
Afonso Peche Filho*
A ciência brasileira, quando observada em sua relação com o campo político, pode ser compreendida pela imagem de uma luz vacilante. Não se trata de uma chama firme, protegida por uma estrutura de Estado contínua, estratégica e permanente. Trata-se, muitas vezes, de uma claridade intermitente, que aumenta ou diminui conforme o vento das conjunturas políticas, das crises econômicas, das disputas ideológicas e das prioridades momentâneas de governo. Essa luz não se apaga completamente porque há resistência, vocação pública, dedicação de pesquisadores, universidades, institutos e agências de fomento. Mas ela vacila porque sua sustentação depende, com frequência, de decisões instáveis e de compromissos frágeis.
A metáfora da luz vacilante revela, antes de tudo, a oscilação histórica do financiamento científico no Brasil. A ciência exige continuidade. Um laboratório não se constrói em um ano; uma linha de pesquisa não amadurece em poucos meses; a formação de um pesquisador demanda décadas de investimento educacional, institucional e humano. No entanto, a política orçamentária brasileira nem sempre compreende essa temporalidade. Em determinados períodos, a ciência recebe maior atenção, recursos e reconhecimento. Em outros, sofre cortes, contingenciamentos, descontinuidade de bolsas, paralisação de editais e desestruturação de programas. Cada corte orçamentário não significa apenas menos dinheiro: significa interrupção de experimentos, perda de equipes, abandono de jovens talentos e atraso em respostas que poderiam beneficiar a sociedade.
Essa instabilidade cria um ambiente de incerteza permanente. Pesquisadores passam a trabalhar não apenas com hipóteses científicas, mas também com dúvidas administrativas: haverá verba para manter o laboratório? As bolsas serão pagas? O projeto terá continuidade? Os equipamentos poderão ser conservados? A ciência, que deveria dedicar sua energia à produção de conhecimento, é obrigada a gastar parte de sua força tentando sobreviver. A luz vacila porque o sistema que a alimenta é irregular.
Há também uma dimensão simbólica e política nessa oscilação. A ciência brasileira, em determinados momentos, precisou enfrentar não apenas a falta de recursos, mas também a sombra do negacionismo, da desconfiança pública e da desvalorização institucional. Quando o conhecimento científico é tratado como opinião entre opiniões, quando pesquisadores são vistos como obstáculos e não como servidores do interesse público, a luz da razão torna-se frágil. O problema não está apenas no corte de verbas, mas na corrosão da confiança social na ciência. Sem essa confiança, vacila também a capacidade do país de tomar decisões baseadas em evidências, planejamento e responsabilidade coletiva.
Um dos efeitos mais graves dessa luz instável é a fuga de cérebros. Quando jovens pesquisadores percebem que seu futuro profissional depende de um sistema descontínuo, muitos procuram oportunidades em outros países. Esse movimento é compreensível do ponto de vista individual, mas doloroso para o país. Cada cientista que parte leva consigo anos de formação pública, experiência acumulada e potencial de inovação. A perda não é imediata apenas; ela se prolonga no tempo, criando vazios em áreas estratégicas e reduzindo a capacidade nacional de responder a desafios ambientais, sanitários, tecnológicos, agrícolas e sociais.
Apesar disso, a luz continua acesa. Há esforços de recomposição, tentativas de retomada de investimentos, reconstrução de programas e reafirmação do papel da ciência no desenvolvimento nacional. Mas reacender plenamente essa chama exige mais do que recuperar valores orçamentários. Exige transformar a ciência em projeto de Estado, e não apenas em prioridade ocasional de governo. Exige compreender que ciência não é gasto supérfluo, mas infraestrutura civilizatória. É ela que ilumina políticas públicas, qualifica a produção agrícola, fortalece a saúde, protege o ambiente, orienta a indústria, amplia a soberania e prepara o país para crises futuras.
A luz vacilante, portanto, não é apenas uma imagem de fragilidade. É também um alerta. Um país que permite que sua ciência oscile perigosamente aceita caminhar por trechos longos de sua história em penumbra. Valorizar a ciência é proteger essa luz contra os ventos da improvisação, do imediatismo e da ignorância. O desafio brasileiro não é apenas impedir que a chama se apague. É construir as condições para que ela deixe de vacilar e passe a iluminar, com firmeza, o caminho de uma sociedade mais justa, autônoma e preparada para o futuro.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC