Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Maria Elisa Zagatto: entre a ciência do milho e os desafios da agricultura contemporânea

Reconhecida pela Associação Brasileira de Milho e Sorgo (ABMS) durante a celebração de seus 40 anos, em setembro de 2026, a pesquisadora Maria Elisa Zagatto Paterniani, do Instituto Agronômico (IAC), construiu uma trajetória marcada pela dedicação ao estudo do milho e à pesquisa pública. Homenageada ao lado de outros nomes que contribuíram para a história da entidade — sendo a única mulher entre os agraciados —, ela destacou sua atuação na criação e consolidação da Revista Brasileira de Milho e Sorgo e sua participação em diferentes instâncias da Associação ao longo dos anos.

Engenheira agrônoma formada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), onde também concluiu mestrado e doutorado, Maria Elisa atua desde a década de 1990 no IAC, na área de genética e melhoramento vegetal. Sua pesquisa se concentra especialmente no milho, cultura que oferece uma chave de leitura para compreender transformações mais amplas na agricultura brasileira.

Ao longo de sua trajetória, a pesquisadora tem se dedicado tanto ao desenvolvimento de materiais mais produtivos quanto à preservação da diversidade genética da cultura, trabalhando com diferentes tipos de milho — como branco, verde, crioulo e ceroso. Essa diversidade é estratégica diante de mudanças ambientais e de novas demandas produtivas, especialmente em um cenário de maior frequência de eventos climáticos extremos.

Outro eixo de seu trabalho diz respeito ao acesso às sementes e à crescente concentração desse mercado. Seus estudos abordam alternativas de menor custo e o potencial de diferentes cultivares, aproximando a pesquisa científica de desafios concretos enfrentados por agricultores.

Nesta entrevista, Maria Elisa Zagatto fala sobre sua trajetória no IAC e discute o papel da ciência diante das transformações na agricultura e no meio ambiente.

APqC – Você foi recentemente homenageada pela Associação Brasileira de Milho e Sorgo (ABMS) nos 40 anos da entidade. O que esse reconhecimento representa em sua trajetória e como você vê sua relação com a Associação ao longo desses anos?

Maria Elisa – O reconhecimento pela ABMS foi algo que me tocou profundamente, por ter sido surpreendente; eu nunca pensei que um dia isso aconteceria. A ABMS é uma organização sem fins lucrativos que congrega profissionais que trabalham com as culturas de milho e sorgo, seja no setor público, privado, extensionistas, professores, pesquisadores etc., o que a torna extremamente interessante e relevante. A Associação preserva a sua história e está sendo reformulada, com mais integração e com a construção de uma comunidade científica mais conectada. A minha relação com a Associação sempre foi de muita cordialidade, competência e gentileza por parte das diretorias e de tantos colegas da Embrapa e de outras instituições que trabalham com milho e sorgo. E a homenagem veio num momento especial da minha aposentadoria no IAC. Sempre trabalhamos on-line, em reuniões, avaliações de artigos científicos, formação de chapas, ou nos reuníamos nos Congressos de Milho e Sorgo, de maneira produtiva e amistosa. Sou profundamente grata por esse reconhecimento! A cerimônia foi belíssima.

Você menciona, entre suas contribuições à ABMS, a participação na criação e consolidação da Revista Brasileira de Milho e Sorgo. Qual foi a importância dessa iniciativa para a área e para a circulação do conhecimento científico no Brasil?

Eu fui editora associada da RBMS por muitos anos, na área de Genética e Melhoramento de Milho. A RBMS tinha uma grande circulação nacional, uma vez que tratava exclusivamente de “milho” e “sorgo”. Não há no Brasil, e creio que no mundo, outro veículo que trate somente dessas duas culturas, daí a importância do periódico, que permite a troca de conhecimentos científicos entre pesquisadores, produtores, alunos de graduação e pós-graduação. Mais tarde, a RBMS (hoje denominada Internacional Jornal of Maize & Sorghum) começou a publicar também artigos em inglês, o que aumentou ainda mais o seu alcance em nível internacional.

Para quem não é da área, “Melhoramento Genético” pode parecer algo muito distante. Como você explicaria, de maneira simples, o que faz uma pesquisadora de melhoramento vegetal e como esse trabalho chega, concretamente, à vida do agricultor e da sociedade?

