Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Ancestralidade na Ciência

Afonso Peche Filho

Ancestralidade é a presença do passado na construção do presente e na responsabilidade pelo futuro. Reconhecê-la envolve compreender as origens, valorizar os saberes recebidos e examinar criticamente aquilo que precisa ser transformado. Aplicada à ciência, essa compreensão permite reconhecer que cada descoberta integra uma trajetória coletiva, construída por pessoas, instituições e sociedades que dedicaram trabalho, recursos e expectativas à produção do conhecimento.

Nesse sentido, a ancestralidade científica pode ser compreendida como uma herança intelectual, humana, material e ética. Ela se manifesta nas teorias que orientam perguntas, nos métodos que sustentam investigações, nas coleções preservadas e nas experiências transmitidas entre gerações. Também está presente na persistência de pesquisadores, técnicos e trabalhadores cujas contribuições nem sempre aparecem nas publicações, embora sustentem as condições necessárias para realizá-las.

Os institutos científicos são depositários dessa herança. Seus laboratórios, áreas experimentais, bibliotecas, arquivos e bancos de dados materializam investimentos acumulados durante décadas. Um experimento de longa duração, por exemplo, reúne observações que nenhuma decisão administrativa consegue recriar imediatamente. Sua continuidade permite compreender processos lentos e efeitos cumulativos. Interrompê-lo sem avaliação criteriosa pode significar perder uma possibilidade de conhecimento construída por várias gerações.

Por essa razão, dirigir uma instituição científica implica assumir uma responsabilidade que ultrapassa o período de uma gestão. O dirigente recebe sob seus cuidados um patrimônio coletivo e precisa criar condições para sua continuidade, atualização e utilidade social. Decisões sobre orçamento, contratação, infraestrutura e prioridades de pesquisa interferem diretamente naquilo que as próximas gerações poderão conhecer, investigar e oferecer à sociedade.

Essa responsabilidade exige discernimento diante das pressões por resultados imediatos, visibilidade e recursos. Parcerias podem ampliar a capacidade de investigação, desde que preservem a autonomia científica e a transparência. Cabe aos dirigentes avaliar se suas escolhas fortalecem a missão institucional, mantêm competências essenciais e respondem a necessidades coletivas. A obtenção de financiamento precisa caminhar com a responsabilidade pelas perguntas selecionadas e pelas consequências das soluções promovidas.

Aos pesquisadores cabe reconhecer as bases de seu próprio trabalho e contribuir para que elas permaneçam acessíveis. Citar corretamente, preservar registros, compartilhar procedimentos, formar sucessores e reconhecer colaboradores são expressões concretas desse compromisso. O conhecimento acumulado ganha continuidade quando pode ser compreendido, verificado e desenvolvido por outras pessoas. A experiência mantida exclusivamente na memória individual torna-se vulnerável à aposentadoria, ao afastamento ou à ausência de quem a detém.

Entretanto, reconhecer a ancestralidade também exige revisar a herança recebida. Métodos podem apresentar limitações, interpretações podem ser superadas e tecnologias anteriormente valorizadas podem revelar consequências indesejáveis. A fidelidade ao compromisso científico se expressa na disposição para investigar essas questões com rigor. Preservar a memória ajuda a compreender os caminhos percorridos e oferece condições para corrigir rumos sem apagar contribuições e responsabilidades.

Na pesquisa agrícola, esse compromisso adquire significado especial. Recomendações sobre solo, água, biodiversidade e sistemas produtivos podem produzir efeitos que atravessam gerações. Avaliar uma tecnologia exige considerar sua eficiência e também suas repercussões sobre a capacidade produtiva, a integridade dos ecossistemas e as condições de vida. O diálogo respeitoso com agricultores e comunidades permite reconhecer conhecimentos e experiências que participam dessa construção.

A ancestralidade na ciência convida, portanto, a uma pergunta orientadora: que condições de conhecimento e de vida nossas decisões deixarão para quem vier depois? Dirigentes, institutos e pesquisadores participam da resposta por meio de suas escolhas cotidianas. Honrar os antecessores significa cuidar do patrimônio recebido, examiná-lo com liberdade e ampliá-lo com responsabilidade. O legado científico se realiza quando o trabalho de uma geração oferece às seguintes melhores condições para compreender o mundo e cuidar dele.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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