Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Da Nematologia à Ciência pública: a trajetória de Claudio Marcelo Oliveira, homenageado com a Medalha Rocha Lima

Ao receber a Medalha Rocha Lima, em 12 de novembro de 2025, Claudio Marcelo Gonçalves Oliveira não foi apenas homenageado por uma carreira científica consolidada, mas reconhecido como parte viva da história da pesquisa pública paulista e brasileira. Considerada uma das mais importantes distinções concedidas pelo Instituto Biológico, a medalha simboliza, para o pesquisador, a força da ciência nacional, o valor do trabalho coletivo e o compromisso institucional com a inovação e o serviço à sociedade — princípios que orientaram toda a sua trajetória profissional.

A relação de Claudio com a ciência, e mais especificamente com a Nematologia, começou muito cedo. Ainda aos 16 anos, quando cursava o ensino técnico em Química, teve a oportunidade de estagiar no setor de Nematologia da ESALQ/USP. Sob a orientação do professor Ailton Rocha Monteiro, seu mestre e principal referência acadêmica, entrou em contato com as primeiras técnicas de identificação de nematoides e descobriu sua vocação científica: compreender organismos microscópicos capazes de causar impactos significativos na agricultura. Esse contato precoce foi decisivo para a escolha da carreira que seguiria ao longo da vida.

A experiência na ESALQ marcou profundamente sua formação. Impulsionado pelo estágio, Claudio ingressou no curso de Agronomia da própria escola em 1989 e manteve-se vinculado ao laboratório de Nematologia durante toda a graduação. Ainda como estudante, passou a conduzir pesquisas de forma independente ou em colaboração com outros estagiários, participou de congressos científicos e apresentou trabalhos à comunidade nematológica nacional. Foi bolsista de iniciação científica por diferentes agências e publicou seu primeiro artigo científico em 1991, na revista Nematologia Brasileira, ainda como aluno de graduação — um indicativo precoce de sua inserção no meio científico.

Apesar da convicção na área, o período logo após a formatura trouxe dúvidas comuns a muitos jovens pesquisadores. A necessidade de inserção no mercado de trabalho o levou a considerar outros caminhos profissionais, como o paisagismo, outra de suas paixões. No entanto, o incentivo de seus orientadores — especialmente do professor Ailton Monteiro e dos professores Luiz Carlos B. Ferraz e Mário M. Inomoto — foi decisivo para que desse continuidade à formação acadêmica, ingressando na pós-graduação e aprofundando seus conhecimentos em Nematologia de plantas.

Ainda durante o mestrado, surgiu a oportunidade que marcaria definitivamente sua trajetória profissional: o concurso público para pesquisador científico do Instituto Biológico. Aprovado, Claudio assumiu, em fevereiro de 1997, o cargo no Laboratório de Nematologia do Centro Experimental do Instituto Biológico, em Campinas, onde construiu uma carreira dedicada à pesquisa, ao diagnóstico e à defesa da agricultura nacional. Ao longo desse percurso, contou com a orientação e os conselhos de pesquisadores experientes, que tiveram papel central na construção de sua identidade científica.

A busca permanente por atualização e inovação levou Claudio a tomar uma das decisões mais importantes de sua vida profissional: realizar o doutorado no exterior. Entre 2001 e 2004, desenvolveu sua formação no Scottish Crop Research Institute, atual James Hutton Institute, na Escócia, onde se especializou em técnicas de biologia molecular aplicadas à identificação de nematoides. O período no exterior representou um divisor de águas, tanto do ponto de vista científico quanto pessoal. O treinamento avançado permitiu avanços significativos nos estudos sobre diversidade genética de nematoides e no desenvolvimento de protocolos moleculares para diagnóstico, com impactos diretos nas pesquisas realizadas posteriormente no Instituto Biológico.

De volta ao Brasil, Claudio foi protagonista na implantação e consolidação de técnicas de biologia molecular no Laboratório de Nematologia do IB. A incorporação dessas metodologias elevou a precisão e a rapidez dos diagnósticos, fortalecendo os serviços prestados pela instituição e ampliando sua capacidade de resposta frente a desafios fitossanitários. Esse avanço contribuiu para um verdadeiro “antes e depois” no diagnóstico de nematoides no país, com destaque para o uso pioneiro de ferramentas moleculares em análises oficiais de materiais vegetais importados e exportados.

Com quase três décadas de atuação no Instituto Biológico, Claudio define a carreira científica em uma instituição pública como um compromisso de longo prazo com o interesse coletivo. Para ele, fazer ciência vai além da produção de artigos: envolve formar recursos humanos, apoiar políticas públicas, contribuir para a sanidade agropecuária e transferir conhecimento à sociedade. Nesse contexto, destaca o papel estratégico do IB na certificação fitossanitária e na defesa da agricultura brasileira, atuando com rigor técnico e credibilidade reconhecida nacional e internacionalmente.

Paralelamente à pesquisa, Claudio também se dedica à divulgação científica, entendendo-a como uma forma de aproximação entre ciência e sociedade. Em 2024, lançou o livro infantil Procurando Nemas, em parceria com sua filha, a ilustradora Ana Cecília Oliveira. A obra traduz conceitos científicos para o público infantil de maneira acessível, utilizando a arte e a narrativa como ferramentas de educação e estímulo ao interesse pela ciência desde cedo.

Ao receber a Medalha Rocha Lima, Claudio Marcelo Gonçalves Oliveira fez questão de compartilhar a homenagem com todos que fizeram parte de sua trajetória. O reconhecimento sintetiza uma vida dedicada à ciência pública, marcada pela formação sólida, pela inovação constante e pelo compromisso com a agricultura, a pesquisa e a sociedade brasileira.

Por Bruno Ribeiro, para a APqC

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