Eu sempre fui apaixonada pelo Melhoramento Genético, desde a primeira aula que tive na ESALQ. A definição antiga e muito bonita de Melhoramento Genético é “ciência e arte de selecionar plantas em benefício da humanidade”. Seleção é a palavra-chave e deve ser feita no campo. Uma pesquisadora dessa área tem inúmeras atividades: manter a coleção de trabalho ou banco de germoplasma da cultura; fazer cruzamentos e seleções para obter as combinações desejadas, por exemplo, visando à maior produtividade de grãos, tolerância a pragas e doenças, tolerância à seca, qualidade nutricional e outras características demandadas pelo mercado. Feitos os cruzamentos, os novos materiais são submetidos a ensaios de competição, em vários anos agrícolas e locais, para ver o comportamento dos híbridos ou variedades em diferentes condições de solo e clima, dada a diversidade que temos no nosso estado e no país. Isso exige um conhecimento amplo de estatística e experimentação, para que os ensaios tenham bastante precisão e permitam a seleção dos melhores materiais para as condições desejadas. Depois disso, o melhorista ainda tem que registrar a variedade ou híbrido no Mapa, para poder comercializar as sementes. É um processo trabalhoso e cheio de detalhes. Esse trabalho chega concretamente ao agricultor ou à sociedade da melhor maneira: são novas cultivares de plantas, de culturas que o povo consome, desde o café da manhã, o arroz e feijão, o milho, as hortaliças, todas as espécies utilizadas para alimentação e para gastronomia. Eu descrevi as atividades de um melhorista de campo, “raiz”, mas hoje temos também os métodos biotecnológicos, a biologia molecular e a genômica, que podem tornar os métodos de melhoramento mais eficientes e reduzir o tempo para a obtenção de novas variedades. Mas, na minha opinião, nenhum método é totalmente eficiente se não houver a seleção em campo, uma vez que existe a interação genótipo por ambiente, que faz com que diferentes materiais tenham comportamento relativo distinto em ambientes diferentes. As atividades exigem muito tempo e dedicação do melhorista; às vezes é extenuante estar no campo, mas extremamente compensador quando você vê o resultado do seu trabalho inserido no mercado, com a obtenção de novas cultivares comerciais. Também há a necessidade de uma contínua atualização de conhecimentos, técnicas e das demandas de mercado.

O Instituto Agronômico (IAC) mantém um patrimônio genético importante relacionado ao milho e outros grãos, incluindo variedades tradicionais e diferentes tipos de cultivares. Ao mesmo tempo, há um déficit de pesquisadores e técnicos. O que podemos perder, como sociedade, quando determinadas variedades deixam de ser cultivadas ou pesquisadas pela falta de concursos públicos e de investimentos?

O IAC tem um banco de germoplasma com grande variabilidade de tipos, como os milhos especiais, brancos, pipoca, pretos, crioulo, waxy etc., de grande importância para a alimentação humana e nutrição, bem como fontes de genes para resistência a doenças, pragas e estresses ambientais. Quando o foco é especificamente o patrimônio de sementes de milho (conservado nos chamados bancos de germoplasma), a destruição desse material é uma ameaça direta à soberania alimentar e à viabilidade da agricultura familiar. O milho é uma cultura de polinização aberta e altamente adaptável, o que significa que cada variedade antiga, crioula ou parente silvestre carrega uma “receita digital” única em seu DNA. Ao destruir um banco de sementes de milho, perde-se um patrimônio estratégico. Essas variedades guardam genes fundamentais para enfrentar desafios como secas, altas temperaturas e novas pragas — muitas vezes ausentes nos materiais comerciais. Além disso, os bancos de germoplasma são fontes importantes de resistência a doenças emergentes, como as transmitidas pela cigarrinha-do-milho, e preservam uma ampla diversidade nutricional e cultural, incluindo milhos especiais usados na alimentação e na gastronomia. Sem esse acervo, o país também perde autonomia científica. A produção agrícola passa a depender de um número restrito de sementes comerciais, controladas por grandes corporações, o que reduz as opções para agricultores e fragiliza a soberania alimentar.

Uma parte de sua pesquisa trata da tolerância do milho à seca. Diante das mudanças climáticas e da ocorrência cada vez mais frequente de períodos de estiagem e temperaturas extremas, quais são os limites e as possibilidades da ciência para tornar a agricultura mais preparada para esse cenário?

Acredito que, diante de um cenário extremamente preocupante de mudanças climáticas e aquecimento global, todas as instituições de pesquisa agrícola no mundo, na área de melhoramento, estão buscando novas cultivares com tolerância à seca ou déficit hídrico. Não é uma tarefa fácil, pois a herança da tolerância é complexa, governada por muitos genes e bastante influenciada pelo ambiente. Há um esforço para introduzir múltiplos genes de tolerância via edição gênica ou transgenia. Através do melhoramento convencional via seleção recorrente, é possível agrupar alelos favoráveis de tolerância à seca. O programa de melhoramento de milho do IAC desenvolveu uma variedade de milho tolerante à seca, que está em fase de registro, fruto de um projeto de pesquisa coordenado por mim há quase dez anos, que gerou algumas teses financiadas pela Fapesp e agora essa nova variedade. Sim, há um limite, e também é um trabalho multidisciplinar, que envolve fisiologia vegetal, estudos de água e solo etc. Nas plantas, o limite da temperatura alta proporciona abortos florais, falhas na polinização, má formação dos grãos etc. O limite maior, obviamente, poderá ser a falta de água no planeta…

O melhoramento genético costuma ser associado, no debate público, aos transgênicos. O que diferencia o trabalho realizado por uma instituição pública de pesquisa daquele orientado predominantemente pelo mercado?

Sim, desde a aprovação dos transgênicos houve uma propaganda excessiva e todo debate recorria aos OGMs. No caso do milho, cerca de 90% da produção, de cerca de 144 milhões de toneladas, é de milho transgênico, do agronegócio, principalmente tolerante à lagarta-do-cartucho e a herbicidas, garantindo maior qualidade das lavouras, menos praga e, consequentemente, maior produtividade. Mas esse valor se refere ao milho commodity, produzido em larga escala, padronizado, híbrido, de preço mais elevado e destinado principalmente para ração de aves e suínos, para inúmeras utilizações na indústria e agora também para biocombustível (etanol). Recentemente, o milho convencional (híbridos ou variedades não transgênicos) vem se revestindo de grande importância para suprir a agricultura familiar e atender às demandas de nichos de mercado de alimentação humana. A agricultura familiar é a base da segurança alimentar do Brasil e responde por 70% dos alimentos que chegam à mesa da população. Nesse contexto, as instituições públicas de pesquisa, como o IAC e a Embrapa, têm um papel fundamental de atender a um novo público, que não quer mais consumir transgênicos, inclusive com uma nova postura de agricultura orgânica, agroecologia, consumo de alimentos mais saudáveis e gastronomia. Apesar da pequena quantidade, esse papel de sustentabilidade agrícola e valorização da agricultura familiar é muito importante. O IAC tem um banco de germoplasma com grande variabilidade de tipos, como os milhos especiais, brancos, pipoca, pretos, crioulo, waxy etc., de grande importância para a alimentação e nutrição. A maioria das empresas multinacionais não tem variabilidade nem produz esses tipos de milho. É função do Estado atender a essa demanda de nichos de mercado de milhos especiais, bem como de outras culturas, com a pesquisa agrícola.

Ao longo de sua carreira, você acompanhou grandes transformações na ciência e na agricultura. O que mudou mais profundamente no trabalho de quem faz melhoramento vegetal — e quais avanços ainda considera necessários?

