Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

O Medo na Ciência

Afonso Peche Filho*

O medo na ciência não é apenas o temor individual de um pesquisador diante da incerteza de seus experimentos, da escassez de recursos ou da possibilidade de fracasso. Esse medo é mais profundo, mais silencioso e, muitas vezes, mais difícil de nomear. Trata-se do medo provocado pela percepção de que decisões políticas equivocadas podem comprometer anos de trabalho, desestruturar instituições, enfraquecer carreiras, interromper pesquisas estratégicas e reduzir a ciência a uma atividade secundária, quando ela deveria ser compreendida como fundamento da soberania, da cidadania e do desenvolvimento nacional.

Na sociedade, esse medo aparece de muitas formas. Ele se manifesta na insegurança da população diante de políticas públicas frágeis, na desconfiança em relação a representantes que parecem atuar mais como lobistas de interesses privados do que como defensores do bem comum, e na sensação de que direitos básicos podem ser tratados como concessões ocasionais. A luta por educação, saúde, moradia, trabalho e cidadania plena revela que o medo coletivo não é passividade: é uma forma de alerta. Quando a população se manifesta, ela expõe a inquietação de quem percebe que decisões erradas podem produzir consequências duradouras.

Entre os cientistas, esse medo assume uma tonalidade particular. Ele não costuma aparecer em discursos inflamados, mas no silêncio dos laboratórios, nos corredores das instituições, nas reuniões técnicas, nos projetos engavetados e nas perguntas que ficam suspensas: haverá continuidade? haverá financiamento? haverá respeito ao conhecimento acumulado? haverá reconhecimento da carreira científica? haverá país para a ciência que estamos tentando construir?

O cientista carrega um medo silencioso porque sabe que a ciência depende de tempo, continuidade, liberdade intelectual, infraestrutura e confiança institucional. Uma pesquisa interrompida não é apenas uma planilha abandonada ou um equipamento parado. É uma cadeia de formação rompida, uma geração de estudantes desmotivada, uma solução pública adiada, uma tecnologia que deixa de nascer, uma pergunta estratégica que permanece sem resposta. O dano causado por uma decisão política desastrosa raramente aparece de imediato; muitas vezes, ele se revela anos depois, quando o país percebe que perdeu capacidade, autonomia e inteligência coletiva.

Esse medo se intensifica quando a política passa a tratar a ciência como gasto, obstáculo ou ornamento retórico. Há algo profundamente destrutivo quando setores do poder utilizam a linguagem do desenvolvimento enquanto patrocinam, na prática, o enfraquecimento das instituições científicas. O pior da política brasileira talvez não seja apenas a ignorância sobre o valor da ciência, mas a combinação entre oportunismo, desprezo pelo conhecimento e captura das decisões públicas por interesses estreitos. Quando isso ocorre, o cientista não teme apenas por si mesmo; teme pelo futuro do país.

A ciência é uma construção paciente. Ela exige rigor, dúvida, método, cooperação e memória institucional. Não se improvisa uma comunidade científica depois que ela foi desmobilizada. Não se recompõe rapidamente uma carreira desvalorizada. Não se substitui, com discursos, a experiência acumulada de pesquisadores, técnicos, laboratórios, universidades e institutos públicos. Por isso, o medo na ciência é também uma forma de lucidez. Ele nasce da consciência de que destruir é rápido, mas reconstruir é lento.

Ainda assim, esse medo não deve se converter em resignação. Ele precisa se transformar em linguagem pública, em defesa institucional, em presença social e em compromisso democrático. A ciência não pertence apenas aos cientistas; pertence à população que precisa de alimentos seguros, água limpa, saúde, energia, educação, conservação ambiental, tecnologia e políticas públicas qualificadas. Defender a ciência é defender a possibilidade de um país menos vulnerável às improvisações, aos interesses ocultos e às decisões tomadas contra o futuro.

O medo na ciência, portanto, é o peso íntimo de quem compreende a gravidade do momento. Mas é também um chamado. Um chamado para que os cientistas não permaneçam isolados em seu silêncio, para que a sociedade reconheça a ciência como patrimônio coletivo e para que a política seja cobrada em sua função mais nobre: representar o povo, proteger o bem comum e sustentar as condições de um futuro digno.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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