
Afonso Peche Filho*
A palavra teoria ocupa hoje um lugar paradoxal no campo científico. Ao mesmo tempo em que é fundamento indispensável da ciência, tem sido frequentemente reduzida a um papel secundário nas práticas institucionais da pesquisa. Em contextos marcados pela aceleração tecnológica, pela pressão por resultados imediatos e pela valorização de métricas quantitativas de desempenho, a teoria passou a ser vista, não raras vezes, como algo distante da realidade, pouco funcional ou incompatível com as exigências contemporâneas da produção científica. Essa leitura empobrecida, entretanto, contrasta radicalmente com o significado original e com o papel estrutural que a teoria exerce na construção do conhecimento científico.
Etimologicamente, a palavra teoria deriva do grego theoría, cujo sentido remete ao ato de observar atentamente, contemplar e examinar com profundidade. Em sua origem, teoria não designa abstração desvinculada do mundo concreto, mas, ao contrário, o esforço rigoroso de compreender a realidade para além da aparência imediata dos fenômenos. No campo científico, teoria pode ser compreendida como um sistema organizado de conceitos, princípios e relações explicativas que permite interpretar fenômenos, orientar investigações e conferir sentido aos dados empíricos. Dados isolados, por si só, não produzem conhecimento; tornam-se inteligíveis apenas quando inseridos em um arcabouço teórico capaz de explicá-los e relacioná-los.
Toda ciência, portanto, é teoricamente orientada, ainda que nem sempre essa orientação seja explicitada. A teoria define o que é considerado um problema científico relevante, orienta a escolha dos métodos, condiciona a forma de interpretação dos resultados e estabelece os critérios de validação do conhecimento produzido. Mesmo abordagens que se apresentam como estritamente empíricas ou técnicas operam a partir de pressupostos teóricos, muitas vezes implícitos, que moldam o olhar do pesquisador sobre a realidade. Nesse sentido, não existe ciência neutra ou puramente objetiva; existe ciência sustentada por teorias mais ou menos adequadas à complexidade do real.
A relação entre teoria e ciência é, essencialmente, dialética. A teoria nasce da observação da realidade, orienta a investigação científica e, ao ser confrontada com novos dados, é continuamente testada, ajustada ou reformulada. Esse movimento permanente entre observação, formulação teórica, validação empírica e revisão conceitual constitui o núcleo dinâmico do processo científico. Não há teorias definitivas, mas sim teorias provisórias, progressivamente refinadas à medida que a ciência amplia sua capacidade de compreender sistemas cada vez mais complexos. Quando uma teoria deixa de explicar satisfatoriamente os fenômenos observados, instala-se uma crise científica que, longe de representar um fracasso, atua como motor do avanço do conhecimento.
No contexto contemporâneo da pesquisa, entretanto, observa-se uma crescente dissociação entre teoria e prática institucional. Em muitos institutos de pesquisa, especialmente aqueles submetidos a fortes pressões administrativas, orçamentárias e políticas, a produção científica tem sido orientada prioritariamente por editais altamente direcionados, prazos exíguos e sistemas de avaliação baseados em indicadores quantitativos de produtividade. Nesse cenário, a teoria passa a ser percebida como um obstáculo à eficiência operacional, algo que demanda tempo, reflexão e maturação intelectual, em contraste com a lógica da entrega rápida de resultados mensuráveis.
Essa tendência contribui para a consolidação de uma ciência tecnicista, operacionalmente eficiente, porém conceitualmente fragilizada. Protocolos são repetidos sem questionamento de seus fundamentos, modelos são aplicados de forma acrítica a contextos distintos e a reflexão teórica cede espaço à padronização metodológica. Como consequência, os institutos de pesquisa correm o risco de se afastar de sua função estratégica de produção de conhecimento explicativo, limitando-se a atuar como prestadores de serviços técnicos de curto prazo.
A fragilização da teoria no interior das instituições científicas produz efeitos profundos e cumulativos. Entre eles destacam-se o empobrecimento conceitual da pesquisa, a perda de capacidade crítica para avaliar os próprios limites do conhecimento produzido, a dependência crescente de paradigmas externos e a redução da ciência a uma atividade instrumental subordinada a interesses imediatos. Em áreas que lidam com sistemas complexos, como agricultura, meio ambiente, saúde e planejamento territorial, esses efeitos tornam-se particularmente graves, pois decisões práticas baseadas em fundamentos teóricos frágeis podem gerar impactos ambientais, sociais e econômicos de longo alcance.
Resgatar o valor da teoria no contexto da pesquisa contemporânea não implica negar a importância da aplicação prática do conhecimento. Ao contrário, significa reconhecer que não existe prática científica qualificada sem uma base teórica sólida. A teoria orienta a ação, confere coerência às decisões técnicas e permite compreender as consequências sistêmicas das intervenções humanas sobre a realidade. Institutos de pesquisa possuem, nesse sentido, uma responsabilidade institucional e social que ultrapassa a produção de resultados imediatos: cabe-lhes formar pesquisadores com capacidade crítica, produzir conhecimento contextualizado e contribuir para a compreensão aprofundada dos problemas enfrentados pela sociedade.
Além disso, a teoria desempenha um papel fundamental na mediação entre ciência e sociedade. Uma ciência desprovida de fundamentação teórica tende a tornar-se opaca, difícil de comunicar e vulnerável à instrumentalização por interesses externos. A teoria fornece linguagem, sentido e estrutura narrativa ao conhecimento científico, permitindo o diálogo com gestores públicos, agricultores, educadores e comunidades. Ela é a ponte que transforma dados técnicos em compreensão compartilhada e decisões socialmente responsáveis.
A teoria contemporânea da pesquisa, portanto, não representa um retorno nostálgico a um academicismo estéril, mas uma resposta necessária às exigências de um mundo marcado por crises ambientais, sociais e epistêmicas. Em um cenário de complexidade crescente, a ciência precisa recuperar sua capacidade de pensar antes de agir, compreender antes de aplicar. Resgatar o significado profundo da palavra teoria é, em última instância, resgatar a própria essência da ciência e reafirmar o papel dos institutos de pesquisa como espaços de reflexão, autonomia intelectual e compromisso com a realidade que buscam compreender e transformar.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC