Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Sarampo volta a avançar em São Paulo e expõe fragilidade da política de prevenção

Dados divulgados nesta semana indicam que o estado de São Paulo já soma 26 casos de sarampo confirmados em 2026, um salto expressivo em relação ao ano anterior, quando foram registrados apenas dois casos. A maioria dos infectados não estava vacinada ou tinha esquema incompleto, indicando uma queda preocupante na cobertura imunológica da população.

A situação é ainda mais grave quando se observa que a cobertura vacinal segue abaixo da meta de 95% recomendada, especialmente na segunda dose, o que abre espaço para a reintrodução de doenças que já haviam sido controladas . Especialistas e autoridades sanitárias alertam que esse cenário é resultado de um processo contínuo de erosão das políticas públicas de imunização.

Para a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), o atual surto não pode ser tratado como um episódio isolado. Trata-se de um sintoma claro da fragilidade da política de prevenção, agravado por anos de queda na cobertura vacinal e pela ausência de estratégias consistentes de longo prazo.

Resposta tardia e reativa

Diante do aumento dos casos, o governo estadual optou por ampliar emergencialmente a vacinação para pessoas de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal . A medida, embora necessária, revela o caráter reativo da gestão da saúde pública: a mobilização só ocorre quando a cadeia de transmissão já está em curso.

Campanhas intensivas, como o chamado “Dia D”, concentraram centenas de milhares de doses em um único fim de semana . No entanto, ações pontuais não substituem uma política estruturada e permanente de imunização, baseada na atenção básica e na capilaridade do sistema público de saúde.

Além da resposta tardia, o enfrentamento do surto também evidencia problemas de coordenação e comunicação. A concentração de casos em regiões específicas e a dependência de campanhas intensivas reforçam a percepção de que o acesso às vacinas não tem sido homogêneo, o que leva à desigualdades e lacunas na cobertura.

Um problema que vai além do sarampo

O recrudescimento do sarampo ocorre em um contexto mais amplo de desafios na saúde pública. A simultaneidade de diferentes alertas epidemiológicos e o desmonte gradual dos órgãos de vigilância – como a SUCEN – indicam um cenário de vulnerabilidade sanitária.

Para a APqC, esse quadro está diretamente relacionado à condução das políticas públicas no estado. Sob o governo Tarcísio de Freitas, a resposta ao surto de sarampo é insuficiente porque tem priorizado medidas emergenciais, que não enfrentam as causas estruturais.

O impacto duradouro do negacionismo científico e da desinformação sobre vacinas, amplamente disseminados no país a partir do governo Jair Bolsonaro, também não podem ser desconsiderados. A desconfiança em relação à vacinação, estimulada por fake news e discursos anticientíficos, contribuiu para a redução da adesão da população e para o enfraquecimento de uma das políticas públicas mais bem-sucedidas da história brasileira.

O retorno do sarampo em São Paulo é um alerta à população sobre a incapacidade de o governo estadual de sustentar políticas públicas eficazes de prevenção, baseadas na ciência e no fortalecimento do sistema público de saúde e pesquisa.

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