
Afonso Peche Filho*
Há narrativas que evocam o passado não para aprisioná-lo, mas para iluminar aquilo que o presente deixou escapar. A lembrança de um tempo de elegância institucional, rigor intelectual e sentido coletivo surge como um eco delicado diante de um mundo que se torna progressivamente mais áspero. Não se trata apenas da perda de edifícios ou estruturas administrativas; trata-se da erosão de ambientes que sustentavam vínculos, transmitiam saberes e ofereciam continuidade entre gerações.
A metáfora é inevitável quando pensamos nos institutos de pesquisa brasileiros.
Houve um tempo em que esses lugares eram reconhecidos como casas do pensamento paciente. Seus corredores abrigavam debates prolongados, bibliotecas vivas, experimentos que atravessavam décadas. Jovens pesquisadores aprendiam não apenas técnicas, mas atitudes: respeito ao método, prudência diante das conclusões fáceis, responsabilidade pública do conhecimento. Essas instituições eram mais do que centros operacionais; constituíam verdadeiras arquiteturas morais.
A nostalgia que sentimos ao recordar esse período não é mero sentimentalismo. Ela nasce da percepção de que existia um pacto social relativamente estável. A ciência era compreendida como investimento civilizatório, como obra coletiva, como patrimônio estratégico. Havia tensões, limites orçamentários e divergências teóricas, mas permanecia a convicção de que produzir conhecimento significava construir futuro.
O presente, entretanto, apresenta sinais persistentes de desgaste.
Orçamentos voláteis, carreiras interrompidas, descontinuidade de programas, pressão por respostas imediatas e dependência de modelos externos criam um ambiente onde a permanência se torna exceção. Muitas instituições seguem existindo formalmente, preservam nomes históricos, mantêm fachadas respeitáveis, mas enfrentam dificuldades crescentes para sustentar o espírito que lhes deu origem.
Entre a nostalgia e a decadência instala-se um sentimento ambíguo. Recordar o esplendor pode ser paralisante quando se reduz a lamento. Mas pode ser mobilizador quando ajuda a identificar o que precisa ser reconstruído.
O essencial nunca esteve apenas na infraestrutura material. Ele residia na ética cotidiana que organizava as relações de trabalho e aprendizagem. Delicadeza no trato, rigor na análise, lealdade entre equipes, abertura ao diálogo, tudo isso funcionava como tecnologia invisível de sustentação institucional. A vitalidade científica depende menos de equipamentos sofisticados do que da capacidade de formar comunidades de cooperação, transmissão e coragem intelectual. A decadência começa justamente quando esses fios se rompem.
Sem vínculos, a pesquisa se converte em tarefa episódica. Sem memória, perde-se a aptidão de formular perguntas próprias. Sem horizonte coletivo, cada trajetória profissional se isola e se fragiliza. O que antes era projeto de nação transforma-se em atividade intermitente, vulnerável a ciclos políticos e a interesses de curto prazo.
Ainda assim, é na consciência da perda que pode emergir uma nova responsabilidade histórica. Saber o que foi construído permite compreender a dimensão do que está em risco. Talvez não se trate de restaurar antigas formas institucionais, mas de recuperar o princípio que lhes dava coerência: o entendimento de que o conhecimento é um bem público que exige investimento contínuo, proteção social e compromisso intergeracional.
Entre nostalgia e decadência existe um intervalo fértil. Nele se alojam escolhas concretas.
Podemos observar a deterioração como espectadores resignados ou assumir a posição de herdeiros que decidem reocupar a casa comum, reinventar funções, abrir novas passagens, atualizar linguagens. Quando a memória se transforma em compromisso, deixa de ser saudade e passa a orientar projetos. Talvez a pergunta decisiva do nosso tempo seja simples, embora exigente: que instituições científicas desejamos legar aos que ainda virão? A resposta dependerá da nossa capacidade de converter lembrança em trabalho persistente, afeto em política pública e história acumulada em possibilidade de futuro.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.