
Afonso Peche Filho*
A ciência não nasce neutra. Ela é sempre fruto de escolhas: o que pesquisar, para quem pesquisar, com que finalidade e sob quais critérios de valor. Por isso, falar em construção ética da ciência significa reconhecer que a identidade científica não se forma apenas no rigor metodológico, mas, sobretudo, na relação entre o conhecimento produzido e as necessidades reais da sociedade. Quando essa relação se rompe, a ciência corre o risco de deixar de ser um bem público para tornar-se mercadoria estratégica.
Historicamente, a ciência emergiu como instrumento de compreensão do mundo e de resolução de problemas concretos: produzir alimento, compreender doenças, organizar territórios, melhorar condições de vida. Sua legitimidade social sempre esteve vinculada à sua capacidade de responder a desafios coletivos. No entanto, nas últimas décadas, observa-se um deslocamento preocupante: a centralidade das demandas sociais cede espaço às demandas do mercado, dos rankings, das métricas de produtividade e da rentabilidade de curto prazo.
Esse deslocamento não ocorre de forma explícita ou violenta; ele se instala silenciosamente. Linhas de pesquisa passam a ser moldadas por editais que privilegiam inovação mercadológica em detrimento de relevância social. Temas estruturantes, como segurança alimentar, conservação ambiental, desigualdade territorial ou saúde pública preventiva, tornam-se secundários por não gerarem patentes, startups ou retornos financeiros imediatos. A ciência, então, começa a responder mais ao investidor do que ao cidadão.
A ética científica, nesse contexto, não se limita à honestidade dos dados ou à ausência de fraude. Ela se manifesta, sobretudo, na finalidade do conhecimento. Uma ciência eticamente construída pergunta, antes de tudo: a quem este saber serve? Serve para ampliar capacidades humanas ou para concentrar poder? Serve para reduzir vulnerabilidades ou para criar novas dependências? Serve à vida ou apenas à lógica do lucro?
Quando a identidade científica é forjada pelo mercado, o pesquisador tende a se tornar um operador técnico altamente especializado, porém progressivamente desconectado do território, da comunidade e das consequências sociais do seu trabalho. O saber se fragmenta, perde contexto, perde humanidade. A ciência pode até avançar tecnologicamente, mas recua eticamente.
Por outro lado, quando a ciência se ancora nas necessidades da sociedade, ela se reconecta com sua função civilizatória. Isso não significa rejeitar a tecnologia, a inovação ou a eficiência econômica, mas subordiná-las a critérios éticos mais amplos. A economia passa a ser meio, não fim. A inovação deixa de ser fetiche e volta a ser ferramenta. O pesquisador assume, conscientemente, sua condição de agente social.
Essa construção ética exige coragem institucional e individual. Exige resistir à pressão por resultados rápidos quando os problemas são complexos e de longa duração. Exige valorizar pesquisas de base, estudos territoriais, processos participativos e saberes interdisciplinares, frequentemente menos “vendáveis”, mas profundamente transformadores. Exige, sobretudo, recuperar a noção de que ciência é investimento público com responsabilidade pública.
A identidade científica, portanto, não se define apenas pelo título acadêmico, pelo fator de impacto ou pelo volume de recursos captados. Ela se constrói na coerência entre conhecimento, realidade e compromisso social. Um cientista não é apenas quem sabe mais, mas quem compreende para quem e para que sabe.
Em tempos de crises ambientais, sociais e éticas, a ciência que se curva exclusivamente ao mercado se torna frágil, volátil e descartável. Já a ciência construída a partir das necessidades da sociedade é resiliente, duradoura e legitimada. Ela não apenas produz respostas, mas ajuda a formular as perguntas certas.
No fim, a construção ética da ciência é um exercício permanente de escolha. Escolher servir à vida, à dignidade humana e ao futuro comum. Escolher não confundir valor científico com valor de mercado. Escolher lembrar que, sem compromisso social, a ciência perde seu sentido mais profundo: ser instrumento de cuidado, compreensão e emancipação da sociedade que a sustenta.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC