Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

A Ciência da Compaixão

Afonso Peche Filho*

Discutir ciência com dignidade humana, e com denúncia explícita da exploração do homem pelo homem e da natureza pelo homem, é deslocar o eixo do debate. Não se trata apenas de escolher temas “bonitos” ou de inserir uma seção de “impacto” no final de um projeto. Trata-se de reconhecer que toda pesquisa, por definição, opera dentro de uma trama de relações: relações de poder, relações econômicas, relações ecológicas, relações culturais. E, quando essa trama é ignorada, a ciência corre o risco de ser usada como linguagem de legitimação do injustificável: um selo técnico para práticas que aprofundam desigualdades, degrada territórios e transformam vidas em externalidades.

Chamar esse horizonte de ciência da compaixão é afirmar que a compaixão não é um adorno moral colocado sobre a técnica; ela pode ser um princípio organizador do próprio fazer científico. Compadecer-se, aqui, não significa “sentir pena”, mas desenvolver a capacidade de atenção rigorosa ao sofrimento evitável, às assimetrias de risco e às perdas invisibilizadas. É uma ciência que toma a realidade inteira como objeto: não apenas aquilo que é mensurável em laboratório, mas aquilo que é produzido no mundo quando um resultado se torna recomendação, política, tecnologia, norma, mercado.

Por isso a ciência da compaixão ecoa naturalmente em temas como pesquisa responsável, justiça ambiental, tecnologia com impacto social, cuidado com populações vulneráveis e avaliação de consequências não intencionais. Nesses campos, a pesquisa deixa de ser apenas um mecanismo de corrida por resultados e passa a ser uma forma de compromisso: compromisso com a vida em sua pluralidade, compromisso com a redução de sofrimentos evitáveis, compromisso com o futuro como responsabilidade e não como aposta.

Há um ponto especialmente importante: o desenvolvimento em escala econômica está em curso e dificilmente vai parar. Essa constatação é realista e, justamente por isso, exige uma resposta científica à altura. Se a lógica econômica tende a acelerar, concentrar e simplificar, acelerando extrações, concentrando renda e simplificando paisagens, então a ciência que se pretende digna precisa assumir um papel de contrapeso civilizatório. Não para “frear o mundo” por romantismo, mas para reorientar o mundo por lucidez. Se a economia insiste em produzir ganhos privados e custos públicos, a ciência da compaixão precisa produzir o inverso: bens comuns, reparação, prevenção, regeneração.

Essa reorientação exige uma mudança de postura: abandonar a ideia de neutralidade como desculpa. Neutralidade pode ser virtude quando significa precisão, cautela e honestidade metodológica. Mas vira cumplicidade quando significa “não se envolver” diante de assimetrias evidentes. A ciência da compaixão, por definição, não abdica do rigor; ela abdica da indiferença. Ela pede transparência: declarar limites, riscos, financiamentos, conflitos de interesse; declarar quem participa e quem fica de fora; declarar o que será monitorado depois que a tecnologia ou recomendação for adotada no território.

Também pede um deslocamento de escala e de pergunta. Pesquisa voltada ao desenvolvimento humano e ao desenvolvimento em escala ambiental significa pensar simultaneamente o micro e o macro. No micro, significa ver rostos: trabalhadores, comunidades, povos tradicionais, agricultores familiares, moradores de periferias urbanas, pessoas que vivem em áreas de risco. No macro, significa ver sistemas: bacias hidrográficas, redes alimentares, ciclos de nutrientes, conectividade ecológica, estabilidade climática, integridade do solo. A compaixão, aqui, é o nome de uma inteligência científica que não fragmenta o mundo ao ponto de perder o que sustenta o mundo.

Há ainda um ponto que a ciência da compaixão se recusa a tratar como detalhe: consequências não intencionais não são “acidentes raros”; são parte do modo como sociedades complexas funcionam. Uma inovação pode aumentar produtividade e, ao mesmo tempo, aumentar vulnerabilidade; pode reduzir custos e, ao mesmo tempo, ampliar dependências; pode criar eficiência e, ao mesmo tempo, destruir resiliência. A ciência da compaixão exige que o desenho da pesquisa inclua perguntas de segunda ordem: “Se isso funcionar, o que muda no comportamento das pessoas e das instituições?”, “Que práticas isso incentiva?”, “Que práticas isso desincentiva?”, “Que riscos invisíveis podem emergir quando o contexto muda?”. Não basta provar eficácia; é preciso testar sustentabilidade moral e ecológica.

Quando a ciência assume esse horizonte, ela deixa de ser apenas produtora de respostas e passa a ser produtora de condições para escolhas melhores. Isso implica incorporar participação social desde o início, não como consulta decorativa. Implica coproduzir perguntas com quem vive o problema. Implica respeitar saberes locais sem folclorizá-los e sem instrumentalizá-los. Implica construir indicadores que não sejam só “técnicos”, mas também humanos: segurança, autonomia, saúde, tempo de vida, dignidade no trabalho, confiança comunitária, qualidade ambiental.

A ciência da compaixão também redefine o que chamamos de sucesso. Sucesso não é apenas publicar, patentear, escalar e vender. Sucesso, nesse registro, é reduzir danos, ampliar capacidades, fortalecer territórios, diversificar soluções, aumentar resiliência e justiça. É quando um resultado científico melhora vidas sem sacrificar outras vidas , inclusive as vidas não humanas que sustentam o tecido do planeta. É quando a inovação não precisa de cegueira para funcionar.

Se o desenvolvimento econômico não vai parar, então o mínimo ético e científico é impedir que ele siga como máquina de moer pessoas e ecossistemas. E esse impedimento não se faz apenas com leis ou discursos; faz-se com conhecimento bem colocado. A ciência da compaixão é, nesse sentido, uma infraestrutura moral do futuro: ela desenha limites, cria alertas, oferece alternativas, testa caminhos menos destrutivos, dá voz ao que costuma ser silenciado.

No fim, “a ciência da compaixão” é uma recusa ativa da indiferença. É dizer que a ciência não pode ser grande apenas em precisão; precisa ser grande em responsabilidade. Porque a dignidade humana e a integridade ambiental não são temas laterais, são o chão que permite que qualquer economia exista, que qualquer tecnologia funcione, que qualquer sociedade se sustente. Fazer pesquisa voltada ao desenvolvimento humano e ao desenvolvimento em escala ambiental não é utopia: é a forma mais concreta de realismo em um tempo em que o “progresso” rápido demais ameaça se tornar apenas uma palavra para justificar perdas irreparáveis.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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