Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

A Dor Pungente

Afonso Peche Filho*

Há dores que não se anunciam em voz alta. Elas não fazem alarde, não ocupam manchetes, não se transformam imediatamente em discursos públicos. Permanecem recolhidas, silenciosas, quase discretas. São dores que se acumulam no íntimo de quem observa, trabalha, insiste e espera. Entre elas, existe uma dor particularmente pungente: a dor do pesquisador que ama sua instituição e sofre ao vê-la cambaleante.

A dor pungente não é apenas tristeza. É uma forma profunda de aflição, uma sensação que atravessa o pensamento e alcança a consciência profissional. Ela nasce quando o pesquisador percebe que seu compromisso com o conhecimento permanece vivo, mas o horizonte institucional parece cada vez mais incerto. Não se trata de desânimo passageiro, nem de simples contrariedade administrativa. Trata-se de uma dor mais íntima, ligada ao sentimento de pertencimento, à memória construída ao longo dos anos e à esperança de que a pesquisa continue sendo reconhecida como fundamento do desenvolvimento de um país.

O pesquisador não sofre apenas por si. Sofre pela história que ajudou a construir, pelos laboratórios que viu nascer, pelos campos experimentais que acompanhou, pelos colegas que partiram, pelos jovens que poderiam chegar e pelas perguntas científicas que ainda aguardam resposta. Sofre porque sabe que uma instituição de pesquisa não é apenas um conjunto de prédios, cargos, projetos e relatórios. É uma casa de inteligência coletiva. É um organismo vivo, formado por pessoas que dedicam tempo, energia e sensibilidade para transformar dúvidas em conhecimento, problemas em soluções e observações em caminhos para a sociedade.

A falta de perspectivas em relação às políticas de investimento na pesquisa produz uma tristeza difícil de explicar. Não é uma tristeza ruidosa. É uma tristeza que se instala na rotina, no gesto de abrir uma sala, no olhar sobre equipamentos envelhecidos, na dificuldade de planejar o futuro, na sensação de que o esforço de muitos anos pode ser tratado como algo secundário. O pesquisador continua trabalhando, mas carrega dentro de si a pergunta que mais dói: até quando será possível sustentar a missão científica sem o devido reconhecimento?

Essa dor é pungente porque fere justamente onde existe amor. Quem não ama uma instituição talvez veja apenas sua crise externa. Mas quem a ama percebe seus sinais internos: a perda de vigor, a insegurança, o enfraquecimento da continuidade, a dificuldade de renovar quadros, ideias e projetos. O pesquisador sente a instituição como parte de sua própria vida. Por isso, vê-la cambalear é também sentir oscilar uma parte de sua própria história.

Ainda assim, essa dor não deve ser confundida com desistência. Muitas vezes, ela é justamente a prova de que ainda existe compromisso. Dói porque importa. Dói porque há memória, responsabilidade e esperança. Dói porque o pesquisador sabe que a ciência pública não é luxo, nem ornamento institucional. É base estratégica para a agricultura, para o ambiente, para a saúde, para a educação, para a soberania e para o futuro.

A dor pungente do pesquisador é, portanto, uma dor ética. Ela nasce do contraste entre a grandeza da missão científica e a fragilidade das condições oferecidas para realizá-la. É uma dor que não pede compaixão, mas consciência. Não busca lamento, mas reconhecimento. Não deseja privilégios, mas horizonte.

Talvez todo pesquisador que ama profundamente sua instituição carregue, em algum momento, essa dor silenciosa. Uma dor que aperta, que atravessa, que insiste. Mas também uma dor que revela a permanência de um vínculo. Enquanto ela existir, ainda haverá quem se importe. E enquanto houver quem se importe, a instituição, mesmo cambaleante, ainda guardará dentro de si uma força essencial: a de continuar merecendo futuro.

*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC

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