Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Técnicos de apoio: o alicerce silencioso dos institutos públicos de São Paulo

A produção de ciência no setor público paulista encontra-se em uma encruzilhada preocupante. Institutos públicos de pesquisa que foram referência nacional e internacional enfrentam uma defasagem histórica em seus quadros de pessoal, com impactos diretos na capacidade de gerar conhecimento, responder a desafios de saúde pública, alimentar e ambiental, e formar recursos humanos qualificados.

Um levantamento da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) mostra que os institutos estaduais de pesquisa somam milhares de cargos vagos nas carreiras de pesquisador, assistente técnico e apoio à pesquisa. Até 2022, havia quase 8 mil postos vagos, representando cerca de 78,6% do total de mais de 10 mil cargos previstos em lei, na rede dos institutos públicos do Estado, quadro que reflete o esvaziamento estrutural da ciência pública paulista.

No centro dessa discussão estão profissionais cujo trabalho muitas vezes passa despercebido, apesar de ser absolutamente fundamental para o desenvolvimento dos institutos: os técnicos de apoio à pesquisa científica e tecnológica. Esses servidores garantem a rotina dos laboratórios, sustentam análises complexas, apoiam pesquisadores e participam da formação de novas gerações de cientistas — papel que se torna ainda mais crucial diante do quadro de carência de pessoal especializado.

Como exemplo dessa dedicação, duas trajetórias se destacam no contexto paulista. Francisco de Assis Leitão Moraes, o Chico de Assis, servidor público do IAC há mais de 50 anos, permanece ativo apesar da idade, guardando e cultivando as coleções botânicas que sustentam pesquisas e iniciativas de educação ambiental, e expressa, com senso de dever coletivo, o compromisso social que deve marcar o serviço público. De maneira semelhante, Giselle Ibette Silva Lopes, bióloga e técnica com mais de três décadas de carreira no Instituto Adolfo Lutz, é responsável por atividades essenciais em áreas como genotipagem de HIV e biossegurança, consolidando práticas que ampliam a capacidade de resposta do Instituto em saúde pública.

Esses profissionais simbolizam a importância dos técnicos de apoio à pesquisa científica, categorias cujo trabalho, embora muitas vezes invisível, é estruturante para a produção de ciência pública de qualidade. Eles personificam o compromisso social e científico que sustenta institutos que fazem história no Brasil, mesmo em um contexto de baixos investimentos em pessoal e de pouca visibilidade institucional para suas carreiras.

Chico de Assis: um patrimônio vivo do Instituto Agronômico de Campinas

Aos 74 anos, Francisco de Assis Leitão Moraes, o Chico de Assis, segue diariamente pelos caminhos verdes do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) com a mesma responsabilidade de quem sabe que cuida de algo que não lhe pertence individualmente, mas à sociedade. Servidor de apoio do Instituto desde os 23 anos de idade, Chico soma mais de cinco décadas de dedicação ao IAC — uma trajetória que se confunde com a própria história recente da instituição.

Chico ainda não se aposentou. Não por apego pessoal ao trabalho, como ele próprio faz questão de frisar, mas por compromisso com a coletividade. Diz que espera encontrar alguém que possa dar continuidade ao trabalho que desempenha. “Não é amor ao que faço, é responsabilidade com a sociedade”, costuma afirmar. Essa postura sintetiza o sentido mais profundo do serviço público: estar a serviço do bem comum.

No IAC, Chico é conhecido como o guardião do jardim da sede, um espaço que abriga uma riqueza inestimável de espécies vegetais e árvores nativas do Brasil. Não se trata de um jardim ornamental comum. Para ele, cuidar das plantas do Instituto — incluindo aquelas mantidas em estufas e utilizadas em pesquisas científicas — é tarefa que exige conhecimento técnico, sensibilidade e profundo respeito à vida. “Não é a mesma coisa que cuidar de um jardim de shopping”, diz. O espaço funciona, na prática, como um jardim botânico, integrado à produção científica e à preservação ambiental.