Eu tive toda a minha formação em melhoramento clássico, na ESALQ/USP e em genética quantitativa, que dão uma base forte para qualquer programa de melhoramento e levam a ganhos de seleção. Um programa leva vários anos, desde o início dos cruzamentos até o lançamento da cultivar comercial. Eu entrei no IAC em 1994, quando se iniciava a era dos marcadores moleculares (RAPD, RFLP, SSR, depois SNPs), que são ferramentas que auxiliam na seleção de genótipos superiores, na escolha dos parentais — que é um dos passos mais importantes do melhoramento —, bem como em estudos de filogenia, estrutura de populações etc. Assisti também à aprovação dos transgênicos no Brasil, à Lei de Proteção de Cultivares e à crescente limitação de informações e materiais entre empresas e instituições públicas. Agora estamos presenciando a crescente utilização de ferramentas computacionais para integrar dados da genômica com dados ambientais, bem como para predições de médias de híbridos, através de programas de computador e genética quantitativa. Os principais avanços necessários na área de melhoramento de plantas envolvem a integração de dados complexos, a aceleração de ciclos de seleção e a adaptação rápida a estresses climáticos extremos. Exemplos: Fenotipagem de alta precisão (desenvolver métodos rápidos e automatizados para medir características visíveis e funcionais das plantas em grande escala no campo); Tolerância a múltiplos estresses combinados (obter cultivares resistentes simultaneamente a secas severas, altas temperaturas e novas pragas decorrentes das mudanças climáticas); Edição gênica (técnicas que permitem alterar, remover ou adicionar pedaços específicos de DNA de uma planta); Aumento do ganho genético líquido (reduzir ainda mais o tempo entre o cruzamento inicial e o lançamento comercial de cultivares mais produtivas). Eu penso que todo esse avanço é importantíssimo do ponto de vista da ciência e da eficiência dos programas de melhoramento, mas não substituirá as avaliações de campo, uma vez que os estresses ambientais estão cada vez mais comuns, as estações totalmente indefinidas e novas pragas e doenças estão ocorrendo sem que haja materiais com genes de resistência. Assim, nada substituirá a seleção a campo; são complementares. Para finalizar, quando eu entrei no IAC, a nossa instituição centenária era a “Casa da Ciência do Melhoramento”. Assisti, infelizmente, à ruptura e até à extinção de muitos programas de melhoramento — de grãos, fibras, hortaliças, plantas medicinais e outras — por falecimento ou aposentadoria do melhorista e de outros pesquisadores. Hoje eu vejo o próprio Programa Milho sem um mínimo de pesquisadores e sem melhorista, devido à nossa aposentadoria. Há necessidade urgente de contratações no IAC, uma vez que o último concurso não supriu as faltas. Ainda resta uma esperança de que esse quadro de devastação da pesquisa pública seja modificado.

Você também tem uma trajetória importante na formação de novos pesquisadores. Quais são, na sua avaliação, os principais desafios para quem hoje decide seguir uma carreira na pesquisa científica no Brasil?

Eu orientei alunos de mestrado e doutorado na pós-graduação do IAC e participei de dezenas de bancas (32 de mestrado e 38 de doutorado) em universidades (na ESALQ/USP e na Unesp de Jaboticabal e Ilha Solteira — SP —, bem como em Lavras e Viçosa — MG). Alguns alunos e orientados são hoje colegas no IAC; outros são líderes em melhoramento em empresas privadas, como a Bayer e a Ingredion, e isso é extremamente gratificante. A dificuldade maior é para as mulheres, que ainda enfrentam desafios maiores que os colegas na área agronômica. Os egressos da pós-graduação hoje enfrentam desafios enormes, diante da crise que assola a pesquisa, principalmente no estado de São Paulo, que eu conheço. Seguir a carreira de pesquisa no Brasil hoje significa enfrentar um cenário de forte precarização estrutural, agravado pela lógica de desmonte dos serviços públicos e avanço de políticas neoliberais, como no estado de São Paulo. Os principais desafios enfrentados pelos novos pesquisadores refletem diretamente esse projeto político, como ameaça constante ao financiamento público: em São Paulo, principal polo de ciência do país, a gestão estadual tem promovido investidas contra a autonomia financeira de instituições centrais. Iniciativas e propostas que visam desvincular receitas orçamentárias ou drenar recursos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP) colocam em risco bolsas e projetos de longo prazo. Assisti também ao aumento das parcerias público-privadas e à criação do NIT IAC. Mais: precarização do trabalho e fuga de cérebros: a ausência de pesquisadores e técnicos, o congelamento de contratações via concurso público e os baixos salários, somados à falta de perspectiva de carreira estável, levam vários pesquisadores ao exterior, onde há a devida valorização; e ainda, o desmonte dos institutos de pesquisa públicos: a política de concessões, enxugamento do Estado e incentivo a parcerias público-privadas debilita a pesquisa nos institutos históricos paulistas, priorizando o corte de despesas. O maior obstáculo para o jovem pesquisador não é a complexidade do trabalho, mas a luta contra uma política de austeridade que trata a produção científica pública como gasto, em vez de motor de emancipação e desenvolvimento social.

Entrevista concedida a Bruno Ribeiro, da APqC, em 21/09/2026

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