
Afonso Peche Filho*
A ciência raramente avança em linha reta. Há momentos em que a investigação parece um vetor nítido: pergunta clara, método robusto, equipe coesa, financiamento estável, tempo para maturação e crítica. Em outros, o percurso se curva, estreita, bifurca, retorna. A frase “geometrias variáveis” ajuda a enxergar a pesquisa como caminho: não apenas um deslocamento rumo a resultados, mas uma travessia caracterizada por escolhas, obstáculos, atalhos e reconfigurações. Em especial, quando a política contemporânea de ciência e tecnologia altera prioridades, regulações e incentivos, o desenho do caminho muda, e muda a própria experiência de produzir conhecimento.
Em condições favoráveis, a ciência se comporta como estrada bem projetada: há sinalização institucional, pontes para atravessar rios de incerteza, manutenção de infraestrutura, mapas de longo prazo. A comunidade científica estabelece padrões de qualidade, revisa pares, repete experimentos, corrige rotas. Nessa geometria relativamente “estável”, o erro é tratado como parte do trajeto: não uma vergonha a ser ocultada, mas informação para recalcular o rumo. O tempo, nesse cenário, é um aliado. Projetos amadurecem, séries históricas se completam, dados se acumulam com paciência, e o conhecimento se torna comparável, transferível e útil.
Mas a ciência, em muitos contextos, é forçada a operar em topografias instáveis. Mudanças abruptas na política pública transformam o terreno. Editais aparecem e desaparecem; linhas de fomento mudam de foco; carreiras são precarizadas; instituições são reorganizadas sem critério técnico; agendas são capturadas por modismos, disputas ideológicas ou pressões de curto prazo. O caminho, então, deixa de ser uma estrada e se aproxima de uma trilha em encosta: exige equilíbrio constante, atenção ao risco e capacidade de improviso.
É nesse ponto que a “geometria variável” não é apenas uma metáfora bonita: ela descreve estratégias reais de sobrevivência acadêmica e técnica. Pesquisadores aprendem a construir atalhos burocráticos para manter laboratórios funcionando; reconfiguram perguntas para caber em linhas de financiamento temporárias; traduzem problemas complexos em entregas rápidas, mensuráveis e “vendáveis”; transformam atividades de extensão em projetos de pesquisa para garantir continuidade; migram de tema não por vocação, mas por oportunidade. A ciência segue, mas por curvas.
Há um custo nessa sinuosidade. O primeiro é o custo cognitivo: quando a agenda externa muda o tempo todo, a pesquisa perde profundidade. Um projeto que exigiria anos vira relatório sem lastro, e o “resultado” passa a ser confundido com “produto”. O segundo custo é o custo ético: sob pressão, a tentação de acelerar demais, ou de simplificar demais, cresce. O terceiro é o custo institucional: quando a ciência é gerida como vitrine, o sistema premia aparência de inovação, não consistência; publicidade, não verificação; slogans, não evidências.
Ainda assim, há uma dimensão produtiva nas geometrias variáveis. A capacidade de adaptar caminhos não é, por si, defeito; pode ser inteligência. Em períodos de instabilidade, a ciência aprende a ser mais cooperativa, a compartilhar recursos, a aproximar-se de problemas reais, a construir redes interinstitucionais e comunitárias. Aprende também a tornar seus argumentos mais públicos e compreensíveis, porque a disputa política não é apenas por orçamento: é por sentido. A sociedade precisa reconhecer por que a pesquisa importa, como ela reduz vulnerabilidades, como sustenta soberania tecnológica, como qualifica políticas públicas e como protege vida e patrimônio, material e imaterial.
A questão decisiva é diferenciar adaptação de capitulação. Adaptar é redesenhar o caminho sem abandonar o norte: manter integridade metodológica, transparência, abertura à crítica e compromisso com o bem comum. Capitular é aceitar que a direção seja ditada por urgências artificiais, por interesses estreitos ou por narrativas que substituem evidência por conveniência. Em um cenário de política de ciência e tecnologia instável, a tarefa do pesquisador e das instituições é dupla: sobreviver ao terreno e, ao mesmo tempo, disputar o próprio desenho do terreno.
“Geometrias variáveis da ciência” sugere, então, uma postura: reconhecer que o percurso muda, mas não romantizar a precariedade; aceitar curvas, mas não naturalizar a descontinuidade; usar atalhos quando necessário, mas sem perder o mapa. A ciência é uma caminhada coletiva em que cada desvio tem consequências para o futuro. Se o caminho é variável, que ao menos a bússola seja firme: rigor, responsabilidade e compromisso público. Isso não elimina a política do trajeto, apenas impede que ela transforme a pesquisa em estrada sem destino.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.