Figura discreta e, muitas vezes, solitária, Chico acumula funções e carrega consigo um forte senso de dever. Seu trabalho silencioso sustenta pesquisas, conserva patrimônio genético e mantém viva uma relação entre ciência e natureza que não aparece nos relatórios, mas é indispensável para que a pesquisa aconteça. É o retrato do técnico de apoio que trabalha à sombra, mas sem o qual a ciência simplesmente não se sustenta.

Essa consciência coletiva também se expressa na sua atuação política e associativa. Chico foi presidente da ASSIAC (Associação dos Servidores do Instituto Agronômico de Campinas), entidade que existe até hoje e defende os interesses dos servidores do Instituto. Para ele, os técnicos de apoio ocupam um lugar essencial dentro dos institutos de pesquisa, embora sejam frequentemente invisibilizados. “Desde a década de 1990, os institutos enfrentam dificuldades estruturais”, afirma, apontando a falta de concursos públicos e a desvalorização das carreiras de apoio como problemas crônicos.

Paralelamente ao trabalho cotidiano no Instituto, Chico é um dos fundadores da Associação dos Amigos do Jardim Botânico do IAC, criada em 2005. A entidade desenvolve projetos de educação ambiental e implantação de coleções botânicas em escolas, áreas públicas e instituições, levando conhecimento científico e consciência ecológica para além dos muros do Instituto. Iniciativas como o programa “O Jardim Botânico vai à Escola” ajudaram a aproximar crianças e comunidades da natureza, reforçando a ideia de que conhecer é o primeiro passo para preservar.

Reconhecido por essa trajetória, Chico de Assis foi agraciado, em 2025, com a Medalha Chico Mendes, concedida pelo município de Campinas, em cerimônia realizada na Câmara Municipal, por iniciativa da vereadora Débora Palermo. A homenagem reconhece não apenas sua atuação ambiental, mas uma vida inteira dedicada à educação, à preservação e ao serviço público.

Não por acaso, Chico gosta de citar Frans Krajcberg, artista e defensor da natureza, polonês naturalizado brasileiro, conhecido como um verdadeiro “guerreiro da natureza”. Krajcberg transformava troncos queimados e restos de árvores em obras de arte como denúncia da destruição ambiental. Uma de suas frases preferidas ecoa no discurso de Chico: “Tudo que nasce neste mundo tem o direito de viver.” É uma ideia que atravessa sua prática diária e sua visão de mundo.

A trajetória de Francisco de Assis Leitão Moraes expõe uma das faces mais preocupantes do desmonte dos institutos públicos de pesquisa: a ausência de políticas de reposição e de valorização dos quadros técnicos. Guardião de um patrimônio vivo e acumulando funções em um cenário de carência crônica de pessoal, Chico de Assis segue ativo não por apego individual ao trabalho, mas por compromisso com a coletividade e com a continuidade das atividades que sustentam a pesquisa científica no IAC.

A pergunta que se impõe é inevitável: quando Chico de Assis não estiver mais ali, quem ocupará o seu lugar? Quem cuidará das coleções botânicas que alimentam pesquisas e preservam a biodiversidade? Hoje não há substituto preparado, nem concursos públicos que assegurem a transmissão desse conhecimento acumulado ao longo de décadas.

Nesse cenário, a ausência de um servidor como Chico não representa apenas uma lacuna funcional, mas uma perda institucional profunda. Perde o IAC, mas perde também a sociedade, que deixa de se beneficiar de um trabalho público comprometido com o conhecimento, o meio ambiente e o interesse coletivo. Mais do que um servidor, Chico de Assis é dono de uma trajetória que evidencia o papel estratégico dos técnicos de apoio à pesquisa.

Giselle Ibette Silva Lopes: três décadas de contribuição ao Instituto Adolfo Lutz

A história profissional de Giselle Ibette Silva Lopes se confunde com o próprio cotidiano do Instituto Adolfo Lutz (IAL). Bióloga, técnica de apoio à pesquisa e servidora pública há mais de três décadas, Giselle construiu uma trajetória marcada pela dedicação silenciosa, pela qualificação constante e pelo compromisso com a ciência pública e com a saúde coletiva. Aos 61 anos, soma 32 anos de atuação no Instituto, tendo participado diretamente de atividades estratégicas nas áreas de microbiologia alimentar, virologia e genotipagem do HIV.

