
Afonso Peche Filho*
O colapso raramente acontece em um único instante; ele amadurece, se infiltra silenciosamente nas estruturas e só se torna evidente quando o estrago já é irreversível. No cenário futurista aqui imaginado, o desmonte das instituições de pesquisa não se dá pela força das armas, mas pela lenta corrosão das suas bases: o financiamento rarefeito, a burocratização estéril, a manipulação política do mérito técnico e a erosão dos valores científicos. Quando o conhecimento deixa de ser uma construção coletiva e passa a ser moeda de troca, a ciência perde o seu caráter social e o país perde o seu futuro.
Neste contexto distópico, as universidades e institutos de pesquisa tornam-se fragmentos isolados, incapazes de dialogar ou somar esforços. A interdisciplinaridade, outrora celebrada, cede lugar ao individualismo defensivo. Os laboratórios competem entre si por migalhas de financiamento, enquanto projetos estratégicos são interrompidos por conveniência ideológica. A crítica deixa de ser elemento constitutivo do avanço científico e passa a ser tratada como insubordinação. A autonomia científica, sem apoio institucional, se dissolve.
As ideologias divergentes também desempenham papel decisivo nesse processo. A ciência, antes compreendida como prática racional de construção do conhecimento, é capturada por narrativas políticas de ocasião. Grupos disputam a definição do que é “verdadeiro” e do que é “útil”, não com base na consistência empírica ou teórica, mas no alinhamento com seus interesses. Assim, as agendas de pesquisa deixam de ser guiadas por problemas estratégicos de longo prazo, como a segurança hídrica, energética e alimentar, e passam a obedecer aos humores de governos, empresas ou movimentos digitais efêmeros.
É nesse ambiente polarizado que os choques éticos se tornam inevitáveis. Pesquisadores precisam decidir entre aderir às diretrizes de uma ideologia ou resistir silenciosamente. A integridade científica, antes um valor universal, torna-se uma escolha moral arriscada. Há quem se acomode, há quem negocie, há quem se retire, e há os poucos que insistem em preservar a essência da pesquisa mesmo sem garantias. Essa heterogeneidade de respostas revela que a ética não colapsa de forma homogênea: ela se desmancha por fricção.
O fomento científico, por sua vez, revela-se o elo mais frágil. Em vez de política de Estado, torna-se política de governo, quando não política de facção. O fomento deixa de ser estímulo à criatividade científica e passa a ser um sistema de controle. Editais são moldados para consolidar agendas ideológicas, premiar alinhamentos e punir dissidências. O mérito técnico é substituído pelo mérito político. A pesquisa de risco, que sempre foi o motor das grandes descobertas, se torna inviável, pois não cabe em planilhas de performance imediata. Sem risco, não há avanço científico; sem avanço, a ciência se reduz à manutenção de protocolos.
Que sobra então após o colapso? A primeira resposta é melancólica: sobra a memória. Instituições, mesmo fragilizadas, deixam rastros. Teses, artigos, coleções, herbários, laboratórios e arquivos testemunham o esforço coletivo de um período em que o conhecimento ainda era entendido como bem público. A memória, entretanto, é insuficiente se ficar restrita ao passado; ela precisa ser capaz de inspirar reconstrução.
A segunda resposta é mais resiliente: sobra a comunidade científica enquanto conceito. A ciência nunca foi totalmente dependente de prédios, ministérios ou editais. Ela nasce do encontro entre pesquisadores, ideias, problemas e curiosidade. Mesmo reduzida à subversão intelectual, a ciência continua existindo enquanto forma de pensar. Ela espera brechas, reorganiza-se em pequenos núcleos, cria redes subterrâneas e, quando encontra condições mínimas, ressurgirá com vigor.
A terceira resposta é a que oferece sentido: sobra a necessidade. O colapso deixa evidente que a pesquisa não é luxo intelectual, mas instrumento de sobrevivência. Quando crises ecológicas, sanitárias e econômicas se intensificam, percebe-se tarde demais que o conhecimento especializado era mais valioso do que parecia. É essa constatação que abre caminho para a reconstrução. Após o colapso, resta relembrar a lição fundamental: a ciência só floresce quando é tratada como bem comum e quando a sociedade reconhece que o futuro depende dela.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas.