
A trajetória da pesquisadora científica Márcia Maria Rebouças se confunde com a própria história do Instituto Biológico e com a consolidação da pesquisa pública no Estado de São Paulo. Ao longo de mais de cinco décadas de atuação, sua carreira foi marcada não apenas pela produção científica, mas também por um profundo compromisso com a instituição, com a formação de novos pesquisadores e com a preservação da memória da ciência brasileira.
Nascida em São Paulo, em 1941, Márcia ingressou no Instituto Biológico em 1958, ainda jovem, iniciando suas atividades como estagiária. Desde os primeiros anos, demonstrou dedicação e disposição para o aprendizado, características que seriam determinantes em sua trajetória. Sua formação acadêmica foi construída paralelamente ao trabalho: já inserida na rotina da pesquisa, formou-se em Ciências Biológicas em 1983, conciliando estudo, atividade profissional e responsabilidades familiares.
Sua carreira se desenvolveu, inicialmente, na área de Parasitologia Animal, onde atuou como técnica de laboratório e, a partir de 1988, como pesquisadora científica. Nesse campo, trabalhou com entomologia e protozoologia, integrando equipes e contribuindo para o desenvolvimento de pesquisas aplicadas à sanidade animal. Ao mesmo tempo, destacou-se pela atuação na formação de recursos humanos, tendo orientado cerca de 150 estagiários e participado da formação de estudantes de diferentes níveis.
Ao longo de sua vida profissional, Márcia também exerceu papel relevante na organização e fortalecimento institucional. Coordenou programas de iniciação científica, cursos e projetos de pesquisa, muitos deles financiados por agências como a FAPESP, além de atuar na realização de eventos científicos e na articulação entre pesquisadores, estudantes e a sociedade. Foi uma das idealizadoras da Reunião Anual do Instituto Biológico (RAIB), iniciativa que se consolidou como importante espaço de intercâmbio científico.
Outro eixo fundamental de sua atuação foi a preservação da memória institucional. Sensível à importância do registro histórico da ciência, dedicou-se à coleta, organização e conservação de documentos, fotografias e acervos científicos. Esse trabalho resultou na criação do Centro de Memória do Instituto Biológico, inaugurado em 2007, hoje referência na salvaguarda da história da pesquisa científica no país. Sua atuação nesse campo evidencia a compreensão de que a ciência se constrói também a partir da preservação de sua própria trajetória.
Na área editorial, Márcia contribuiu para a consolidação e a ampliação de periódicos científicos, atuando na retomada e modernização de publicações do Instituto Biológico. Também se destacou como autora de livros voltados à história da instituição e de seus pesquisadores, contribuindo para o reconhecimento de personagens fundamentais da ciência brasileira.
Além das atividades científicas e acadêmicas, sua trajetória é marcada por forte engajamento institucional e humano. Atuou em entidades representativas, como a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), da qual foi presidente no biênio 2002-2003, e participou ativamente de iniciativas voltadas à valorização dos servidores, à promoção de atividades culturais e à defesa do Instituto Biológico em momentos de ameaça.
Aposentada em 2011, após mais de 50 anos de dedicação ao serviço público, Márcia continua em atividade, colaborando com o Centro de Memória, participando de projetos e contribuindo com a produção e a difusão do conhecimento. Sua trajetória expressa, de forma exemplar, o papel do pesquisador científico como agente de produção de conhecimento, de formação de pessoas e de defesa das instituições públicas.
Ela falou com a APqC sobre estes e outros assuntos.
A senhora ingressou muito jovem no Instituto Biológico. O que a despertou para seguir a carreira científica e como foi o primeiro contato com a instituição em que viria a trabalhar?
Minha irmã, Maria Helena Rebouças era bolsista do CNPq no Laboratório de Parasitologia Animal no Instituto Biológico. Ela estudava Biologia na USP. Eu gostava das coisas que ela falava sobre o Laboratório onde trabalhava. Com 18 anos fui estagiar na Seção de Desenho pois sempre gostei de desenhar. Tinha 21 anos quando houve um concurso para Técnica de Laboratório. Fui aprovada para exercer esse cargo na Seção de Parasitologia Animal
Sua formação acadêmica foi construída paralelamente ao trabalho. Quais foram os principais desafios desse percurso e como eles moldaram sua trajetória profissional?
Os desafios eram muitos. Tinha que tomar conta de três irmãos menores pois, minha mãe foi trabalhar quando meu pais faleceu em 1956. Eu trabalhava meio período durante a semana e completava meu trabalho nos fins de semana. Como Técnica de Laboratório fui treinada e estudava muito. Depois quando estavam maiores, comecei a trabalhar no período integral. Mas, minha mãe resolveu fazer Direito e entrou na faculdade do Largo São Francisco. Trabalhava no Tribunal de Justiça do Trabalho durante o dia e à noite fazia Faculdade. Se formou aos 64 anos, ela era uma guerreira. Depois de muitos percalços na minha vida cotidiana pude estudar à noite e me formei aos 43 anos. Tive muita sorte pois, logo prestei concurso para Bióloga e, mais adiante, entrei na Carreira de Pesquisador Científico.
A Parasitologia Animal foi uma área central em sua carreira. Quais foram as pesquisas ou experiências mais marcantes que a senhora desenvolveu nesse campo?