Formada em Biologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em 1989, Giselle iniciou sua trajetória profissional ainda em 1984, na Divisão de Bromatologia e Química, no Laboratório de Microbiologia de Alimentos. Ingressou no IAL como Técnica de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica e, desde o início, desempenhou funções que iam muito além da rotina de bancada. Atuou como perita em análises de contraprova, realizou bioensaios em camundongos para detecção de Clostridium botulinum em alimentos e participou de ensaios para avaliação da eficiência de filtros de água — atividades altamente especializadas e realizadas por poucos profissionais à época.

O laboratório onde trabalhava é referência nacional na detecção de toxina botulínica, o que exigia rigor técnico, responsabilidade institucional e formação específica. Para isso, Giselle realizou cursos em biotério no Instituto Butantan e na Faculdade de Medicina da USP, no contexto do credenciamento do serviço junto à Anvisa e ao Ministério da Saúde. Essa formação a habilitou a assumir, junto à chefia, responsabilidades diretas na interlocução com serviços de saúde, na orientação sobre a qualidade das amostras recebidas, na análise das solicitações e na definição dos testes laboratoriais mais adequados.

Incentivada desde cedo à formação continuada, Giselle buscou qualificação acadêmica ao longo da carreira. Concluiu especialização em Educação em Saúde Pública, pela UNAERP, em 1995, mestrado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em 2001, e especialização em Auditorias de Serviços de Saúde, pela Unicsul, em 2011. Paralelamente, participou de forma ativa da produção científica do Instituto, integrando equipes de pesquisa e colaborando em publicações nacionais e internacionais.

Após 13 anos no Laboratório de Microbiologia de Alimentos, ingressou, por concurso, na carreira de Assistente Técnico de Pesquisa Científica e Tecnológica (Lei 662/91) e passou a atuar no Centro de Virologia, no Laboratório de Retrovírus. Ali, assumiu a responsabilidade técnica pelo Programa de Genotipagem do HIV, função que exerceu por mais de 15 anos, até a privatização do serviço. Seu trabalho envolvia desde a análise e o controle de qualidade das sequências genéticas até a submissão de dados a plataformas internacionais de interpretação de mutações de resistência aos antirretrovirais, além do suporte técnico direto a médicos da rede pública de saúde.

Nesse período, participou de estudos de grande relevância científica, com trabalhos publicados em revistas de destaque e apresentados em congressos no Brasil e no exterior. Dois desses estudos receberam bolsas integrais para apresentação oral na conferência internacional AIDS, realizada em Viena, na Áustria. Giselle também integrou os projetos RENIC-1 e RENIC-2, da Rede Nacional de Genotipagem do HIV, coordenados pela Fiocruz, contribuindo para a descrição do perfil de resistência aos medicamentos utilizados no Brasil.

Sua atuação, no entanto, nunca se restringiu à pesquisa. Giselle teve papel importante na formação de novos quadros, lecionando na especialização e na pós-graduação do Centro de Controle de Doenças (CCD) e treinando alunos, estagiários e médicos residentes do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Mantém ainda um banco de dados com mais de 17 mil amostras, que subsidia inúmeros estudos desenvolvidos em parceria com instituições públicas de saúde.

No plano institucional, atuou como Auditora Interna da Qualidade e Biossegurança, foi membro da Comissão de Ética no Uso de Animais e, desde o início de sua carreira, integra a Comissão de Saúde do Trabalhador do IAL, promovendo ações de educação permanente, como a Semana Interna de Saúde e Segurança do Trabalhador.

Em um contexto marcado pela redução de quadros, pela ausência de concursos públicos e pela sobrecarga dos servidores remanescentes, a trajetória de Giselle evidencia que o conhecimento técnico acumulado ao longo dos anos é um patrimônio institucional insubstituível. Sua história reforça o alerta feito pela APqC: desvalorizar os técnicos de apoio é comprometer não apenas o trabalho dos pesquisadores, mas a própria excelência dos institutos públicos de pesquisa.

Bruno Ribeiro, para a APqC

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