
Afonso Peche Filho*
O mito de Prometeu atravessa os séculos como uma alegoria incômoda sobre o destino do conhecimento quando ele deixa de servir apenas ao poder e passa a emancipar os que vivem à margem. Ao roubar o fogo dos deuses e entregá-lo à humanidade, Prometeu inaugura uma ruptura: o saber deixa de ser monopólio do Olimpo e passa a sustentar a vida concreta, cotidiana, técnica e cultural dos humanos. O castigo imposto a ele, a dor cíclica, a punição exemplar, a vigilância permanente, não é apenas um ato de vingança divina, mas um aviso simbólico: o conhecimento que altera relações de poder será sempre controlado, apropriado ou punido.
Na ciência moderna, especialmente a partir do século XX, o “fogo” prometeico assume a forma de métodos, tecnologias, insumos, processos e sistemas de produção. No entanto, diferentemente da promessa original de emancipação, esse fogo passa a ser progressivamente capturado por uma lógica de mercado globalizado, concentrado nos países industrializados. O que se apresenta como avanço científico universal é, muitas vezes, ciência produzida para atender a interesses econômicos específicos, estruturada para mercados externos e, posteriormente, transferida aos países tropicais como pacotes tecnológicos prontos, raramente dialogados com seus contextos ecológicos, sociais e culturais.
Nesse cenário, o castigo de Prometeu se atualiza. Não mais na figura do titã acorrentado, mas na condição estrutural de dependência científica. Países tropicais, ricos em biodiversidade, diversidade climática e complexidade ecológica, tornam-se usuários recorrentes de ciência produzida fora de seus territórios. Importam sementes, insumos, máquinas, modelos de manejo, protocolos de pesquisa e até agendas científicas. O conhecimento deixa de emergir da leitura do lugar e passa a ser consumido como produto. O fígado devorado diariamente simboliza o esforço contínuo de adaptação de tecnologias inadequadas, os custos ambientais acumulados, a perda de autonomia e o enfraquecimento das capacidades locais de pensar, criar e inovar.
A influência poderosa do mercado sobre a produção científica redefine prioridades. Pesquisas passam a ser avaliadas mais por seu potencial de retorno financeiro do que por sua capacidade de resolver problemas estruturais dos territórios. Nos trópicos, isso se traduz em sistemas produtivos dependentes de altos níveis de insumos externos, com baixa resiliência ecológica e forte vulnerabilidade econômica. A ciência, que poderia atuar como instrumento de emancipação territorial, converte-se em vetor de padronização e simplificação dos sistemas vivos, ignorando a complexidade dos solos tropicais, dos regimes hídricos, da biodiversidade funcional e das culturas locais.
Esse processo não é apenas econômico; é profundamente político e cultural. A política científica, orientada por métricas internacionais, rankings, patentes e parcerias assimétricas, reforça a ideia de que o conhecimento válido é aquele certificado pelos centros hegemônicos. Culturalmente, forma-se uma geração de usuários de ciência, técnicos, produtores, gestores e até pesquisadores, treinados para aplicar soluções externas, mas não para formular perguntas próprias. A capacidade crítica é substituída pela eficiência operacional; a leitura ecológica do território cede espaço à obediência técnica. O fogo continua aceso, mas não aquece igualmente todos os corpos: ilumina uns poucos e ofusca muitos.
O castigo de Prometeu, nesse sentido, não recai apenas sobre quem ousa desafiar o Olimpo contemporâneo, mas sobre sociedades inteiras que aceitam a condição de dependência como natural. A ciência de mercado oferece respostas rápidas, mas cobra um preço alto: erosão de solos, degradação de paisagens, perda de soberania alimentar, fragilização de economias locais e invisibilização de saberes construídos ao longo de gerações. A dor é cíclica porque os problemas retornam, mesmo após cada nova “solução” tecnológica.
Reverter esse castigo exige recuperar o sentido prometeico original da ciência: conhecimento como bem comum, construído a partir da realidade concreta e orientado para a autonomia dos povos. Nos trópicos, isso implica investir em ciência situada, capaz de dialogar com a ecologia local, com a diversidade biológica e com os sistemas culturais existentes. Implica também enfrentar a influência desmedida do mercado sobre a agenda científica, recolocando a ética, o interesse público e a soberania territorial no centro da produção do conhecimento.
Prometeu não foi punido por criar o fogo, mas por distribuí-lo. Talvez o verdadeiro castigo contemporâneo não seja a dor do titã, mas a recusa coletiva em assumir o risco de produzir e compartilhar uma ciência enraizada, crítica e emancipada. Enquanto o fogo permanecer sob controle externo, os trópicos continuarão aquecidos por chamas que não acenderam e pagando, dia após dia, o preço desse empréstimo.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC