
Fazendas de pesquisa da agricultura não têm orçamento para enfrentar clima hostil; no Meio Ambiente, quantidade de brigadistas é insuficiente para proteger áreas
Campinas, 23 de julho, de 2026 – A aproximação de um novo período de influência do El Niño, associada à estiagem típica do segundo semestre, acende um alerta para o patrimônio científico e ambiental do Estado de São Paulo. Ao todo, 39 áreas de pesquisa agropecuária, vinculadas à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), e 47 áreas de pesquisa e conservação ambiental, historicamente administradas pelo Instituto Florestal e hoje ligadas à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), enfrentam riscos crescentes de incêndios em um cenário marcado pela falta de investimentos em prevenção e pela redução da estrutura de pesquisa e conservação.
Na agricultura, a situação é considerada especialmente preocupante. Sem orçamento específico para ações preventivas, pesquisadores relatam dificuldades até para manter equipamentos básicos de combate ao fogo.
“A situação é ainda mais preocupante porque essas fazendas praticamente perderam toda a estrutura de apoio. Os cargos da carreira de apoio à pesquisa foram extintos por decreto do governador Tarcísio de Freitas e, hoje, muitas vezes é o próprio pesquisador quem precisa capinar o terreno, fazer a manutenção da área e executar tarefas operacionais para manter os experimentos funcionando. Enquanto outros países reforçam suas estruturas de pesquisa diante das mudanças climáticas, São Paulo desmonta justamente quem produz o conhecimento necessário para enfrentá-las”, afirma a presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), Dra. Helena Dutra Lutgens.
A Fazenda Experimental de Monte Alegre do Sul, por exemplo, conta com uma carreta-tanque acoplada a um trator para combater incêndio, mas como a área apresenta declividade acentuada no terreno, o trator não chega às áreas sensíveis. Para piorar, no momento, a unidade está com restrição de combustível para abastecimento dos tratores, o que tem impedido a construção de aceiros.
A APqC lembra que o histórico recente reforça a gravidade do problema. Em 2008, um grande incêndio destruiu experimentos com laranja, tangerina, café, atemoia e manga. Em 2020, o fogo consumiu cerca de 80 hectares de área agrícola e de reserva ambiental, danificando ainda uma estufa de 180 metros quadrados, talhões de eucalipto e outras dependências. Já em 2022, outro incêndio atingiu parte do sistema de irrigação da unidade, destruindo tubulações e um barracão utilizado nas atividades de pesquisa. Em 2024, o incêndio durou 36 horas (vídeo).
“Estamos falando de uma fazenda onde são desenvolvidas pesquisas estratégicas para a agricultura paulista. Um incêndio não destrói apenas vegetação. Ele pode comprometer experimentos conduzidos durante anos, materiais genéticos, infraestrutura e informações científicas que não podem simplesmente ser reconstruídas do dia para a noite”, afirma Lutgens.
Segundo levantamento feito pela APqC, no ano passado três áreas de pesquisa ligadas à Apta Regional foram atingidas por incêndios: Piracicaba, Pindamonhangaba e Gália. No ano anterior, além de Monte Alegre do Sul, também foram parcialmente destruídas pelo fogo as unidades de Pindamonhangaba, Colina, Itapetininga e Sertãozinho, a mais danificada, onde são realizadas pesquisas sobre gado de corte.
Segundo a entidade, para evitar que o cenário de destruição se repita, pesquisadores solicitaram recursos ao governo do Estado para proteger as áreas, mas ainda não obtiveram retorno.
“O Estado continua negligenciando um patrimônio científico construído ao longo de décadas, justamente em um momento em que os eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes”, acrescenta Lutgens.
Meio ambiente
No sistema ambiental paulista, a preocupação é semelhante. As 47 áreas de pesquisa e conservação distribuídas pelo Estado incluem estações ecológicas, estações experimentais, florestas estaduais, hortos e parques estaduais, responsáveis pela proteção de importantes remanescentes de Cerrado e Mata Atlântica, além do desenvolvimento de pesquisas voltadas à conservação da biodiversidade.
Entre elas, unidades como as Estações Experimentais de Itirapina e Itapeva, as Florestas Estaduais de Angatuba, Águas de Santa Bárbara e Piraju, além da Estação Experimental de Itapetininga, áreas que já estiveram no centro de disputas judiciais em razão de projetos de concessão, venda ou mudança de destinação.
No começo do ano, o governo anunciou a contratação de 243 brigadistas, quantidade insuficiente, conforme a APqC, considerando a redução do quadro No começo do ano, o governo anunciou a contratação de 243 brigadistas, quantidade insuficiente, conforme a APqC, considerando a redução do quadro técnico e extinção de cargos da carreira de apoio à pesquisa promovida por meio de decreto assinado pelo atual governador.
“O modelo de contratação destes brigadistas é temporário, o que impede o acúmulo de conhecimento sobre cada área, suas pesquisas e suas vulnerabilidades, comprometendo a eficiência da prevenção e do combate aos incêndios. A proteção dessas unidades depende de uma atuação contínua, integrada à pesquisa e à conservação ambiental”, reforça Lutgens.
A entidade também cita a extinção do Instituto Florestal, do Instituto de Botânica e do Instituto Geológico, promovida em 2020, como agravantes para enfraquecer a capacidade do Estado de prevenir e responder aos incêndios florestais. No Supremo Tribunal Federal (STF), durante uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), promovida pelo PSOL-SP, a entidade destacou a perda de capacidade científica e operacional para a gestão ambiental no Estado. Por decisão do Ministro Flávio Dino, o governo de São Paulo foi obrigado a apresentar um plano para contratar pesquisadores científicos que atuem em matéria ambiental. A decisão também impõe a inclusão de metas verificáveis, fases de execução, critérios de reposição, prazos de realização de concursos públicos e reestruturação das carreiras técnicas.
“Desde a extinção dos institutos ambientais, assistimos a uma desestruturação gradual do sistema paulista de pesquisa e conservação. Perdemos capacidade técnica, acumulamos aposentadorias sem reposição e reduzimos equipes justamente quando as mudanças climáticas exigem mais ciência, mais monitoramento e maior capacidade de resposta do Estado”, afirma Helena Dutra Lutgens.
Defesa das áreas na Justiça
Nos últimos anos, a APqC passou a recorrer ao Judiciário para impedir medidas que colocam em risco áreas estratégicas para a pesquisa e a conservação.
A entidade obteve decisões que suspenderam audiências públicas destinadas à venda de 35 áreas de pesquisa agrícola, levando posteriormente o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) a consolidar o entendimento de que a alienação de patrimônio científico exige autorização legislativa específica, estudos técnicos e participação qualificada da comunidade científica.
Na área ambiental, a associação também acompanha a Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público que protege 37 áreas de pesquisa e conservação, além de atuar como amicus curiae em processos que impediram concessões e determinaram o cumprimento de liminares contra novas destinações dessas áreas, como ocorreu recentemente na Fazenda Experimental de Itapetininga.
“Estamos falando de proteger décadas de pesquisa científica, coleções biológicas, bancos genéticos, experimentos de longa duração e um patrimônio público construído por sucessivas gerações de pesquisadores. O conhecimento produzido nessas áreas não pode ser consumido pelo fogo por falta de planejamento e de investimentos. Proteger essas unidades é garantir que São Paulo continue produzindo ciência, inovação e respostas para os desafios impostos pelas mudanças climáticas, em vez de perder esse patrimônio pela negligência do próprio Estado”, conclui Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.
Mais informações: apqc.org
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