Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

IAC: Passado, Presente e Futuro – Entrevista com Carlos Jorge Rossetto

Carlos Jorge Rossetto, 86 anos, é engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e pesquisador científico aposentado do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), onde atuou por 48 anos, entre 1961 e 2009. Ingressou no Instituto em 17 de dezembro de 1961 e aposentou-se quatro dias antes da compulsória, após uma trajetória marcada pela excelência científica e pela defesa intransigente da pesquisa pública.

Com formação internacional — mestrado pela Kansas State University, orientado por Reginald H. Painter, referência mundial em resistência de plantas a insetos, e pós-doutorado na Iowa State University — Rossetto iniciou sua carreira como entomologista e a concluiu como melhorista vegetal. Tornou-se um dos principais nomes da resistência varietal no Brasil, com ênfase no desenvolvimento de cultivares produtivas, de alta qualidade e com resistência múltipla a pragas e moléstias, adequadas à agricultura orgânica e à redução do uso de agrotóxicos.

Ao longo da carreira, publicou 76 artigos em periódicos científicos, 155 trabalhos em anais de eventos, cinco capítulos de livros e diversos trabalhos técnicos, além de orientar dissertações e teses de pós-graduação. Entre seus principais resultados técnicos destacam-se a cultivar de soja IAC 100, lançada em 1989, referência internacional em resistência a insetos e utilizada como fonte genética inclusive em programas de melhoramento nos Estados Unidos, e a cultivar de manga IAC 136 Poranga, obtida em 2008, resistente a importantes doenças e pragas.

Professor convidado da USP/Piracicaba, Rossetto contribuiu para a implantação do mestrado e doutorado em Entomologia e foi responsável pela introdução, no Brasil, da disciplina Resistência de Plantas aos Insetos, consolidando uma área estratégica para o manejo integrado de pragas. Em 2011, recebeu homenagem da Comissão Permanente do Regime de Tempo Integral (CPRTI) ao atingir a pontuação máxima da carreira de pesquisador científico.

Além da atuação acadêmica, Rossetto tem papel central na história institucional da ciência paulista. É fundador da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), da Sociedade Protetora da Diversidade das Espécies (PROESP) e da Associação de Agricultura Orgânica (AAO). Como dirigente e intelectual público, tornou-se uma das vozes mais consistentes na denúncia do desmonte dos institutos de pesquisa e na crítica à privatização dos resultados da ciência pública.

Autor da carta pública “O desmonte do Instituto Agronômico de Campinas” (2015) e de artigos recentes sobre a tentativa de venda de áreas da Fazenda Santa Elisa, Rossetto sustenta que a pesquisa pública tem papel social e ambiental insubstituível e que sua fragilização compromete o interesse coletivo. Segue sendo uma referência científica, histórica e política na defesa do IAC, da APqC e da ciência pública brasileira.

Carlos Rossetto concedeu entrevista no dia 16 de março de 2026 ao jornalista Bruno Ribeiro, da APqC, em um depoimento abrangente que percorre mais de seis décadas de atuação na pesquisa pública brasileira. Ao revisitar sua trajetória, o pesquisador destaca o papel estratégico do melhoramento genético — especialmente no desenvolvimento de cultivares resistentes a pragas e doenças — como condição fundamental para uma agricultura menos dependente de insumos químicos e mais alinhada aos princípios da sustentabilidade. Ao mesmo tempo, chama atenção para o que define como um “solo-centrismo” presente em parte das correntes da agricultura orgânica, defendendo que a genética das espécies cultivadas deve ocupar lugar central na definição dos sistemas produtivos.

A entrevista também recupera episódios históricos decisivos para a ciência paulista, como as tentativas de reconfiguração institucional do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) desde a década de 1970. Rossetto analisa criticamente propostas de redução do papel do Instituto e alerta para a permanência de projetos que, sob diferentes ձևulações, resultariam no enfraquecimento de sua capacidade de gerar tecnologia para a diversidade agrícola brasileira. Nesse contexto, a Fazenda Santa Elisa é apresentada como um patrimônio estratégico — científico, ambiental e social — cuja preservação se vincula diretamente à manutenção de uma pesquisa pública forte, diversificada e comprometida com o interesse coletivo.

Ao abordar o cenário atual, o pesquisador é enfático ao apontar a desorganização estrutural da ciência e tecnologia no Brasil como um dos principais entraves ao seu desenvolvimento. Defende a necessidade de mudanças constitucionais que fortaleçam a autonomia e a integração entre universidades e institutos de pesquisa, incluindo a criação de mecanismos permanentes de planejamento, acompanhamento e avaliação, como planos quinquenais articulados em âmbito estadual e nacional. Propõe ainda o fortalecimento institucional de órgãos como o CNPq e a FAPESP, além da criação de estruturas capazes de coordenar, de forma sistêmica, os institutos de pesquisa, hoje fragmentados em diferentes secretarias.

Mais do que um diagnóstico, a entrevista apresenta um conjunto detalhado de propostas para a reconstrução e o fortalecimento da ciência como política de Estado, articulando experiência histórica, reflexão crítica e ações concretas de organização institucional. Trata-se de um registro extenso, cuja riqueza de informações e argumentos reflete não apenas a densidade do tema, mas também a importância de preservar a memória de um pesquisador que dedicou sua vida ao serviço público e à construção da ciência brasileira.

Leia a entrevista na íntegra clicando neste link.

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