Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Mortes por febre maculosa avançam enquanto pesquisa sobre a doença está paralisada no estado de São Paulo desde 2020

Estado confirmou 18 mortes em 2026; APqC alerta que extinção da Sucen desestruturou pesquisas e deixou único laboratório especializado sem condições de funcionamento pleno

Campinas, 28 de julho, de 2026 – O Estado de São Paulo confirmou, até agora, 18 mortes por febre maculosa em 2026, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde (SES), com 19 casos confirmados. O número revela uma letalidade superior a 90%. No ano passado, 44 pessoas morreram no Estado em decorrência da doença, com 61 casos confirmados.

O avanço da febre maculosa ocorre justamente em um momento em que a principal estrutura de pesquisa científica voltada ao estudo sobre o tema permanece desarticulada desde a extinção da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), em 2020. Entre as vítimas confirmadas até agora estão três crianças, sendo duas moradoras de Araras e uma do município de Leme.

“É gravíssimo que estejamos assistindo ao crescimento da febre maculosa, com vítimas cada vez mais jovens, incluindo três crianças, enquanto a estrutura científica responsável por produzir conhecimento sobre a doença permanece desmantelada. A prevenção depende de pesquisa permanente, monitoramento dos vetores e integração entre ciência e vigilância epidemiológica”, afirma Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.

Em um dos casos confirmados, em São Bernardo do Campo, a vigilância epidemiológica do município confirmou ter encontrado carrapato contaminado pela bactéria transmissora da doença nos cachorros da família da vítima. Não há dados científicos específicos, mas uma das suspeitas é de que os cães tenham se contaminado em uma área vizinha, com remanescentes de mata atlântica.

“O avanço das cidades sobre ambientes naturais amplia o risco de doenças como a febre amarela contaminar os humanos. Diante disso, é essencial investir em pesquisa científica para monitorar animais reservatórios e vetores biológicos como os carrapatos, para que a política pública de vigilância em saúde seja mais assertiva”, sinaliza Lutgens.

O único laboratório do estado que desenvolvia pesquisa sobre febre maculosa, em Mogi Guaçu, interrompeu a linha de estudos sobre a doença em 2020, após a extinção da Sucen. As baias que recebiam as capivaras para estudo estão desativadas.

“É inaceitável que, enquanto famílias perdem seus filhos para uma doença grave e conhecida há décadas, o Estado mantenha paralisada justamente a estrutura pública responsável por pesquisá-la. Não estamos falando de um problema imprevisível, mas da decisão de desmontar uma capacidade científica construída ao longo de muitos anos”, diz Lutgens.

Com a desarticulação da Sucen, a unidade perdeu as condições administrativas necessárias para seu funcionamento regular. O laboratório ficou sem o Cadastro de Instituições de Uso Científico de Animais (CIUCA), junto ao Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), tornando irregulares as atividades envolvendo experimentação animal. Além disso, segundo a APqC, o laboratório foi autuado por falta de registro junto ao Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV). A mesma unidade também desenvolve estudos sobre outros agravos de saúde, como doença de Chagas e do risco de acidentes por escorpiões.

Estrutura científica permanece sem solução

A Sucen foi extinta em 2020 e sua estrutura efetivamente desarticulada em 2022. Mais de 800 servidores foram redistribuídos entre diferentes órgãos. Os pesquisadores científicos foram realocados no Instituto Pasteur, mas os laboratórios nunca foram formalmente incorporados à estrutura administrativa do Instituto, criando um vazio jurídico que dificulta contratações, manutenção de equipamentos, aquisição de insumos e continuidade das pesquisas.

Desde então, a APqC vem alertando que doenças como dengue, febre maculosa, febre amarela, doença de Chagas, leishmaniose e outras endemias deixaram de contar com uma estrutura científica organizada para produzir conhecimento e apoiar as políticas públicas de vigilância epidemiológica. A entidade chegou a apresentar ao Governo do Estado uma proposta de reestruturação do Instituto Pasteur para absorver toda a estrutura da antiga Sucen, mas até o momento a medida não foi implementada.

“A febre maculosa é uma doença de elevada letalidade e exige acompanhamento permanente dos vetores, dos reservatórios e das mudanças ambientais que favorecem sua transmissão”, reforça Helena Dutra Lutgens. “É necessária e urgente a recriação da Sucen com toda autonomia para continuar a pesquisa pública estruturada, pois sem ela o Estado perde capacidade de antecipar riscos, aperfeiçoar protocolos e proteger a população”.

Mais informações: apqc.org / Marcelo Nadalon: marcelo.nadalon@entre8.com.br

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