
Afonso Peche Filho*
Há momentos na vida institucional em que a noite parece prolongar-se além do suportável. Nos institutos de pesquisa, essa sensação costuma nascer de um silêncio que se acumula: o silêncio das expectativas adiadas, das vocações que continuam apesar do cansaço, dos projetos que insistem em permanecer vivos mesmo quando o ambiente parece menos generoso com a ciência. Não se trata apenas de números, estruturas ou normas; trata-se, sobretudo, de uma atmosfera. Uma espécie de sombra que se deposita sobre quem sabe que o conhecimento é essencial, mas percebe que nem sempre ele é reconhecido com a grandeza que merece.
A situação dos institutos de pesquisa revela, antes de tudo, uma contradição sensível. A sociedade espera respostas cada vez mais qualificadas para problemas complexos: mudanças climáticas, segurança alimentar, conservação da água, saúde pública, transição energética, sustentabilidade produtiva e proteção da biodiversidade. Ao mesmo tempo, paira sobre muitos ambientes científicos a impressão de que a luz produzida pelo conhecimento nem sempre ilumina as decisões com a força necessária. É como se o país desejasse amanhecer, mas ainda hesitasse em cuidar das mãos que mantêm acesas as primeiras claridades.
A meia-noite, nesse contexto, simboliza o ponto de maior tensão interior. É o instante em que o pesquisador olha ao redor e sente que sua vocação precisa dialogar com uma realidade muitas vezes áspera, descontínua e impaciente. Há dias em que a ciência parece caminhar por corredores estreitos, sustentada por memórias, compromissos e gestos de resistência cotidiana. Há, também, uma dor discreta: a de perceber que décadas de aprendizagem, métodos, experiências e vínculos com o território podem perder densidade quando não encontram continuidade, escuta e proteção institucional.
Mas a meia-noite, por mais densa que seja, não é o fim do tempo. Ela é uma passagem. Depois dela, ainda que lentamente, o dia começa a se insinuar. O amanhecer não chega como milagre, mas como construção paciente. Ele nasce quando pesquisadores continuam formulando perguntas relevantes, quando técnicos preservam a memória dos métodos, quando jovens ingressam na ciência com desejo de contribuir, quando a sociedade volta a compreender que pesquisa pública não é ornamento, mas patrimônio coletivo. O amanhecer começa quando a ciência deixa de ser vista apenas como setor e passa a ser sentida como destino comum.
Os institutos de pesquisa guardam algo que não pode ser improvisado: uma inteligência acumulada sobre solos, águas, cultivos, doenças, ecossistemas, tecnologias, comunidades e processos produtivos. Neles vive uma ciência com memória, continuidade e responsabilidade pública. Essa memória não está apenas nos relatórios, nos laboratórios ou nas coleções; está também no olhar treinado de quem aprendeu a escutar o campo, interpretar sinais, comparar tempos e transformar observação em orientação. Por isso, sua renovação não depende somente de recursos, embora eles sejam indispensáveis. Depende também de uma mudança de sensibilidade diante do valor público do conhecimento.
O novo começo pede recomposição, modernização, valorização e integração, mas pede também delicadeza política e respeito ao tempo da ciência. Nem toda resposta nasce imediatamente; algumas exigem anos de observação, ensaios, erros, validações e aprendizagem. Institutos fortes são aqueles capazes de atravessar gerações, mantendo viva a ligação entre conhecimento, território e interesse público. Quando essa ligação se enfraquece, não perde apenas a instituição; perde a sociedade, que fica menos preparada para compreender seus próprios desafios.
Depois da meia-noite o dia amanhece. Essa frase não deve ser lida como consolo ingênuo, mas como compromisso com a esperança lúcida. O amanhecer virá se houver coragem para reconhecer a profundidade da noite e sensibilidade para reacender os caminhos da pesquisa pública. A ciência brasileira já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de servir ao país. Cabe agora ao país demonstrar que ainda é capaz de cuidar da ciência que o sustenta.
*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.