Minha área de pesquisa era eclética. Trabalhava com a espécide Eimeria em suínos, bovinos e caprinos. Trabalhava também com com Tripanosso equino, equiperdum, Toxoplasma gondi em cultura de tecidos de coração de macaco. e mantinha esse parasitas em camundongos. Trabalhava também com ácaros parasitas de orelhas de búfalos, com as famílias Rhinonyssidae e Erenettidae parasitas de foças nasais de aves, ectoparasitas como sarnas, etc. Trabalhei com Tritrichonas foetus.. Naquele tempo não se trabalhava com somente uma espécie de parasita. Tive grandes metres Como Maria Pereira de Castro, Vicente do Amaral. Tive também colegas que me davam o apoio necessário para tocar a minha vida científica como Leila G. Barci, Elizabetj Spósito Filha, Sueli Moda, Sylvio Marci Santos, Sueli Moda e Flávio Luis Fenerich e além do Sr. Alberto Ruffato.
Sua atuação foi decisiva para a criação do Centro de Memória do Instituto Biológico. De onde surgiu esse interesse pela preservação da história da ciência?
Eu sempre me interessei por documentos que falavam sobre a vida de cientistas. Então, sempre que achava uma sala com pilhas de papeis, perguntava de quem era e me informavam que uma viúva ou um viúvo de pesquisadores haviam deixado eu os pegava e guardava em minha sala. Assim foi passando os anos e cada vez mais documentos eram aliados aos outros. Quando fui Diretora do Centro de Comunicação arrumei uma sala e lá os guardava com muito carinho. Em 2007, um laboratório foi fechado por ausência de funcionários e o Diretor à época, Dr. Antonio Batista Filho, por sugestão da Dra. Simone Bacilieri que era a Diretora do Centro de Comunicação à época, conseguimos a área. Nesse tempo eu era Diretora do Museu e com vários projetos aprovados junto à FAPESP reformei o Museu e adaptei o Centro para melhor adequá-lo para os objetivos propostos – o Centro de Memória. Há de se dizer que o Centro de Memória não somente guarda documentos antigos pois, no correr dos anos, envio aos pesquisadores, um questionário para que os preencham. Com esse questionário preenchido desenvolvo um texto que atende o questionário enviado. Assim, vários pesquisadores têm seus documentos guardados e publicados em “Nossa Gente”, junto ao Centro de Memória. Quem me ajudou a montar o Centro de Memória foi a Dra. Simone Bacilieri. Pessoa de dedicação exemplar, Bióloga também. Em 1995 a Diretora Geral Zuleide Alves Ramiro me chamou na Diretoria Geral para que eu fosse Editora Executiva das revistas O Biológico anual, Arquivos que era bimestral do Instituto Biológico e dos Boletins Técnicos. Fui à luta, era um compromisso desafiante pois, as revistas estavam paradas desde 1992. Eu tinha como parceiros Simone e Eli Carvalho Rosa. Eu morava naquele tempo próximo ao Autódromo de Interlagos. Mas, como o desafio era cumprir o meu aceite, passava a semana inteira até quase 8 horas da noite e, aos sábados o mesmo horário para colocar as revistas em dia. E consegui, graças a pessoas que me eternizaram em minha labuta. Tínhamos tantos trabalhos que eram enviados pelos pesquisadores de dentro e de fora da instituição para a Revista Arquivos que resolvemos passar para 4 volumes/ano e ainda, em 2002 passamos a Revista também para on-line com a ajuda de dois pesquisadores, Drs, João Justi Junior e Marcos Roberto Potenza que financiaram a revista on-line. Além disso com a aprovação do Dr. Batista criamos a Revista “Páginas do Instituto Biológico” em 2006 dedicada a trabalhos de Centros de Memória.. O nome da Revista foi escolhido pelo pesquisador Dr. Valmir Costa.
A senhora aposentou-se em 2011, após mais de 50 anos de dedicação ao serviço público, mas manteve-se em atividade, colaborando com o Centro de Memória, participando de projetos e contribuindo com a produção e difusão do conhecimento. O que a motiva a continuar trabalhando?
Aposentei-me porque fui obrigada. Mas, meu lema foi sempre tentar descobrir o escondido. Não contei nem a metade do que fiz nesta instituição. Sem modéstia nenhuma. Estou com 84 anos e quero viver outro tanto para colaborar nesta instituição que amo tanto. Minha vida é minha família e o Instituto Biológico.
Sua trajetória revela um forte compromisso com a dimensão humana do trabalho científico. Como a senhora enxerga a relação entre ciência, coletividade e responsabilidade social?
Somos todos responsáveis pela sociedade. Dela fazemos parte e devemos sustentá-la com o conhecimento que temos, acolhe-la durante o tempo que fizemos ciência e deixar nossas impressões marcadas no dia-a-dia. Por esse motivo criamos “O Instituto Biológico de Porta Abertas”, hoje na trigésima sexta edição. Por esses motivos lutamos ferozmente em 1995, contra a venda de nossa instituição. Somos aguerridos em nossa essência. De que forma a falta de investimentos em pesquisas e em recursos humanos dentro dos institutos, especialmente no Instituto Biológico, podem comprometer estudos em andamento? Esse assunto é por demais desesperador. Os pesquisadores de uma forma ou de outra, com recursos via fundações continuam suas pesquisas com galhardia. O que nos causa transtornos muitas vezes irreparáveis é a falta de funcionários e pesquisadores. O momento da aposentadoria chega e, às vezes até que muitos pesquisadores não aposentam quando chega o seu tempo, mas o aposentar é inevitável. Nesse momento o assunto de pesquisa, sofre um colapso se não temos ninguém para levar adiante o assunto que rola nos tempos, dando resultados dos mais promissores, a falta de alguém é muito triste. Fico sem palavras.
A senhora deixa um legado importante em sua área de atuação. Como gostaria de ser lembrada pelos seus pares?
Simplesmente, ela não esqueceu de trabalhar.
Entrevista concedida a Bruno Ribeiro em 23 de abril de 2026