formam recursos humanos e oferecem suporte científico às políticas públicas. Quando essas instituições se retraem, não é apenas a pesquisa que perde espaço, é o próprio Estado que se enfraquece em sua capacidade de planejar o futuro.

O silêncio institucional manifesta-se de diferentes formas. Surge na ausência de posicionamentos públicos claros sobre cortes estruturais. Aparece na substituição de agendas científicas de longo prazo por contratos pontuais e fragmentados. Consolida-se quando a busca por sobrevivência financeira passa a orientar prioridades técnicas. Aos poucos, a missão pública é substituída por uma lógica de prestação de serviços desconectada do projeto nacional de desenvolvimento.

Esse silêncio não é necessariamente fruto de omissão individual. Muitas vezes é resultado de um ambiente institucional marcado por insegurança funcional, pressão política, desvalorização simbólica da ciência e incerteza quanto ao futuro. A autocensura torna-se mecanismo de autopreservação. Pesquisadores passam a evitar manifestações críticas. Direções institucionais priorizam estabilidade administrativa em detrimento de posicionamentos públicos. O discurso técnico torna-se cada vez mais neutro, e a neutralidade, em contextos de desmonte, pode equivaler à conivência involuntária.

O desmantelamento do Estado na área científica raramente ocorre de forma abrupta. Ele se estabelece por meio de pequenas erosões sucessivas: redução de concursos, aposentadorias não repostas, laboratórios que deixam de ser atualizados, programas estratégicos interrompidos, convênios internacionais não renovados, cortes de bolsas, descontinuidade de políticas estruturantes. O processo é incremental. Justamente por isso, sua gravidade tende a ser subestimada.

A ausência de reação coletiva institucional reforça a percepção social de que tais medidas são técnicas e inevitáveis. A narrativa do “ajuste fiscal” substitui o debate sobre prioridades nacionais. Ciência passa a ser tratada como custo, não como investimento estruturante. O silêncio, nesse contexto, atua como legitimador indireto do processo de enfraquecimento.

Há ainda um aspecto simbólico relevante: quando institutos públicos deixam de se posicionar, perdem progressivamente sua autoridade moral perante a sociedade. A ciência pública sempre ocupou um lugar de credibilidade justamente por seu compromisso com o interesse coletivo. Ao silenciar diante da própria fragilização, enfraquece também a confiança social em sua capacidade de defesa do bem comum.

É preciso reconhecer que o silêncio institucional tem raízes complexas. Instituições públicas operam sob estruturas hierárquicas, dependem de orçamentos governamentais e estão sujeitas a normativas administrativas rígidas. A manifestação pública pode ser interpretada como ato político-partidário, o que gera receio e insegurança jurídica. Contudo, existe diferença entre partidarização e defesa técnica fundamentada de políticas científicas estruturantes.

A defesa da ciência pública não é ato ideológico; é ato institucional de responsabilidade histórica. Institutos de pesquisa foram criados justamente para garantir continuidade técnica além dos ciclos políticos. Quando deixam de exercer essa função crítica e propositiva, abdicam de sua vocação original.

Outro efeito preocupante do silêncio é a fragmentação interna. Pesquisadores passam a atuar de forma isolada, concentrando-se em projetos individuais ou parcerias externas, enquanto a dimensão estratégica institucional se dilui. A cooperação interna enfraquece. O senso de missão coletiva perde densidade. A instituição transforma-se em somatório de iniciativas dispersas, não em organismo coeso orientado por um projeto científico nacional.

Essa fragmentação favorece a captura de agendas. Sem posicionamento institucional claro, prioridades passam a ser definidas por demandas externas de curto prazo. A pesquisa orientada por interesse público cede espaço à pesquisa orientada por financiamento disponível. A lógica estratégica é substituída pela lógica de sobrevivência.

O silêncio institucional também repercute na formação das novas gerações. Jovens pesquisadores e estudantes observam a ausência de posicionamento e internalizam a ideia de que a defesa da ciência pública não faz parte de suas atribuições profissionais. Forma-se uma cultura técnica despolitizada no sentido estrutural, não partidário, mas desprovida de consciência sobre o papel da ciência na organização social.

No entanto, romper o silêncio não significa adotar discurso inflamado ou confrontacional. Significa assumir postura técnica fundamentada, transparente e responsável. Significa produzir relatórios públicos demonstrando impactos de cortes estruturais. Significa dialogar com a sociedade sobre a importância da pesquisa para segurança alimentar, saúde pública, gestão ambiental, inovação tecnológica e planejamento territorial. Significa transformar dados técnicos em narrativa compreensível.

A legitimidade da ciência pública depende de sua capacidade de comunicar relevância social. Quando institutos se fecham em linguagem hermética e evitam o debate público, contribuem involuntariamente para sua marginalização. O silêncio comunicacional reforça o distanciamento entre ciência e sociedade.

O desmantelamento do Estado na área científica não é apenas problema corporativo; é problema de soberania. Países que abandonam sua infraestrutura científica tornam-se dependentes de conhecimento externo, tecnologias importadas e agendas internacionais. Perdem autonomia decisória. Reduzem sua capacidade de responder a crises ambientais, sanitárias e produtivas com soluções adaptadas à realidade local.

Romper o silêncio institucional, portanto, é ato de responsabilidade estratégica. Não se trata de confronto ideológico, mas de afirmação técnica da importância da continuidade científica. Instituições públicas de pesquisa precisam reafirmar, de forma serena e fundamentada, que ciência é infraestrutura invisível do desenvolvimento.

O silêncio pode parecer confortável no curto prazo, mas seus efeitos são cumulativos. A erosão institucional raramente produz colapso imediato; produz declínio gradual. Quando os impactos se tornam visíveis, muitas vezes já não há massa crítica suficiente para reconstrução rápida.

A defesa da ciência pública exige coragem institucional. Coragem para reconhecer fragilidades, para dialogar com a sociedade e para sustentar tecnicamente a importância de investimentos estruturantes. Exige liderança capaz de articular pesquisadores, técnicos, gestores e cidadãos em torno de um projeto científico que transcenda ciclos políticos.

O silêncio institucional, quando prolongado, transforma-se em paisagem. E a paisagem naturalizada raramente é questionada. Por isso, o desafio central não é apenas recuperar orçamentos ou programas; é recuperar voz. Uma voz técnica, fundamentada, ética e comprometida com o interesse público.

Em tempos de incerteza, talvez a maior responsabilidade dos institutos de pesquisa seja lembrar à sociedade que ciência não é luxo, nem ornamento acadêmico. É estrutura básica de sustentação civilizatória. Silenciar diante de seu enfraquecimento equivale a aceitar que essa estrutura se torne dispensável.

E nenhuma sociedade que trate sua base científica como dispensável pode esperar estabilidade, soberania ou desenvolvimento duradouro.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

Compartilhe: