Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo

Atua na defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo

Incertezas éticas na pesquisa

Afonso Peche Filho*

A pesquisa científica é frequentemente apresentada como o território da objetividade, da racionalidade e do compromisso com a verdade. No entanto, na prática institucional, a ciência é produzida por pessoas inseridas em estruturas hierárquicas, políticas e econômicas que influenciam decisões, silêncios e prioridades. Nesse contexto, as incertezas éticas não surgem apenas da complexidade dos fenômenos estudados, mas sobretudo da tensão entre o compromisso com o conhecimento e a conveniência institucional. Evitar verdades desconfortáveis torna-se, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência dentro dos próprios sistemas de pesquisa.

A ética científica não se limita ao rigor metodológico ou à integridade na coleta e análise de dados. Ela se manifesta, de forma mais profunda, na disposição, ou não, de enfrentar resultados que contrariam narrativas consolidadas, interesses estabelecidos ou agendas políticas. Quando evidências apontam falhas estruturais, impactos negativos de tecnologias amplamente adotadas, ou limites ecológicos e sociais de determinados modelos produtivos, instala-se um campo de desconforto. É nesse momento que a dúvida ética emerge: revelar, silenciar ou suavizar?

Em muitos institutos de pesquisa, especialmente aqueles fortemente dependentes de financiamento público condicionado ou de parcerias estratégicas, o poder institucional exerce influência direta sobre o que pode ser investigado, publicado ou enfatizado. O abuso de poder raramente se expressa de forma explícita; ele se materializa por meio de cortes orçamentários seletivos, bloqueios de progressão na carreira, desqualificação simbólica de linhas de pesquisa críticas ou pela simples exclusão de temas considerados “sensíveis”. O resultado é um ambiente no qual a autocensura se torna prática cotidiana.

Nessas condições, a dúvida deixa de ser apenas epistemológica e passa a ser ética. O pesquisador sabe que determinado dado é relevante, que determinada conclusão é necessária para o interesse público, mas também sabe que sua divulgação pode gerar conflitos institucionais, isolamento profissional ou perda de apoio. A decisão de evitar a verdade desconfortável, nesse caso, não decorre de ignorância, mas de cálculo. Trata-se de uma escolha racional dentro de um sistema que penaliza a dissonância.

Esse comportamento, embora compreensível do ponto de vista humano, produz efeitos corrosivos sobre a ciência. Ao abdicar de seu papel crítico, a pesquisa passa a reforçar consensos frágeis, legitimar políticas equivocadas e sustentar modelos que já demonstraram limites técnicos, ambientais ou sociais. A ciência deixa de atuar como instância de alerta e passa a funcionar como mecanismo de validação institucional. O conhecimento torna-se funcional ao poder, e não à sociedade.

Há ainda um aspecto coletivo dessa omissão. Quando a maioria dos pesquisadores opta pelo silêncio ou pela neutralidade aparente, cria-se a ilusão de consenso científico. A ausência de conflito é interpretada como maturidade institucional, quando, na realidade, pode ser o resultado de um ambiente que desestimula o questionamento. Assim, verdades desconfortáveis não são refutadas, simplesmente deixam de ser formuladas. O debate científico empobrece, e a inovação real é substituída por ajustes incrementais seguros.

As incertezas éticas na pesquisa revelam, portanto, uma contradição central: a ciência é socialmente demandada para apontar limites, riscos e caminhos alternativos, mas institucionalmente pressionada a não tensionar estruturas de poder. Esse paradoxo é particularmente evidente em áreas estratégicas, como agricultura, meio ambiente, saúde pública e planejamento territorial, nas quais os resultados científicos têm implicações diretas sobre políticas públicas e interesses econômicos.

Reconhecer essa realidade não significa desqualificar a ciência ou os cientistas, mas compreender que a ética científica exige mais do que boas intenções. Exige coragem institucional, proteção à autonomia intelectual e mecanismos que assegurem que a pesquisa possa cumprir sua função crítica sem que isso represente um risco pessoal inaceitável aos pesquisadores. Sem essas condições, a dúvida ética continuará sendo resolvida pelo caminho mais silencioso.

Em última instância, evitar verdades desconfortáveis pode preservar carreiras e instituições no curto prazo, mas compromete a credibilidade da ciência no longo prazo. Uma pesquisa que abdica de enfrentar o incômodo renuncia à sua principal função social: iluminar zonas de conflito, revelar limites e contribuir para decisões mais responsáveis. A ética da pesquisa começa exatamente onde termina o conforto institucional.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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