
Afonso Peche Filho*
O desmantelamento de institutos de pesquisa raramente ocorre de forma abrupta ou declarada. Ele se instala de modo silencioso, cumulativo e estrutural, por meio da desvalorização simbólica, da precarização das condições de trabalho, da ausência de projetos institucionais de longo prazo e da substituição do pensamento crítico por mecanismos automáticos de validação científica. Nesse processo, o maior prejuízo não é apenas material ou orçamentário, mas humano: perde-se inteligência acumulada, memória científica e capacidade de formular perguntas relevantes para a sociedade.
Os institutos de pesquisa historicamente foram concebidos como espaços de elaboração crítica, onde a ciência não se limita à comprovação de hipóteses, mas se estrutura como um exercício contínuo de observação, interpretação, dúvida e reconstrução do conhecimento. Quando essas instituições passam a operar exclusivamente sob métricas externas de desempenho, número de artigos, fator de impacto, adesão a protocolos padronizados, ocorre uma inversão profunda de valores: o meio passa a valer mais que o fim, e o método se sobrepõe à inteligência que o concebe.
Nesse cenário, talentos institucionais tornam-se progressivamente invisíveis. Pesquisadores experientes, com profundo conhecimento empírico, histórico e territorial, deixam de ser reconhecidos porque seu trabalho não se encaixa perfeitamente nos formatos padronizados de avaliação. O saber que emerge da observação prolongada, da leitura sensível dos fenômenos e da construção teórica própria perde espaço para a ciência de checklist, onde cumprir protocolos vale mais do que compreender processos.
A valorização excessiva da chamada “pesquisa de comprovação”, aquela que apenas confirma modelos pré-estabelecidos, empobrece o ambiente científico. Protocolos são ferramentas fundamentais, mas quando se tornam finalidades em si mesmos, passam a atuar como filtros de exclusão intelectual. O pesquisador deixa de ser um sujeito pensante e passa a ser um operador de procedimentos. A criatividade científica, que nasce da tensão entre teoria, realidade e imaginação, é gradualmente substituída por uma lógica burocrática de produção de evidências.
O efeito institucional desse processo é devastador. Jovens pesquisadores são treinados para obedecer modelos, não para questioná-los. Pesquisadores seniores, quando não se adaptam a essa lógica, são marginalizados ou silenciados. Cria-se uma cultura de autopreservação, na qual pensar diferente passa a ser um risco profissional. O instituto continua existindo formalmente, mas sua função histórica, produzir conhecimento relevante, contextualizado e transformador, se esvazia.
Há ainda um impacto ético profundo. Quando o reconhecimento científico depende exclusivamente da adesão a protocolos automáticos, a ciência se afasta de sua responsabilidade social. Problemas complexos, interdisciplinares e territorializados, como crises ambientais, agrícolas, sanitárias ou sociais, exigem interpretação crítica, integração de saberes e coragem intelectual. Protocolos não pensam; pessoas pensam. Substituir uma coisa pela outra é um erro estratégico que compromete a capacidade dos institutos de responderem aos desafios reais do seu tempo.
O desperdício de talentos institucionais também se manifesta na perda de sentido do trabalho científico. Muitos pesquisadores permanecem nos institutos não por reconhecimento ou estímulo, mas por compromisso ético com o conhecimento e com a sociedade. Quando esse compromisso não encontra respaldo institucional, instala-se um desgaste silencioso: a ciência passa a ser feita “apesar da instituição”, e não mais “a partir dela”. Esse é um sinal claro de colapso estrutural, ainda que mascarado por indicadores formais de produtividade.
Resgatar o papel dos institutos de pesquisa exige mais do que recompor orçamentos. Exige reconstruir uma cultura institucional que valorize o pensamento crítico, a diversidade de trajetórias científicas, o saber acumulado e a liberdade intelectual responsável. Protocolos devem servir à inteligência, e não substituí-la. A pesquisa de comprovação é necessária, mas não pode ocupar o lugar da pesquisa de compreensão.
Em última instância, o futuro da ciência institucional depende da capacidade de reconhecer que talento não se mede apenas por métricas, e que o conhecimento mais valioso muitas vezes nasce onde ainda não existem formulários, índices ou modelos prontos. Instituições que não compreendem isso não apenas desperdiçam seus talentos, elas abdicam do seu papel histórico e social.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC