
Reportagem publicada na Folha de S. Paulo em 16 de fevereiro de 2026 confirma o que a Associação dos Pesquisadores Científicos (APqC) tem dito há anos: a Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do governo Tarcísio de Freitas mantém hoje um quadro insuficiente de pesquisadores científicos para dar conta dos desafios ambientais enfrentados pelo estado.
Levantamento da própria APqC, com base em dados do Diário Oficial, aponta que há apenas 123 pesquisadores em atividade, enquanto 158 cargos permanecem vagos. O próprio governo admite um número elevado de vacâncias — 166 postos não preenchidos — e reconhece que o último concurso público para a carreira foi realizado em 2005, há mais de duas décadas.
O cenário é especialmente preocupante diante da intensificação dos eventos climáticos extremos e da queda nos níveis dos reservatórios, situação que remete à crise hídrica de 2014. Os pesquisadores científicos atuam diretamente em laboratórios de botânica e geologia, desenvolvendo estudos sobre clima, disponibilidade de água e elaborando mapas de risco fundamentais para o enfrentamento de enchentes e deslizamentos. A ausência de reposição de quadros compromete a produção de conhecimento estratégico e a capacidade de resposta do Estado em momentos críticos.
Para Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC e pesquisadora do Instituto Florestal, o alerta é inequívoco: “O descaso tem se agravado ao longo dos anos, fragilizando a pesquisa e expondo a sociedade a um apagão científico em plena emergência climática, incluindo a escassez hídrica provocada por períodos prolongados de estiagem e por mudança no regime de chuvas”.
Embora o governo informe ter reestruturado a carreira em outubro de 2025 e estude a realização de novo concurso para preencher 98 vagas em áreas consideradas prioritárias, a medida ainda não se concretizou. Após mais de 20 anos sem seleção pública, o déficit acumulado evidencia uma política de desvalorização da ciência e do serviço público que não pode mais ser postergada.
A APqC reforça que a recomposição imediata do quadro de pesquisadores é condição indispensável para garantir políticas ambientais eficazes, baseadas em evidências científicas e comprometidas com a proteção da população paulista. Sem investimento consistente em pesquisa e valorização da carreira, o Estado corre o risco de aprofundar um apagão científico justamente quando mais precisa de conhecimento técnico para enfrentar a crise climática.